MAR MORTO
Jorge Amado

Agora eu quero contar as histrias da beira do cais da Bahia. Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros, 
sabem essas histrias e essas canes. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recncavo, junto aos enormes navios suecos 
nas pontes de Ilhus. O povo de Iemanj tem muito que contar.

Vinde ouvir essas histrias e essas canes. Vinde ouvir a histria de Guma e de Lvia, que  a histria da vida e do amor no mar. E se ela no vos parecer bela 
a culpa no  dos homens rudes que a narram.  que a ouvistes da boca de um homem da terra, e dificilmente um homem da terra entende o corao dos marinheiros. Mesmo 
quando esse homem ama essas histrias e essas canes e vai s festas de D. Janana, mesmo assim ele no conhece todos os segredos do mar. Pois o mar  mistrio 
que nem os velhos marinheiros entendem.

IEMANJ, DONA DOS MARES E DOS SAVEIROS

Tempestade

A noite se antecipou. Os homens ainda no a esperavam quando ela desabou sobre a cidade em nuvens carregadas. Ainda no estavam acesas as luzes do cais, no "Farol 
das Estrelas" no brilhavam ainda as lmpadas pobres que iluminavam os copos de cachaa, muitos saveiros ainda cortavam as guas do mar, quando o vento trouxe a 
noite de nuvens pretas.
Os homens se olharam e como que se interrogavam, fitavam o azul do oceano a perguntar donde vinha aquela noite adiantada no tempo. No era a hora ainda. No entanto, 
ela vinha carregada de nuvens, precedida do vento frio do crepsculo, embaciando o Sol, como num milagre terrvel.
A noite veio, nesse dia, sem msica que a saudasse. No ecoara pela cidade a voz clara dos sinos do fim da tarde. Nenhum negro aparecera ainda de violo na areia 
do cais. Nenhuma harmnica saudava a noite da proa de um saveiro. No rolara sequer pelas ladeiras o baticum montono dos candombls e macumbas. Porque ento a noite 
j chegara sem esperar a msica, sem esperar o aviso dos sinos, a cadncia das violas e harmnicas, o misterioso bater dos instrumentos religiosos? Porque viera 
assim antes da hora, fora do tempo?
Aquela era uma noite diferente e angustiante. Sim, porque os homens tinham um ar de desassossego e o marinheiro que bebia solitrio no "Farol das Estrelas" correu 
para o seu navio como se o fosse salvar de um desastre irremedivel. E a mulher, que no pequeno cais do mercado esperava o saveiro onde vinha o seu amor, comeou 
a tremer, no do frio do vento, no do frio da chuva, mas de um frio que vinha do corao amante cheio de maus pressgios da noite que se estendia repentinamente.
Porque eles, o marinheiro e a mulher morena, eram familiares do mar e bem sabiam que se a noite chegara antes da hora, muitos homens morreriam no mar, navios no 
terminariam a sua rota, mulheres vivas chorariam sobre a cabea dos filhos pequeninos. Porque, eles sabiam, no era a verdadeira noite, a noite da lua e das estrelas, 
da msica e do amor, que chegara. Esta s chegava na sua hora, quando os sinos tocavam e um negro cantava ao violo, no cais, uma cantiga de saudade. A que chegara 
carregada de nuvens, trazida pelo vento, fora a tempestade que derrubava os navios e matava os homens. A tempestade  a falsa noite.
A chuva veio com fria e lavou o cais, amassou a areia, balanou os navios atracados, revoltou os elementos, fez com que fugissem todos aqueles que esperavam a chegada 
do transatlntico. Um homem na estiva disse ao companheiro que ia haver tempestade. Como um monstro estranho um guindaste atravessou a chuva e o vento, carregando 
fardos. A chuva aoitava sem piedade os homens negros da estiva. O vento passava veloz, assoviando, derrubando coisas, amedrontando as mulheres. A chuva enribaciava 
tudo, fechava at os olhos dos homens. S os guindastes se moviam negros, Um saveiro virou no mar e dois homens caram n'gua. Um era jovem e forte. Talvez tivesse 
murmurado um nome naquela hora final. No era uma praga, com certeza, porque soava docemente na tempestade.
O vento arrancou a vela do saveiro e levou-a para o cais como uma notcia trgica. O bojo das guas se elevou, as ondas bateram nas pedras do cais. As canoas no 
Porto da Lenha se agitavam e os canoeiros resolveram no voltar naquela noite para as cidadezinhas do Recncavo. A vela do saveiro naufragado caiu no quebra-mar 
e ento se apagaram as lanternas de todos os saveiros, mulheres rezaram a orao dos defuntos, os olhos dos homens se estenderam para o mar.
Diante do copo de cachaa o preto Rufino no sorriu mais. Assim com a tempestade, Esmeralda no viria.
As luzes se acenderam, mas estavam fracas e oscilavam. Os homens que esperavam o transatlntico no viam nada. Eles haviam entrado para os armazns e mal enxergavam 
o vulto dos guindastes e o vulto dos carregadores que, curvados, atravessavam a chuva. Mas no viam o navio esperado onde viriam amigos, pais e irmos, noivas talvez. 
No viam o homem que chorava na 3 classe. Pela face do homem que vinha pela estrada do mar, que tocara em vinte portos diversos, a chuva se misturava com as lgrimas, 
a lembrana das lamparinas da sua aldeia se confundia com as luzes embaciadas da cidade tempestuosa.
Mestre Manuel, o marinheiro que mais conhecia aqueles mares, resolveu no sair com seu saveiro naquela noite. O amor  bom nas noites de temporal e a carne de Maria 
Clara tinha gosto de mar.
As luzes do velho forte estavam apagadas. Tambm as lanternas dos saveiros. Foi quando faltou luz na cidade. At os guindastes pararam e os homens da estiva entraram 
para os armazns. Guma, do seu saveiro, que era o "Valente", viu que as luzes se apagaram e teve medo. Ia com a mo no leme, o barco virado de um lado. Aqueles que 
esperavam o transatlntico se foram em automveis para lugares mais movimentados. S ficou um homem que apertou a mo de outro quando ele desceu do transatlntico:
- Tudo bem ?
- Tudo - sorriu o outro.
O que estava aguardando chamou um automvel e os dois seguiram silenciosos. Os companheiros J estariam esperando.
O homem que chegara na 3. classe ficou olhando a cidade de costumes diversos, de lngua diversa. Apertou contra o peito a carteira quase vazia e se atirou pela 
primeira ladeira que encontrou com o seu saco de viagem. O cais se despovoou.
S Lvia, magra, de cabelos finos colados ao rosto pela chuva, ficou diante do cais dos saveiros olhando o mar. Ouvia os gemidos de amor de Maria Clara. Mas seus 
pensamentos e seus olhos estavam no mar. O vento a sacudia como se ela fosse um canio, a chuva a chicoteava no rosto, nas pernas e nas mos. Mas ela continuava 
imvel, o corpo atirado para a frente, os olhos na escurido, esperando ver a lanterna vermelha do "Valente" cruzar a tempestade, iluminando a noite sem estrelas, 
anunciando a chegada de Guma.

Cancioneiro do cais

De repente, rpida como viera, a tempestade foi para outros mares, naufragar outros navios. Lvia ouvia agora os gemidos de Maria Clara. No eram mais, porm, gritos 
agudos de prazer e dor, gritos de animal ferido, que atravessavam a tempestade com um ar de desafio. Agora, que pela cidade, pelo cais, pelo mar, se estendia a verdadeira 
noite, a do amor e da msica, a das estrelas e da lua, o amor no saveiro de mestre Manuel era doce e repousante. Os gemidos de Maria Clara eram como soluos de alegria, 
quase em surdina, quase cano. Lvia tirou por um momento os olhos do mar sereno e ouviu aqueles gemidos. Em breve Guma chegaria, o "Valente" atravessaria a baa, 
e ela o teria entre os braos morenos, e gemeriam de amor. Agora a tempestade cessara, ela j no tinha medo. No demoraria a enxergar a lanterna vermelha do saveiro 
brilhando na noite do mar. Pequenas ondas batiam nas pedras do cais e os saveiros balouavam mansamente. Ao longe, as luzes brilhavam sobre o asfalto molhado da 
cidade. Grupos de homens que j no tinham nem pressa, nem medo, se encaminhavam para o grande elevador. Lvia se voltou para o mar. H oito dias que no via Guma. 
Ela ficara na casinha velha do cais. No fora desta vez com ele para a aventura sempre renovada da viagem pela baa e pelo rio calmo. Se ela estivesse no saveiro 
quando a tempestade desabara, teria sido melhor. Ele ficaria temeroso pela vida da companheira, mas, no entanto, Lvia no teria medo nenhum, porque estaria com 
ele, e ele conhecia todos os caminhos do mar, seus olhos valiam como lanternas, e suas mos eram seguras no leme. Ele no tardaria a chegar. Viria encharcado da 
tempestade, contando histrias, musculoso e risonho, com o nome de Lvia e uma seta tatuados no brao. Ela sorriu. Seu longo, corpo moreno se voltou todo para os 
gemidos de Maria Clara. Estava negro no cais, uma ou outra lanterna brilhava nos saveiros, mas ela distinguia perfeitamente o de mestre Manuel, donde vinham os gemidos. 
L estava ele amarrado ao cais, balouando nas ondas. Ali um homem e uma mulher se amavam e os seus gemidos chegavam at Lvia. Mais tarde, daqui a bem pouco tempo, 
seria ela quem na proa de um saveiro apertaria contra o seu corpo o corpo forte de Guma, beijaria os seus cabelos morenos, sentiria o gosto de mar do seu corpo, 
o gosto de morte que ainda haveria nos seus olhos mal chegados da tempestade. E os seus gemidos de amor seriam mais doces do que os de Maria Clara, porque estariam 
cheios da longa espera e do medo que a invadira. Maria Clara deixaria de arriar para ouvir a msica de soluos e de risos que sairia de seus lbios quando Guma a 
apertasse, a prendesse, nos seus braos molhados do mar.
Um mestre de saveiro passa e deseja boa-noite a Lvia. Um grupo mais longe examina a vela do saveiro que virou. Ela est muito branca, rasgada, perto do cais. Homem, 
j partiram num saveiro para ir procurar os corpos. Mas Lvia pensa em Guma, que est a chegar, e no amor que a espera. Ser mais feliz que Maria Clara, que no 
esperou, nem teve medo.
- Sabe quem morreu, Lvia? Ela se assusta. Mas aquela vela no  a do "Valente". A do seu saveiro  bem maior e no se rasgaria assim. Lvia se volta e pergunta 
a Rufino:
- Quem foi ?
- Raimundo e o filho. Viraram bem perto da cidade. A tempestade estava braba.
Nessa noite, pensa Lvia, Judith no ter amor na sua casinha, nem no saveiro do seu marido. Jacques, o filho de Raimundo, morrera. Ir at l. Depois que Guma chegar, 
que matarem as saudades, que se amarem. Rufino olha a Lua que sai:
- J foi gente buscar os corpos.
- Judith j sabe?
- Eu vou dizer...
Lvia olha o preto. Gigantesco e cheira a cachaa. Andou bebendo, com certeza, no "Farol das Estrelas". Porque ser que ele olha a lua cheia que sobe para o meio 
do mar e ilumina tudo com uma rstia prateada? Maria Clara ainda solua de amor. Judith no ter amor esta noite. Lvia amar quando, Guma chegar molhado da tempestade, 
com gosto de mar. Como est belo o mar com a Lua alvejando tudo! Rufino est ali parado. Do forte velho vem uma msica. Tocam harmnica e cantam:
A noite  para o amor...
Voz possante de negro. Rufino olha a Lua. Talvez ele pense, tambm, que Judith no ter amor esta noite. Nem nunca mais... o seu homem morreu no mar.
Vem amar nas guas, que a lua brilha...
Lvia pergunta a Rufino:
- Judith ainda est morando com a me dela?
- No. A velha velejou para Cachoeira...
Disse isso sem jeito, espiando a lua. Um negro est cantando no forte velho, mas a sua cano no consolar Judith. Rufino estende a mo:
- Vou me botando...
- Depois vou l...
Rufino d uns passos. Pra:
-  coisa triste... Ruim de se falar... Dizer que morreu.. .
Coa a cabea. Lvia ficou triste, nunca mais Judith amar. Nunca mais vir amar, no mar, na hora em que a lua brilha. Para ela, a noite no ser mais para o amor, 
ser para as lgrimas. Rufino joga as mos para a frente:
- Vem comigo, Lvia. Voc sabe dizer...
Mas o amor a espera, Guma chegar em breve no "Valente", a lanterna vermelha no tardar a brilhar, no demorar a hora de os corpos se apertarem. No tardar que 
ele passe sob a rstia de luz que a Lua estendeu no mar. O amor a espera, Lvia no pode ir. Naquele dia, depois do medo, depois da viso de Guma se afogando, ela 
quer amor, quer alegria, gemidos de posse. No pode ir chorar com Judith, que nunca mais amar.
- Estou vendo se Guma chega, Rufino. Ser que o negro vai pensar que ela  ruim? Mas Guma no demorar. Fala: - Depois vou l...
Rufino abana as mos:
- Ento, boa noite.
- At logo...
Rufino d mais uns passos sem vontade. Olha a Lua. Ouve o homem que canta:
Vem amar nas guas, que a Lua brilha...
Volta-se para Lvia:
- Voc sabia que ela t prenha?
- Judith?
- ...
Saiu andando. Ainda olha a lua. Do forte velho cantam:
A noite  para o amor...
Maria Clara solua e ri nos braos do seu homem. Lvia sai quase correndo e grita para Rufino, cuja sombra se v ao longe:
- Eu vou com voc...
Vo andando. Ela ainda olha o mar longamente. Quem sabe se aquela lanterna que brilha ao longe no ser a do "Valente".

Judith  mulata e a barriga j se estende deformando o vestido de chita. Esto todos em silncio. O preto Rufino abana as mos, no tem onde bot-las, olha os outros 
espantado. Lvia  toda ela um gesto de conforto, as mos amparando a cabea de Judith. Outros j chegaram. Deram psames e ali, em volta da sala, esperam que tragam 
os corpos que os homens procuram no mar. Donde est Judith vm soluos entrecortados, e as mos de Lvia se erguem em gestos carinhosos. Depois, entraram mestre 
Manuel e Maria Clara, ela com os olhos pisados.
Nada recorda mais a tempestade. Nem Maria Clara solua mais de amor. Porque ento Judith chora, Judith est viva, os homens esperam dois corpos? Bem que o preto 
Rufino gostaria de ir embora, de fugir dali, de ir para a alegria dos braos de Esmeralda. Ele sofre a tristeza da casa, a dor de Judith, est sem ter onde botar 
as mos, e sabe que sofrer mais ainda quando o corpo entrar e Judith tiver o ltimo encontro com o homem que a amava, que lhe fez um filho, que possua seu corpo.
Lvia  que tem coragem. Ainda  mais bela assim. Quem no gostaria de casar com Lvia e ser chorado por ela quando morresse no mar? Ela, nessa hora,  como uma 
irm de Judith,
Decerto ela tambm tem vontade de fugir, de ir esperar Guma na beira do cais para uma noite sob as estrelas. O sofrimento de Judith di em todos e Maria Clara pensa 
que um dia, talvez, mestre Manuel fique no mar, numa noite de tempestade, e que Lvia deixe de esperar Guma para vir dar a notcia. Aperta com fora o brao de mestre 
Manuel, que pergunta:
- Que ? Mas ela est chorando e mestre Manuel fica mudo.
Trouxeram uma garrafa de cachaa. Lvia leva Judith para o quarto. Maria Clara vai com elas e agora substitui Lvia e chora com a viva, chora por ela prpria.
Lvia volta para a sala. Agora, os homens conversam em voz baixa, comentam a tempestade, falam do pai e do filho que morreram nesta noite. Um negro diz:
- O velho era um macho bom... Coragem como trs...
Um outro comea a contar uma histria:
- Vocs se lembram daquele temporal de Junho? Pois Raimundo,...
Algum abre a garrafa de cachaa. Lvia atravessa o grupo e chega at a porta... Ouve o rudo do mar sereno, rudo sempre igual, rudo de, todos os dias. Guma no 
deve tardar e sem dvida a vir procurar na casa de Judith. Nas trevas do cais ela distingue as velas dos saveiros. E, de repente, a assalta o mesmo receio que assaltara 
Maria Clara. E se, numa noite, lhe viessem trazer a notcia de que Guma estava no fundo do mar e o "Valente" vagava sem rumo, sem leme, sem gula? S ento ela sentiu 
toda a dor de Judith, se sentiu totalmente sua irm, irm tambm de Maria Clara, de todas as mulheres do mar, mulheres de destinos iguais: esperar numa noite de 
tempestade a notcia da morte de um homem.
Do quarto, vm os soluos de Judith. Ficou com um filho na barriga. Talvez, um dia, ainda chore, tambm, a morte desse filho, no mar. No grupo da sala um homem fala:
- Salvou cinco... Era uma noite de fim de mundo... Muita gente viu a me-d'gua nessa noite. Raimundo...
Judith solua no quarto. O destino de todas elas. Os homens da beira do cais s tm uma estrada na sua vida: a estrada do mar. Por ela entram, que seu destino  
esse.
O mar  dono de todos eles. Do mar vem toda a alegria e toda a tristeza porque o mar  mistrio que nem os marinheiros mais velhos entendem, que nem entendem aqueles 
antigos mestres de saveiro que no viajam mais, e, apenas, remendam velas e contam histrias. Quem j decifrou o mistrio do mar? Do mar vem a msica, vem o amor 
e vem a morte. E no  sobre o mar que a Lua  bela? O mar  instvel. Como ele  a vida dos homens dos saveiros. Qual deles j teve um fim de vida igual ao dos 
homens da terra que acarinham netos e renem as famlias nos almoos e jantares? Nenhum deles anda com esse passo firme dos homens de terra. Cada qual tem alguma 
coisa no fundo do mar: um filho, um irmo, um brao, um saveiro que virou, lima vela que o vento da tempestade despedaou. Mas tambm qual deles no sabe cantar 
essas canes de amor nas noites do cais? Qual deles no sabe amar com violncia e doura? Porque toda a vez que cantam e que amam, bem pode ser a ltima. Quando 
se despedem das mulheres no do rpidos beijos, como os homens da terra que vo para os seus negcios. Do adeuses longos, mos que acenam, como que ainda chamando.
Lvia olha os homens que sobem a pequena ladeira. Vm em dois grupos. Lanternas do um ar de fantasmagoria a esta procisso fnebre. Como que pressentindo a chegada, 
os soluos de Judith redobram no quarto. Bastaria ver os homens de cabea descoberta para saber que eles trazem os corpos, pai e filho morreram juntos na tempestade. 
Sem dvida um tentou salvar o outro e pereceram no mar. No fundo de tudo, vinda do forte velho, vinda do cais, dos saveiros, de algum lugar distante e indefinvel, 
uma msica confortadora acompanha os corpos. Diz que  doce morrer no mar...
Lvia solua. Ampara Judith no seu peito, mas solua tambm, solua pela certeza que seu dia chegar e o de Maria Clara e o de todas elas. A msica atravessa o cais 
para chegar at eles:
 doce morrer no mar...
Mas naquela hora nem a presena de Guma, que vem com o cortejo e foi quem descobriu os corpos, conforta o corao de Lvia.
S a msica que vem de um lugar indefinvel (talvez seja mesmo do forte velho), dizendo que  doce morrer no mar, lembra a morte do marido de Judith. Os corpos agora 
estaro estendidos na sala, Judith chorando ajoelhada ao lado de seu marido, os homens em torno, Maria Clara com medo que um dia Manuel se afogue tambm.
Mas para que pensar nisso, pensar em morte, em tristezas, quando o amor a espera? Porque esto na proa do "Valente", Lvia estendida no madeirante bem por baixo 
da vela enrolada, espiando seu homem, que fuma sossegadamente no cachimbo. Para que pensar em morte, em homens lutando contra as ondas, quando seu homem est ali, 
salvo da tempestade, fumando um cachimbo que  mesmo a estrela mais bonita deste mar? Mas Lvia pensa. Est triste porque ele no vem apert-la nos seus braos tatuados. 
E ela est esperando, as mos em baixo da cabea, os seios meio aparecendo sob o vestido que a aragem da noite, agora calma, suspende e balana. Tambm o saveiro 
balana mansamente.
Lvia espera e  bela nessa espera, ela  a mulher mais bela da beira do cais e desse saveiro. Nenhum mestre de saveiro tem uma mulher como Guma. Todos dizem isso 
e sorriem todos para ela. Todos gostariam de t-la nos braos musculosos das travessias. Mas ela  somente de Guma, casou foi com ele na igreja de Monte Serrat, 
onde se casam os pescadores, os canoeiros e os mestres de saveiro. Mesmo marinheiros que vinham por mares longnquos, em paquetes enormes, vm casar na igreja de 
Monte Serrat, que  a Igreja deles, trepada no morro, dominando o mar. Ela casou ali, com Guma, era desde ento, nas noites do cais, no seu saveiro, nos quartos 
do "Farol das Estrelas", na areia do cais, eles se amam, confundem os corpos sobre o mar e sob a Lua.
E hoje, que ela tanto esperou na tempestade, hoje, que ela tanto deseja porque muito temeu, ele fuma sem pensar nela. Por isso, ela se recorda de Judith, a que no 
ter mais amor, aquela para quem a noite ser sempre a hora de chorar. Se recorda: ela ficou atirada junto do seu homem. Olhava para o rosto dele, aquele rosto que 
no se movia mais, que j no sorria, rosto que j passara sob as ondas, olhos que j haviam visto Iemanj, a me-d'gua.
Lvia pensa com raiva em Iemanj. Ela  a me-d'gua,  a dona do mar, e, por isso, todos os homens que vivem em cima das ondas a temem e a amam. Ela castiga. Ela 
nunca se mostra aos homens, a no ser quando eles morrem no mar. Os que morrem na tempestade so seus preferidos. E aqueles que morrem salvando outros homens, esses 
vo com ela pelos mares em fora. Igual a um navio, viajando por todos os portos. Tendo por todos os mares. Destes ningum encontra os corpos, que eles vo com Iemanj. 
Para ver a me-d'gua muitos j se jogaram no mar sorrindo e no mais apareceram. Ser que ela dorme com todos eles no fundo das guas? Lvia pensa nela com raiva. 
A estas horas ela estar com pai e filho que morreram na tempestade e talvez at que eles lutem por ela, eles, que foram to amigos toda a vida. Morrendo, ainda 
o pai quis salvar o filho. Quando Guma encontrou os corpo6, a mo do velho segurava a camisa do filho. Morreram amigos, e agora, quem sabe? Talvez que, por causa 
de Iemanj, a dona do mar, mulher, que s os mortos vem, eles estejam brigando. Raimundo puxando a faca que os homens no encontraram no seu cinto porque ele a 
levou consigo. Lutaro talvez no fundo das guas para saber quem vai com ela correr os mares, ver as cidades do outro lado da Terra. Judith que est chorando, Judith 
que tem um filho na barriga, Judith que ir se acabar no trabalho duro, Judith que nunca mais amar um homem, j estar esquecida porque a me-d'gua  loira e tem 
cabelos compridos e anda nua debaixo das ondas, vestida somente com os cabelos que a gente v quando a Lua passa sobre o mar.
Os homens da terra (que sabem os homens da terra?) dizem que so os raios da Lua sobre o mar. Mas os marinheiros, os mestres de saveiro, os canoeiros, riem dos homens 
da terra que no sabem nada. Eles bem sabem que so os cabelos da me-d'gua, que vem ver a lua cheia.  Iemanj quem vem olhar a Lua. Por isso os homens ficam contemplando 
o mar prateado nas noites de lua. Porque sabem que a me-d'gua est ali. Os negros tocam violo, harmnica, batem batuque e cantam. O presente que eles trazem para 
a dona do mar. Outros fumam cachimbo para iluminar o caminho, assim Iemanj ver melhor. Todos a amam e at esquecem as mulheres quando os cabelos da me-d'gua 
se estendem sobre o mar.
Assim est Guma, que olha o bojo de prata das guas e ouve a msica do negro que convida para a morte. Ele diz que  doce morrer no mar, porque iro encontrar a 
me-d'gua, que  a mulher mais bonita do mundo todo. Guma est fitando os cabelos dela, esquecido que Lvia est ali, o corpo estirado, os seios se ofertando, Lvia, 
que tanto esperou a hora do amor, Lvia que viu a tempestade destruindo tudo, derrubando saveiros, matando homens. Lvia que muito temeu. Bem que Lvia gostaria 
de t-lo nos seus braos, de beijar a sua boca e nela descobrir se ele teve medo quando as luzes se apagaram, de apertar o seu corpo para saber se o mar o molhou. 
Mas agora ele est esquecido de Lvia, ele s pensa em Iemanj, a dona do mar. Talvez ele tenha inveja do pai e do filho que morreram na tempestade e que agora correro 
os mundos que s os marinheiros dos grandes navios conhecem. Lvia tem dio, tem vontade de chorar, tem vontade de se apartar do mar, de ir para muito longe.
Um saveiro passa. Lvia se suspende sobre o brao para ver melhor. Gritam para Guma:
- Boa noite, Guma...
Guma sacode a mo: -Boa viagem...
Lvia olha para ele. Agora que uma nuvem cobriu a Lua e Iemanj foi embora, ele apagou o cachimbo e sorri. Ela se encolhe toda j com prazer, j sentindo os seus 
braos. Guma, fala:
- Onde taria cantando aquele negro?
- Sei l... Parece que no forte.
- Bonita msica...
- Judith, coitada...
Guma olha o mar.
-  mesmo... Vai cortar uma dureta. E com um filho na barriga...
Seu rosto se fecha e ele espia para Lvia. Ela est bela assim se ofertando. Ela no tem mos para trabalho duro. Se ele ficasse no mar, ela teria de ser de outro 
para poder viver. Ela no tem mos para trabalho duro. Esse pensamento lhe traz uma raiva surda. Os peitos de Lvia aparecem sob o vestido. Todos no cais a desejam. 
Todos gostariam de t-la porque ela  a mais bonita. E quando ele tambm for com Iemanj? Tem vontade de mat-la ali mesmo para que ela nunca seja de outro.
- E se um dia eu virar e der de comer aos peixes? - seu riso  forado.
A voz do negro atravessa novamente a noite:
 doce morrer no mar...
- Voc tambm cai no trabalho duro? Ou vai com outro?
Ela est chorando, ela est com medo. Tambm ela teme por esse dia em que seu homem fique no fundo do mar, em que nunca mais volte, quando for com Iemanj, a dona 
do mar, a me-d'gua, correr mares e terras. Levanta-se e passa os braos no pescoo de Guma:
- Hoje tive medo. Lhe esperei na beira do cais. Parecia que voc no vinha nunca mais...
Ele vem. Sim, ele sabe quanto Lvia esperou, quanto ela temeu. Ele vem para os seus braos, para o seu amor. Um homem canta ao longe:
 doce morrer no mar...
E agora sob a Lua no brilham mais os cabelos de Iemanj, a dona do mar. O que fez calar a msica do negro so os soluos de amor de Lvia, a mulher da beira do 
cais que todos desejam, e que na proa do "Valente" muito ama o seu homem porque muito temeu por ele e muito teme ainda.
Os ventos da tempestade j esto longe. As guas das nuvens da falsa noite esto caindo noutros portos. Iemanj viajar com outros corpos por outras terras. Agora 
o mar  sereno e doce. O mar  amigo dos mestres de saveiro. Pois o mar no  a estrada, no  o caminho, no  a casa deles todos? No  sobre o mar, na proa dos 
saveiros, que eles amam e fazem seus filhos?
Sim, Guma ama o mar e Lvia tambm o ama. O mar  belo assim de noite, azul, azul sem fim, espelho das estrelas, cheio de lanternas de saveiros, cheio das lanternas 
das brasas dos cachimbos, cheio de rudos de amor.
O mar  amigo, o mar  doce amigo para todos aqueles que vivem nele. E Lvia sente o gosto de mar na carne de Guma. O "Valente" balana como uma rede.

Terras do Sem Fim

Uma voz assim to cheia e sonora espanta todos os outros rudos da noite. Do forte velho que ela vem e se espalha sobre o mar e a cidade. No  bem o que ela diz 
que bole com o corao dos homens.  a melodia doce e melanclica que faz as conversas serem em surdina, baixinho. No entanto, a letra desta velha cano diz que 
a desgraada  a mulher que vai com um homem do mar. Sorte boa ela no ter, infeliz destino  o seu. Seus olhos no pararo jamais de chorar, e cedo murcharo de 
tanto se alongarem para o mar, esperando a chegada de uma vela. A voz do negro cobre a noite.
O velho Francisco conhece essa msica e esse mundo de estrelas que se reflete no mar. Seno, de que valeriam quarenta anos passados em cima de um saveiro! E no 
 s as estrelas que ele conhece. Conhece tambm todas as coroas, as curvas, os canais da baa e do rio Paraguau, todos os portos daquelas bandas, todas as msicas 
que por ali so cantadas. Os moradores daquele pedao de rio e do cais so seus amigos, e h at quem diga que uma vez, na noite, em que salvou toda a tripulao 
de um barco de pesca, viu o vulto de Iemanj, que se mostrou a ele como prmio. Quando se fala nisso (e todo jovem mestre de saveiro pergunta ao velho Francisco 
se  verdade), ele somente sorri e diz:
- Se fala muita coisa neste mundo, menino.. Assim, ningum sabe se  verdade ou no.
Bem que poderia ser. Iemanj tem caprichos e se havia algum que merecesse v-la e am-la era o velho Francisco, que estava na beira do cais desde ningum sabe quando. 
Ainda melhor, porm, que todas as coroas, os viajantes, os canais, ele conhece as histrias daquelas guas, daquelas festas de Janana, daqueles naufrgios e temporais. 
Haver histria que o velho Francisco no conhea?
Quando a noite chega, ele deixa a sua casa pequena e vem para a beira do cais. Atravessa a lama que cobre o cimento, entra pela gua, e pula para a proa de um saveiro. 
Ento pedem que ele conte histrias, conte casos. No h quem saiba de casos como ele.
Hoje vive de remendar vela, do que lhe d Guma, seu sobrinho. Tempo houve, porm, em que teve trs saveiros que os ventos da tempestade levaram. No puderam foi 
com o velho Francisco. Sempre voltou para o seu porto e o nome dos seus trs saveiros esto tatuados no seu brao direito junto com o nome de seu irmo que ficou 
numa tempestade tambm. Talvez um dia escreva ali o nome de Guma, se der um dia na cabea de Iemanj amar o seu sobrinho. A verdade  que o velho Francisco ri disso 
tudo. Destino deles  esse: virar no mar. Se ele no ficou tambm,  que Janana no o quis, preferiu que ele a visse vivo e que ficasse para conversar com os rapazes, 
ensinar remdios, contar histrias. E de que vale ter ficado assim, remendando velas, olhando pelo sobrinho, feito uma coisa intil, sem poder mais viajar porque 
seus braos j cansaram, seus olhos no distinguem mais na escurido? Melhor teria sido se houvesse ficado no fundo da gua com o "Estrela da Manh", seu saveiro 
mais rpido, e que virou na noite de So Joo. Agora ele v os outros partirem e no vai com eles. Fica olhando para Lvia, igual a uma mulher, tremendo nas tempestades, 
ajudando a enterrar os que morrem. Faz muito tempo que cruzou pela ltima vez a baa, a mo no leme, os olhos atravessando a escurido, sentindo o vento no rosto. 
Correndo com seu saveiro ao som da msica distante.
Hoje um negro canta tambm. Diz que destino ruim  o das mulheres dos martimos. O velho Francisco sorri. Sua mulher ele enterrou, o mdico disse que fora do corao. 
Morreu de repente numa noite em que ele chegava da tempestade. Ela se atirou nos seus braos e quando ele reparou ela no se bulia mais, estava morta. Morreu de 
alegria de ele voltar, o mdico disse que foi do corao. Quem ficou naquela noite foi Frederico, o pai de Guma. Corpo que ningum encontrou porque ele morrera para 
salvar Francisco e por isso fora com Iemanj para outras terras muito lindas. Foi o seu irmo e a sua mulher numa s noite. Ento ele criou Guma dentro do seu saveiro, 
dentro do mar, para que ele no tivesse modo. A me de Guma, que ningum sabia quem era, apareceu um dia e pediu o menino:
- O senhor que  seu Francisco?
- Sou eu mesmo, dona, pra lhe servir...
- O senhor no me conhece...
- No tou lhe reconhecendo, no... - Botou a mo na testa, lembrando velhos conhecidos. - No conheo no, me adisculpe.
Mas Frederico me conhecia muito bem...
- Era de ver porque ele andou viajando nesses paquetes da Baiana. De que bandas ele conhece vosmic?
- L por Aracaju, seu Francisco. Um dia arribou por l, o navio tava com um rombo do tamanho do mundo no costado. S chegou l por milagre...
- J me alembro, foi o Mara... Foi uma viagem braba, Frederico me contou. Foi l que lhe conheceu?
- O barco passou um ms. Ele se enfeitou para meu lado...
- Era um cabra mulherengo que nem macaco...
Ela sorriu, mostrando os dentes quebrados:
- Contou muita histria, que me trazia, botava casa pra mim, me dava vestido e de com. O senhor sabe como ...
O velho Francisco fez um gesto. Estavam na beira do cais e no mercado vizinho vendiam laranjas e abacaxis. Sentaram, nuns caixes. A mulher continuou:
- Me fez a desgraa s dizendo que nem voltava com o navio. Mas quando o bicho sarou do buraco, ele no ouviu conversa, se trepou no barco e foi s dar adeus...
- No digo que foi bem feito no, dona. Ele era meu sangue, mas...
Ela o interrompeu:
- No t dizendo que ele era ruim. Era minha sina e eu ia com ele, mesmo que tivesse sabido que ele fazia ingratido. Eu tava enrabichada por ele direitinho.
Ficou olhando o velho Francisco. Ele pensava porque viria ela tantos anos depois. Talvez buscar dinheiro e agora ele tava ruim, no tinha o que dar, Frederico sempre 
fora mulherengo...
- Disse que me mandava buscar. Mandou buscar o senhor? - sorria. - Assim fez comigo. Quando a barriga subiu, eu dei de lanar, minha me se danou. Meu pai era um 
homem direito, quando soube veio em cima de mim com um faco. S queria era saber quem tinha sido para acabar com ele. Mas ficou esse talho aqui em cima do joelho. 
O faco pegou de mau jeito.
Porque ela mostrava assim as coxas? Francisco no andaria com uma mulher de seu irmo, que isso era ruim e podia trazer castigo.
- Fiquei foi no meio do mundo. Uma famlia, que era meu padrinho, me deu emprego. Um dia, tava servindo a mesa, me atacou as dores...
A seu Francisco compreendeu:
- Guma?
- Era Gumercindo, sim. Foi meu padrinho que botou o nome. O mesmo nome dele. Arranjei um dinheiro, trouxe ele para Frederico. Ele j tava com outra, ficou com o 
menino, mas no quis saber mais de mim.
Fez-se o silncio de novo. Francisco s estava era espiando para saber o que ela queria. Dinheiro ele no tinha, logo naquele dia. Dormir com a mulher de seu irmo 
era coisa que ele no fazia.
- A fiquei por aqui mesmo, com vergonha de voltar. A gente  pobre, mas tem vergonha, no ? No queria cair na vida na minha terra... Meu pai era homem conceituado, 
formou at um meu irmo em doutor mdico. Depois andei por esse mundo afora. Faz tanto tempo...
Estendeu a mo, ficou olhando os saveiros. De trs, do mercado, vinha um barulho de conversa, de discusses, de gargalhadas.
Faz s trs dias que cheguei do Recife. J tava mesmo pra vim ver o menino, foi um conhecido que me disse que Frederico morreu, faz dois anos. Agora vim buscar meu 
f ilho... Vou ver ele...
Francisco no ouvia mais o barulho que vinha do mercado. Ouvia somente aquela mulher que dizia ser me de Guma e o vinha buscar. Ele no gostava de brigar com mulher. 
Discusso com mulher no acaba mais e ele tinha que discutir porque no queria entregar Guma, que j ia to bem no leme do saveiro e j suspendia um saco de farinha 
nos braos de menino. Francisco estava acostumado a discutir com homens rudes do cais, mestres de saveiro, fortes a quem podia ofender porque eles sabiam se defender, 
um nome feio que escapasse no fazia mal. Agora com uma mulher, e com uma mulher como a me de Guma, cheirando, vestida de seda, com uma sombrinha no brao e um 
dente de ouro, ele no sabia brigar. Se uma m palavra lhe escapasse, ela era capaz de comear a chorar, e ele no gostava de ver mulher chorar. Demais, seu irmo 
no tinha andado direito com ela. Mas marinheiros podem l viver pensando nas mulheres que deixam nos portos? E no  pior quando se casam e deixam vivas ou ento 
elas morrem de corao quando os vem chegar salvos da tempestade?  bem pior. Guma no casar. Ser sempre livre no seu saveiro. Ir com Iemanj quando bem quiser. 
No ter ncoras que o prendam  terra. O homem que vive no mar deve ser livre. Mas se aquela mulher levasse Guma, que seria do menino? Seria marceneiro, pedreiro, 
talvez doutor ou at padre vestido de mulher, quem sabe! E as faces do velho Francisco se cobririam de vergonha pelo fim de seu sobrinho, e nada lhe restava seno 
ir ele prprio ao encontro de Janana numa noite do mar. No, por nada ele deixaria que aquela mulher levasse Guma.
A mulher j estava estranhando o silncio. Vozes vinham do mercado:
- T caro que faz medo...
E uma conversa ao longe:
- A pipocou dois tiros e eu s vi cabra correr. Mas como homem  homem, fiz das tripas corao e me atirei...
O velho Francisco riu:
- Sabe, dona? Vosmic no leva o menino, no. Que  que vosmic ia fazer com ele?
Ficou olhando para a mulher, esperando resposta. Mas seu rosto dizia que no havia fora que o fizesse entregar Guma. A mulher estendeu a mo naquele gesto vago 
e respondeu:
- Eu mesmo nem sei... Quero levar ele porque  meu filho e no tem pai... Vida de mulher-dama, vosmic sabe como ... Hoje aqui, amanh acol -- Se ele ficar, vai 
ser como o pai, morre um dia afogado ...
- E se velejar com vosmic, dona?
- Boto ele num colgio, vai aprender a ler, talvez vire doutor como o tio dele, meu irmo... No vai morrer afogado...
- Si dona, destino  coisa feita l em cima. Se ele tem de ser de Janana, no h saber que livre ele. Se ele ficar aqui, vira homem de verdade. Se for com a senhora, 
acaba um mofino que nem esses homens de cabar...
- Isso diz vosmic...
- Donde vai vosmic arranjar dinheiro para fazer ele estudar? Mulher-dama eu bem conheo: um dia tem, outro no tem... Vosmic falou que  hoje aqui, amanh acol... 
E filho de mulher-dama  pior que cachorro, vosmic sabe disso...
Ela baixou a cabea, porque sabia que era verdade. Levar seu filho era criar para ele a suprema humilhao de todos saberem que sua me era da vida. Onde quer que 
andasse, nas ruas, nos colgios, em qualquer parte, nada poderia dizer porque havia contra ele o insulto maior. Do mercado vinha a voz do homem que contava o caso:
- S vi a faca brilhando que nem para destrinchar um peixe. Levantei o cotovelo, meti o joelho pra frente. Foi uma coisa feia...
(Era bem melhor que ele ficasse ali, aprendesse a levar um saveiro pelos portos, fizesse filhos em mulheres desconhecidas, arrancasse facas das mos de homens, bebesse 
nos botequins, tatuasse coraes no brao, atravessasse a tempestade, fosse com Janana quando seu dia chegasse. Ali ningum perguntaria quem era sua me.)
- Mas posso ver ele de vez em quando?
- Sempre que o corao lhe pedir...
- Agora Francisco tinha pena. No h me, por pior que seja, que no ame os filhos. Mesmo a baleia, que  um bicho e no tem pensar, defende os seus filhos dos pescadores 
e at morre por eles.
- Hoje mesmo vosmic pode ver ele. De noite ele vem com o saveiro de Itaparica. Ns vai ento..
Ela fez uma cara de medo:
- Ele j anda sozinho com o saveiro?
- S de Itaparica pra c. Pra ir aprendendo. E j t mesmo que um homem.
O rosto dela agora estava cheio de orgulho. Seu filho, que s tinha 11 anos, j sabia viajar com um saveiro, j cruzava as guas, podia passar por um homem. Perguntou 
com uma voz de criana que vinha do mais profundo do seu corao:
- Ele se parece comigo?
O velho Francisco olhou a mulher. Apesar dos dentes cariados, era bonita. Tinha um dente de ouro para compensar. Vinha dela um perfume extravagante para aquela beira 
de cais cheirando a peixe. A boca pintada era cor de sangue como se houvesse sido mordida. Seus braos rolios estavam soltos ao longo do corpo. Maltratada pela 
vida, era ainda nova, nem parecia a me de Guma. No entanto, h onze anos que ela estava na vida, conhecendo homens, dormindo com eles, apanhando de muitos. Apesar 
disso, ainda tentava um. Se ela no tivesse dormido com Frederico...
- Se parece, sim. Tem os olhos igualzinho, os de vosmic. E o nariz assim tambm...
Ela sorria e aquele era mesmo seu momento mais feliz. Um dia, quando sua beleza terminasse de todo, quando os homens a houvessem gasto totalmente, ento ela teria 
uma velhice garantida, viria para seu filho, faria a comida dele, o esperaria de volta das tempestades. No precisaria se desculpar perante ele. Os filhos tudo sabem 
perdoar s velhas mes cansadas que aparecem de repente. E a mulher se deixou embalar por essa felicidade e sorria pela boca, pelos olhos, seus gestos eram alegres 
e at aquele perfume esquisito que lembrava cabars desapareceu e ficou somente o cheiro de maresia, de peixe salgado.
- 
Por volta das nove horas Guma chegou com o saveiro que era o "Valente". Parou no pequeno cais, botou as mos em torno da boca e gritou:
- Tio! Oh, tio! ...
- J vou l ...
Guma ouviu as vozes que se aproximavam. Algum vinha com seu tio, um desconhecido, porque ele conhecia as vozes de longe. Mestre Manuel gritou do seu saveiro:
- Vem visita pra voc, menino.
Quem seria que vinha com seu tio? Era uma mulher pela voz. Seria que seu tio trazia uma mulher para dormir com ele? J h algum tempo Francisco e outros homens do 
cais haviam comeado com indiretas, negcios de mulher, e o tio ameaava trazer uma para deixar com ele sozinha no saveiro, no meio do mar...
- Quero ver o que voc vai fazer, seu besta... Os homens todos riam em gargalhadas, piscavam os olhos uns para os outros.
- J t um homem o Guma -dizia Antonico, mestre de "F-em-Deus", que parecia no saber dizer outra coisa.
- Precisa provar -e Raimundo batia as mos uma na outra, rindo interminavelmente. -Meu Jacques j comeu da fruta...
Guma sabia que se tratava de dormir com uma mulher, de satisfazer aqueles desejos que o penetravam nos sonhos e o deixavam como se houvesse tomado uma surra. Muitas 
vezes nas cidadezinhas onde paravam ele passara naquelas ruas das mulheres-damas, porm sempre lhe faltara coragem para entrar. Ningum lhe daria menos de 15 anos, 
apesar de ele s ter 11. Por esse lado no tinha o que temer. Mas um receio de no sei o qu o impedia de entrar. Tinha certeza que ficaria morto de vergonha quando 
a mulher visse que era a primeira vez. E tinha medo que a mulher no o aceitasse, o tratasse como uma criana, um filho sem pai que se perdeu na rua. Ela no iria 
adivinhar que ele j conduzia um saveiro e levantava um saco de farinha. Talvez se risse dele. E nunca entrou. Agora seu tio trazia a mulher prometida. Ele ia ficar 
encabulado diante dela. Com certeza Francisco j dissera que ele nunca conhecera mulher, que era um besta, um medroso, apesar da faca no cinto. Ele ficaria sem jeito 
diante da mulher. E se o tio quisesse assistir, s para rir, para gozar o mal ajeitado dele, ento ele iria embora, fugiria do cais com vergonha, no navegaria mais 
naquelas guas. E  com verdadeiro pavor que Guma ouve as vozes que se aproximam. Seu corpo treme, e no entanto ele deseja que venham mais depressa porque ele quer 
ser homem quanto antes e atravessar sozinho com o "Valente" todos os rios, todos os portos, todos os canais.
As vozes se aproximam. Era uma mulher, sim, Seu tio vem cumprir a promessa. Sem dvida j anda envergonhado do sobrinho, que ainda no  homem, que no conhece mulher. 
E como Guma no tem coragem de entrar na casa de uma delas, o tio vem trazer como se leva comida para cego, como se d gua na boca de um aleijado.  bem uma humilhao, 
mas ele no quer pensar nisso agora. Pensa que em breve ter ao seu lado um corpo de mulher, um corpo que sabe todos os segredos. Pedir ao tio que v embora, que 
o deixe s com ela, e levar o saveiro para o meio da baa. Do forte velho ou de outro saveiro vem uma msica. Ele amar, sentir o mistrio de tudo, e ento poder 
levar sozinho o seu saveiro pelas terras do Recncavo, poder, quando seu dia chegar, ver sem susto o rosto de Iemanj e poder am-la porque j aprendeu aqueles 
segredos em que os homens tanto falam. Por isso est at com frio, se bem a noite seja morna e o vento que passa esteja quente, uma brisa que quase nem balana o 
saveiro. A verdade  que tem medo. As vozes esto cada vez mais prximas. Ele j ouve o que conversam:
-  ainda um menino, mas j tem cara de homem feito...
 seu tio quem fala. Naturalmente a mulher pergunta como ele . Quer saber como o h de tratar. Mas ele mostrar que  um homem forte, a apertar at que ela chore, 
at que diga que ele  mesmo j um homem dos que ela conheceu na sua vida. Agora, ouve a voz da mulher:
- Quero que seja um homem bonito e valente...
O corao de Guma se enche de felicidade. Ele j ama essa mulher que ainda no conhece, que seu tio traz para a sua cama, e faz projetos de lev-la pelos portos 
todos do Recncavo, de correr com ela os rios. No deixar que ela volte para a vida. Ser dele para todo o sempre. Deve ser bonita, que seu tio  entendedor de 
mulheres, os homens do cais dizem sempre. As mulheres que ele traz para o saveiro nas noites de amor so sempre belas. Nessas noites Guma ouve os rudos dos corpos, 
ouve os gemidos, os beijos e as risadas. Quando no foge, fica com o ouvido  espreita, uma vontade doida de espiar, um medo que o retm. Uma noite ouviu um grito 
agudo de dor. Correu para onde eles estavam, certo que Francisco havia batido na mulher. Mas o fizeram voltar. S muito depois  que ele soube o que significava 
aquela mancha de sangue que havia ficado sobre o madeirame do saveiro. Aquela mulatinha voltara muitas vezes e nunca mais ele ouviu gritos da sua boca. Os seus queixumes 
passaram a ser iguais aos das outras. Essa mulher que vem a com certeza no gritar tambm. Para ela no ser a primeira vez. Um dia, porm, ele far uma mulher 
gritar no saveiro corno seu tio fez quela mulatinha. Ouve a voz de Francisco:
- Guma!
- Tou aqui...
O saveiro est bem perto do cais. Era s atravessar a lama e encontraro a ncora que o prende ao cais. Seu tio est prximo com a mulher. Pula para dentro do saveiro, 
estende a mo para a mulher, que salta mostrando as coxas. Guma olha e um desejo violento o invade, o toma todo.  bonita, sim. Agora, que Francisco v embora, que 
o deixe somente com ela, que no se meta entre eles, que Guma mostrar de que ser capaz. A mulher olha para ele, bem que ela gostou de Guma. Sim, ele parece um 
homem, apesar de seus 11 anos. Guma sorri mostrando os dentes alvos. Francisco est sem jeito, as mos abanando. A mulher sorri. Guma olha os dois e o seu riso  
de inteira satisfao. A mulher pergunta:
- Voc t me conhecendo?
Ele a conhece, sim, H muito que ele a espera. Ele a procurou nas ruas de mulheres perdidas, na beira do cais, em todas as mulheres que olharam para ele. Agora a 
encontrou. Mas  sua mulher. Ele a conhece de h muito, desde que seus desejos penetraram seus nervos, perturbaram seus sonhos.
Francisco fala:
-  tua me, Guma.
O desejo no fugiu. No era possvel que fosse sua me, aquela me em quem ningum nunca lhe falara, me em quem nunca pensara. Uma pilhria de seu tio, com certeza. 
Aquela que estava ali era uma mulher da rua que viera para dormir com ele. Francisco no devia t-la comparado com sua me, que seria boa e suave, muito longe daquelas 
coisas em que pensava. Mas a mulher se aproxima dele e o beija como devem beijar as mes. As mulheres da vida beijam de maneira diferente, sem dvida. A voz da mulher 
 pura:
- Te deixei h tanto tempo... Nunca mais te deixo... Ento Guma comea a chorar e ele mesmo no sabe se  por ter encontrado sua me, se  por ter perdido a mulher 
que esperava.
- 

Ficou espiando a mulher sem saber conversar. O que ele esperava naquela noite era bem diverso de me. Ela o olhava comovida, falou muito em Frederico, a cada momento 
repetia:
- Agora vou ficar com voc...
Ele no entendia o motivo daquela frase. Porque ela viera? Donde chegara, porque o abraava assim? Era uma estranha para ele. Nunca se recordara de sua me. No 
lhe haviam falado nela naqueles onze anos. E quando ela chegou foi misturada com desejos, foi junto com a tentao de outra mulher, foi tirando uma coisa que ele 
desejava. Era sua me, e, no entanto, parecia mais a mulher que ele estava esperando, porque o perfume que vinha dela era o perfume daquelas mulheres da vida, e 
por mais que ela se esforasse tinha a todo o momento palavras que ele no quisera ouvir nos lbios de sua me e gestos que ele no conhecia nas mulheres do cais. 
Era sua me, mas Francisco estava com os olhos fitos nela, nos pedaos de carne alva que apareciam sob o decote dos seios, nas coxas que surgiam debaixo do vestido 
quando o vento o suspendia. Guma, s tinha um desejo: chorar, Chorar no  coisa de homem, quem no sabe? Um marinheiro sabe mais que ningum. As mulheres j choram 
o bastante. Um marinheiro no deve chorar. Por isso Guma morde os lbios e fica silencioso, esperando que ela se v e aquele sonho termine. Francisco est tentado 
Ele pensa que ela dormiu com seu irmo,  me de Guma, mas v a sua carne e um pensamento o persegue. E comea a falar depressa, em dizer que j est tarde e devem 
ir embora:
- Vosmic ainda vai atravessar esse cais todo. A noite t andando...
Ela se despede de Guma:
- Eu venho v voc, meu filho...
Francisco vai com ela. Guma fica espiando do alto do saveiro. No a sentiu sua me um s momento. E agora quem vai dormir com ela  o velho Francisco. No saveiro, 
sozinho, ele comeou a chorar. Pela primeira vez ouviu a msica que dizia que " doce morrer no mar". E pela primeira vez pensou em ir ao encontro de Iemanj, de 
Janana, que  ao mesmo tempo me e mulher de todos os que vivem no mar.
- 

O velho Francisco voltou feito uma fera. A cara fechada. Os olhinhos bem midos. Saltou do saveiro, no quis conversa, foi-se estendendo na proa, o cachimbo aceso, 
olhando o mar. Guma sorriu: ele tambm no conseguira mulher naquela noite. A mulher de Frederico no quis andar com o irmo do seu homem. Elas tambm tm o seu 
cdigo de honra. S ento Guma sentiu uma certa ternura por aquela mulher.
Mas veio a Lua e os cabelos de Janana se estenderam no mar. Ento veio msica dos saveiros, do forte velho, das canoas, do cais, saudando a me-d'gua, a dona do 
mar, que todos temiam e todos desejavam. Aquela era me e mulher. S ela sabia dos desejos deles e s ela consolava todos. As mulheres agora estavam rezando para 
Iemanj. Todos pediam coisas. Guma pediu uma mulher bonita, uma mulher boa sem aquele perfume esquisito que sua me trouxe no colo, pediu que Iemanj lhe desse uma 
mulher nova e virgem como ele, quase to bonita como ela mesma. Talvez assim esquecesse a imagem da me perdida, da me se entregando aos homens, tentando seu tio, 
tentando Guma, seu filho mesmo.
Iemanj, que os canoeiros chamam Janana,  boa para os homens do mar. Ela atende aos seus desejos.
- 

Nunca mais sua me voltou. Foi, com certeza, para outras terras, que mulher-dama  o mesmo que marinheiro, no tem parada, vive de porto em porto, onde haja dinheiro 
para ganhar. Por muito tempo, porm, a sua imagem, o seu perfume, perturbaram o sono tranqilo de Guma. Desejava que ela voltasse, mas no como sua me, no com 
palavras doces de afeto, mas como uma mulher da vida, com os lbios abertos para beijos de amor. No teve mais sossego. Misturou no seu corao to jovem a imagem 
daquilo que todos achavam a prpria pureza, a imagem da me com a das mulheres que se entregam por dinheiro, das que fazem do amor o seu ofcio. Mas nunca tivera 
me, quando a encontrara foi para a perder logo, para a desejar sem querer, para quase a odiar. S h uma me que pode ser ao mesmo tempo esposa:  Iemanj, e por 
isso ela  to amada dos homens do cais. Para amar Iemanj que  me e esposa,  preciso morrer. Muitas vezes Guma pensou em se atirar do alto do saveiro num dia 
de tempestade. Viajaria ento com Janana, amaria a me e esposa.
Uma noite, porm, o velho Francisco deixou uma mulata no saveiro na sua ausncia. Quando Guma chegou, as calas arregaadas, as pernas sujas da lama do cais, ela 
se estirava dengosa, os olhos para a Lua. Ele compreendeu. J iam dois anos que sua me aparecera. Aquela que estava ali agora  quem devia ter vindo em lugar dela. 
Assim teria sido melhor.
E, quando as grandes nuvens engoliram a Lua, ele velejou com o saveiro para o meio da baa, os ventos o acompanharam, a msica cantou no forte velho. Gritos de orgulho 
saam do peito de Guma. Pouco importava que na beira do cais o velho Francisco e os outros rissem e comentassem. Ele era homem, dobrava uma mulher aos seus ps. 
Agora j podia sair com o "Valente" pelos portos todos, sozinho como um verdadeiro mestre de saveiro. Voltou em meio do temporal que desabou. A mulata se acolheu 
no seu peito com medo. Ele sorriu pensando que Iemanj estaria com cimes e descarregava contra ele os ventos e os raios.
Um dia, passaram-se outros anos, passaram outras mulheres, o velho Francisco quase deixa o "Valente" bater numa coroa do rio. Se no fosse Guma virar a mo no leme, 
era uma vez um saveiro, o velho baixou a cabea e no sorriu mais durante a viagem. No pilheriou no bar de Maragogipe, no contou histrias nos botequins de Cachoeira. 
Na volta entregou o leme a Guma e se estendeu ao comprido nas tbuas do saveiro. Deixou que o sol da manh alta esquentasse seu corpo. Falou para Guma:
- Velejei nessas guas mais de trinta anos...
Guma olhou para o tio. O velho bateu o cachimbo:
- Nunca sa daqui, no quis correr outras terras. Frederico no era desse gnio. No se contentou com viajar pelo rio. Achava que bom era ser marinheiro de navio, 
era conhecer todas as terra, cada um tem seu gnio. .
O sol batia nas guas calmas. As coroas de pedras faiscavam. Guma consolou o velho:
- Vosmic teve quatro saveiros, tio...
- Foi numa viagem que Frederico arranjou voc. J vai dezoito anos... ele andava viajando como marinheiro. Primeiro foi nesses calhambeques da Baiana, depois se 
meteu em navio grande, andou por este mundo. Voc ficou com a gente at que um dia ele voltou...
- Eu me lembro, tio. Foi numa noite de repente.
- No quis dizer porque voltou. Acho que  negcio de mulher. Corria que ele tinha tirado as tripas de um. Era um mulato "Valente". No aguentava desaforo...
Guma sorriu lembrando o pai vestido com uma capa preta, impermevel, as gotas de chuva caindo, abraando Francisco:
- Tou aqui, meu irmo...
Primeiro Guma ficou com medo. Fugiu mesmo aos beijos do pai, aos seus bigodes. Agora achava um prazer imenso em relembrar aquela cena, o pai chegando de repente, 
depois de ter tirado as tripas de um por causa de uma cabrocha. Aquele pai que conhecera terras diferentes, que andara em grandes navios.
O velho Francisco continuou:
- A ficou comigo nos saveiros. Era o "Estrela da Manh"...
- Me lembro... Bicho batuta!
- T aquela noite de tempestade de Agosto. Ele ficou mesmo rindo na hora de deixar a alma. Era mesmo "Valente". Minha velha tambm se foi naquela noite. Foi do corao. 
At mdico eu chamei. No adiantou nada. Era o corao.
Guma ficou pensando no motivo por que o velho Francisco recordava aquilo tudo. Ele sabia muita histria para contar, para que contar a histria dele mesmo? Achava 
aquilo sem jeito e se entristecia.
- Eu devia ter deixado de viajar desde aquele dia. No tinha mais nada que fazer... Mas voc ficou comigo, eu tive que te ensinar a domar um barco... Agora, voc 
j t sabendo,...
O velho sorriu. Guma tambm. Ele j sabia se conduzir em cima de um barco. Quem no sabia mais era o velho Francisco, que tudo que sabia dera ao sobrinho.
- Eu sou um velho... tou acabado... Nem os peixes me querem mais, porque s tenho osso...
Ficou em silncio um minuto, como que tomando foras:
- Voc viu? Na subida por pouco no jogo o "Valente" em cima das pedras...
- Qual o qu, tio, passou longe.
- Isso porqu voc meteu o brao no leme. Meus olhos j se gastaram. A luz do mar come os olhos da gente...
Ficou espiando Guma corno quem tinha algo de muito importante a dizer. O sol o castigava, mas ele estava o mesmo que animal velho se esquentando ao sol. Levantou 
uma mo:
- Sou um velho, tou acabado. Mas no queria que no cais aqueles negros se risse de mim. O velho Francisco depois de trinta anos jogou o saveiro em cima de uma pedra. 
Nem os peixes me queria mais...
Vinha angustiada a sua voz. Havia nela qualquer coisa de fim, uma angstia inexprimvel. Guma ficou sem saber o que dizer. O velho Francisco continuou:
- Tu no diz nada... No h de querer ver minha vergonha...
O resto da viagem foi em silncio e essa foi a ltima viagem do velho Francisco.
- 
Agora era ele somente quem corria com o "Valente" aquelas guas azuis. O velho Francisco remendava velas, bebia cachaa, contava histrias. Para ele tudo terminara, 
de to "Valente" que fora, o mar no o quisera. Ele vira Iemanj sorrindo, no precisou morrer para v-Ia.
Guma ficou nos saveiros, ficou no cais, mas o destino de seu pai o tentava, amava os grandes navios que aportavam no cais, escutava enlevado as lnguas estranhas 
que os marinheiros loiros falavam, ouvia as histrias que os pretos foguistas contavam e dizia, de si para si, que um dia tambm andaria num navio daqueles, veria 
outras luas e outras estrelas, cantaria as canes do seu cais em portos onde os homens no entenderiam seu falar, e escutariam de voz baixa as suas cantigas, s 
pela msica, s porque sabiam que cantiga de marinheiro, seja em que lngua for, fala de mar, de desgraa e de amor. Um dia entraria num navio daqueles, olharia 
os saveiros bem pequeninos, trocaria as guas calmas da baa e do rio Paraguau pelas guas agitadas do mar sem limites, da estrada sem fim que levava  terras mais 
distantes. Ah! andar num navio negro, viver as histrias que ouvia, isso era o seu desejo. Alguns homens dos saveiros j tinham ido. Voltavam s vezes, contavam 
coisas terrveis, aventuras de amor, aventuras de tempestades e naufrgios, lutas com homens amarelos no outro lado da Terra, falavam uma lngua que era a mistura 
de todas as outras. Mas acontecia tambm que, por vezes, no voltavam. Chico Tristeza (quem no se lembrava dele?) ainda menino engajou num cargueiro alemo. Era 
um preto grosso que no sorria. Vivia olhando as ondas, os navios e s falava em ir embora. Parecia que sua terra era outra, era do outro lado do mar. Engajou Chico 
Tristeza. Uma noite o seu navio chegou de torna-viagem. Os homens dos saveiros correram para ver Chico Tristeza. At sua velha me, que vendia cocada no centro da 
cidade, apareceu e ningum soube como a notcia lhe chegara. Mas voltaram todos porque Chico Tristeza no viera com seu navio. Se passara para outro e j era foguista. 
Deste outro, diziam os alemes, j sara para um terceiro, e ningum sabia em que parte do mundo Chico Tristeza andava. Quando conversavam sobre ele, havia quem 
dissesse que ele morrera, mas ningum acreditava. Um marinheiro vem morrer no seu porto, junto dos seus saveiros e dos seus mares. A no ser que morra no mar. Assim 
mesmo vem logo com Iemanj ver a lua do seu cais, escutar as cantigas da sua gente. Chico Tristeza no morrera.
Guma, que pouco o conheceu, ainda era menino quando ele partiu, Guma o ama e quer ser como ele. Aqueles navios negros o tentam. H um mistrio neles, no seu apito, 
na sua ncora, nos seus mastros. Um dia ir para as Terras do Sem Fim. S o velho Francisco o prende a seu cais,  sua ncora. Ele precisa ganhar a comida do seu 
tio, que tudo lhe ensinou. Quando o velho se cansar da beira do cais e for ver Iemanj, ento ele partir, sua estrada no ter mais limites, seu saveiro ser um 
navio negro e enorme, no cais contaro histrias sobre ele.
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Ficara no "Valente", sozinho, e considerou sua adolescncia acabada. Muito cedo terminara tambm sua infncia, que homem ele j era desde h bastante tempo, mesmo 
antes de amar aquela cabrocha que o velho Francisco deixara no saveiro se espreguiando. Um dia sua me viera e fora muito antes da cabrocha, fora anos antes, e 
naquele dia ele j levava o saveiro at Itaparica e j sentia no corpo desejos de homem. Naquele dia sofrera rudemente como um homem; foi naquele dia que o pecado 
entrou no seu corao e o desejo de partir comeou a viver dentro dele. Desde ento era homem.
Trazia bem pouca coisa da sua infncia de filho do mar, cujo destino j estava traado pelo destino do pai, do tio, dos companheiros, de todos os que o rodeavam 
naquela beira de cais: seu destino era o mar e era um destino herico. Talvez mesmo ele no soubesse disso, talvez mesmo nunca houvesse pensado que ele seria, como 
o eram aqueles homens que gritavam durante o dia nomes feios nos saveiros, cantavam  noite canes de amor com voz doce, um heri que arriscava a vida sobre as 
guas, chovesse ou brilhasse o Sol no cu da Bahia de Todos os Santos. Nunca pensara que era herico o seu destino e que sua vida seria bela. Sua infncia no fora 
tambm descuidosa, que a muito teve ele que atender, cedo jogado na proa de um barco, acostumando os olhos com as coroas de pedras que mal se enxergavam  flor das 
guas, calejando as mos nas cordas de pescaria e na madeira do leme.
Estivera na escola, sim. Era uma casa tosca detrs do cais, a professora rimando sonetos de amor (talvez o amor viesse num navio na noite sempre misteriosa do mar, 
talvez no viesse nunca e ela era lnguida e tinha a voz fresca de desencantada), a garotada contando aventuras de pesca, falando a lngua estranha dos martimos, 
fazendo apostas sobre corrida dos barcos.
Estivera pouco tempo na escola. No levavam l, ele, e os demais filhos dos mestres de saveiro e dos canoeiros, mais que o tempo de aprender a soletrar uma carta 
e a garatujar um bilhete, se esforando para botar um rabo em baixo da ltima letra da assinatura. Muito que fazer esperava em casa ou no oceano, eles iam logo. 
E, quando a professora os via (chamava-se Dulce), no os reconhecia mais, eram uns homenzarres, de peito descoberto e rosto queimado. Ainda passavam por ela, tmidos, 
de cabea baixa, e todavia a amavam porque ela era boa e cansada de tudo o que via na beira do cais. Via coisas bem tristes aquela menina que viera da Escola Normal 
ensinar ali para ajudar uma me pobre, que j fora rica, e um irmo bbedo, que j fora esperana dela, da me, e tambm do pai, um senhor de bigodes e voz sonora, 
que morrera antes de tudo ser to feio no mundo da sua casa. Chegara para substituir uma solteirona de palmatria e gritos histricos e quis fazer do seu curso a 
casa alegre dos meninos do cais. Mas viu coisas to tristes junto aos navios, nas casas toscas dos pescadores, nas proas dos saveiros, viu de to perto a misria, 
que no teve coragem e perdeu a alegria, no olhou mais o mar com o encantamento dos primeiros dias, no esperou mais um noivo, no teve mais rimas para os seus 
versos. E como era religiosa ficou rezando, porque Deus, que era bom, tinha que acabar com tanta misria, seno era o fim do mundo. Da janela da sua escola a professorinha 
olhava todos aqueles meninos rotos e sujos de lama que saam sem livros e sem sapatos, meninos que dali iam para o trabalho, para a vadiagem dos botequins, para 
a cachaa, e no compreendia. Todos diziam que ela era boa e ela sabia disso. No entanto, s no comeo ela se sentiu digna do adjetivo. Isso quando dizia palavras 
de consolo e de esperana em Deus quela gente desiludida. Mas h muitos anos que essa esperana terminara realmente, e, agora, era apenas frmula, era tudo exterior, 
nada vinha mais dos coraes to chagados. Ela tambm cansou de esperar. E no teve mais palavras de conforto, nem, ternas palavras de esperana. Nada podia fazer 
por aquela gente que lhe mandava os filhos por seis meses. No merecia que a classificassem de boa, que em nada ela os ajudava, no tinha uma palavra com sentido 
para lhes dizer. E se no viesse um milagre, de repente, assim como vm as tempestades, ento ela se finaria de tristeza, da tristeza de nada poder fazer pelos homens 
do mar.
Na sua escola, Guma aprendeu a ler e a escrever o nome. Bem mais quis ela lhe ensinar, bem mais queria ele aprender. Mas o velho Francisco o chamava para o saveiro, 
que seu destino estava l. Doutor nunca sara da beira do cais. No entanto j haviam sado maquinistas, foguistas e, at, um progrediu tanto que chegou a telegrafista 
de um navio de passageiros.
No deixou a escola com tristeza, tambm no deixou com alegria. Gostava da professora, no fora to difcil aprender a ler, gostava de Rufino, um negrinho que fazia 
tatuagens com ponta de alfinete e nunca sabia a lio. Mas gostava tambm de andar sobre o mar, num barco, e seguir seu destino. Dulce deu-lhe uma medalha no dia 
em que ele se fora.
Da janela ela viu Guma, que partia. Tinha 11 anos e l ia ele, apto para a vida como os jovens mdicos e advogados aos 23 anos e 25. Tambm ia entrar na vida, ia 
comear sua profisso, e, no entanto, no havia festa, no havia solenidade, apenas o desafogo de no ser necessrio lavar tantas vezes a sua roupa, porque para 
a escola era preciso ir mais limpo. Nenhuma esperana ia tambm naquele peito. Nenhuma idia de grandes conquistas, de grandes descobertas, de inventos maravilhosos, 
de poemas eloqentes ou doces. Ela sabia que Guma era inteligente e poucos colegas ela encontra na Escola. Normal, entre os seus amigos das Academias, que fossem 
to inteligentes como ele. No entanto aqueles pensavam sempre realizar grandes coisas, traar seus destinos. Os meninos que saam da escola nunca tiveram nenhum 
desses pensamentos, o destino deles j estava traado. Era a proa de um saveiro, os remos de uma canoa, quando muito as mquinas de um navio, ideal grandioso que 
poucos alimentavam. O mar estava diante dela e j tragara muitos alunos seus, e tragara, tambm, seus sonhos de moa. O mar  belo e  terrvel. O mar  livre, dizem, 
o livres so os que vivem nele. Mas Dulce bem sabia que no era assim, que aqueles homens, aquelas mulheres, aquelas crianas, no eram livres, estavam acorrentados 
ao mar, estavam presos como escravos, e Dulce no sabia onde estavam as cadeias que os prendiam, onde estavam os grilhes dessa escravido.
L ia Guma, que aprendera to rapidamente a ler. Poderia ter entrado na Politcnica, seria um grande engenheiro, e talvez inventaria uma mquina que melhorasse o 
destino dos marinheiros no mar instvel. Mas os meninos do cais no vo s Faculdades. Vo para os saveiros e para as canoas. Cantaro  noite e a voz de alguns 
 muito bela. Porm as canes so tristes como a vida que levam. Dulce no compreende.
Mas Dulce espera um milagre. Vir assim, de repente, como uma tempestade. Tudo mudar e ser belo. Ser belo como o mar. E se um dia for ela quem sabe a palavra 
que provoque o milagre se for ela quem a diga a essa gente do cais? Ento merecer, em verdade, que a chamem de boa e que tragam o que de melhor tm em casa quando 
ela os visitar.
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Quando via Dulce ou quando o vento do mar balanava a medalha que trazia ao peito, Guma se lembrava da escola e da infncia rpida. Fora tudo muito ligeiro. Um dia, 
dia que j ia muito longe, chovia na cidade e os saveiros estavam parados, o velho Francisco contava para a mulher e para Guma a histria de um naufrgio, quando 
a porta se abriu e um homem entrou embuado numa capa de oleado, escorrendo chuva. Quase que s via os bigodes do homem, porm, nunca esqueceu a voz que dizia ao 
velho Francisco:
- tou aqui, meu irmo...
Guma tivera medo. Mas o homem marchou para ele, e o beijara, o espetara com seus bigodes e ria satisfeito, olhando para a cara de Guma. Depois foi conversando com 
o velho Francisco, contando uma histria de barulho, de um "homem que ele mandara para as profundas..." Foi assim que seu pai apareceu de volta-viagem, de ter corrido 
terras e mares desconhecidos. Voltara com a vida de um na ponta do seu punhal e sem poder mais sair das suas guas. Mas como seu pai amava era viajar, e isso no 
podia fazer, no durou muito nos saveiros, ficou com o "Estrela da Manh" no fundo do mar, depois de salvar o irmo. S assim pde ele continuar sua viagem interrompida 
e foi com Iemanj, que ama os homens de coragem.
Guma se lembrava vagamente do pai, mas se lembrava sempre dele entrando em casa, na noite do temporal, com aquela capa de oleado preto, pingando chuva, trazendo 
ainda a faca que tirara a vida de um homem. Devia ter sido arte de mulher, dizia o velho Francisco toda vez que lhe falavam no assunto. Frederico fora sempre, mulherengo...
Na noite em que morreu, morreu tambm tia Rita, a mulher de Francisco. Quando a tempestade desabou, ela correu para o cais e levou Guma consigo, acolhido em baixo 
do seu xale. L haviam esperado inutilmente. Depois voltaram para casa, que a hora do jantar se aproximava. Ela preparou o peixe para os homens. Talvez que eles 
nessa hora  que fossem jantar de outros peixes. Ela esperava andando de um lado para outro, rezando  Senhora de Monte Serrat, fazendo promessas a Iemanj. Levaria 
sabonetes para a festa de Janana e duas velas para o altar da Senhora de Monte Serrat. No meio da noite Francisco chegou. Ela correu para os seus braos, e neles 
ficou sua vida. No teve coragem para tanta alegria. At mdico veio, j era tarde. O corao estourou e Guma ficou sozinho com o velho Francisco.
Ia s festas de dona Janana, conheceu Anselmo, o feiticeiro do Dique, o que tinha fora junto  dona do mar, conheceu Chico Tristeza, que se fora embora num navio. 
Ainda era muito menino quando o preto fugiu de casa. Mas o vira muitas vezes junto ao cais olhando para o fim de tudo, para a linha azul onde tudo acaba. A terra 
de Chico era muito longe com certeza, era para as bandas do sem fim, e ele se fora. At agora procurava, e certamente voltaria um dia, porque ele era um marinheiro 
daquele porto e devia morrer nele. Ainda havia de rever D. Dulce, com quem aprendera a ler e que sempre falava nele. Quando viesse, muito teria que contar e em torno 
dele se sentariam os homens, mesmo os mais velhos do cais, para ouvirem suas histrias. Que ele voltava, no havia dvida. Os navios tm o nome de seu porto escrito 
na r, por cima das hlices. Assim os marinheiros tm o nome do seu cais no corao. Alguns mandam mesmo tatuar esse nome no peito junto com os nomes das amadas. 
Acontece de um navio naufragar, longe do seu porto. Assim tambm um marinheiro morre longe do seu cais. Mas logo ele vem com Iemanj, que sabe donde so todos eles, 
ver a sua gente e sua lua antes de ir correr o desconhecido. Chico Tristeza havia de voltar. Ento Guma saberia dele muitas coisas, e iria tambm, que os grandes 
4 caminhos do mar o tentavam.
De todas as recordaes da sua infncia, a de Chico Tristeza partindo de sbito num navio era a mais recordada. Um dia ele faria o mesmo.
Nas noites da sua infncia muitas vezes dormiu no tombadilho do saveiro, atracado ao pequeno cais. De um lado, enorme e iIuminada de mil lmpadas eltricas estava 
a cidade. Subia pela montanha e seus sinos badalavam, dela vinham msicas alegres, risadas de homens, rudos de carros. A luz do elevador subia e descia, era um 
brinquedo gigantesco. Do outro lado era o mar, a Lua e as estrelas, tudo iluminado tambm. A msica que vinha dele era triste e penetrava mais fundo. Os saveiros 
e as canoas chegavam sem rudo, os peixes passavam sob a gua. A cidade mais barulhenta era bem mais calma no entanto. L havia mulheres lindas, coisas diferentes, 
cinema e teatro, botequins e muita gente. No mar nada disso havia. A msica do mar era triste e falava em morte e em amor perdido. Na cidade tudo era claro e sem 
mistrio como a luz das lmpadas No mar tudo era misterioso como a luz das estrelas. As estradas da cidade eram muitas e bem caladas. No mar havia uma estrada e 
essa oscilava, era perigosa. As estradas da cidade j estavam h muito conquistadas. A do mar era conquistada diariamente. Era ir a uma aventura toda vez que se 
partia. E na terra no h Iemanj, no h as festas de Janana, no h msica to triste. Nunca a msica da terra, a vida da terra, tentou o corao de Guma.
Mesmo na beira do cais nunca se contou uma histria que referisse o caso de um filho de marinheiro ser tentado pela vida calma da cidade. Se algum falar disso aos 
velhos cosedores de velas, eles no compreendero e ho de se rir. Bem que um homem pode ser tentado a ir pelo mar para outras terras, isso sim. Mas a deixar seu 
saveiro pela vida de terra, isso, s com uma gargalhada e um trago de cachaa se pode ouvir.
Guma nunca foi tentado pela terra. L no h aventura, A estrada do mar, larga e oscilante, essa, sim, o tentava e o levaria, sem dvida, para onde ele encontrasse 
aquilo que lhe faltava, amor, morte, no sabia o qu. Seu destino era o mar.
Foi numa noite assim que sua me veio. Ningum lhe falara nela e ela veio da terra, era da terra, nada tinha das mulheres do mar, nada tinha de comum com ele, lhe 
parecera uma mulher da vida, que era o que ele esperava. Veio unicamente para faz-lo sofrer. E no mais voltara. Outras mulheres tinham vindo da terra para o seu 
barco, primeiro mulheres da vida que vinham por dinheiro, depois mulatinhas, negras jovens das casas perto do cais, e essas vinham porque o achavam forte e sabiam 
que o amor dele devia ser bom. As primeiras recordavam sua me. Tinham o perfume que ela usava, falavam como ela falava, apenas no sabiam sorrir como a sua me 
sorrira naquela noite. Sua me sorrira como as mulheres do cais sorriem para os filhos, e assim era meio me, meio mulher da vida, ainda fazia sofrer mais.
No voltara mais. Andaria por outros portos com outros homens. Quem sabe se  noite, quando o ltimo homem se fosse e a deixasse s, ela no se recordaria daquele 
filho que vivia nos saveiros e no lhe soubera dizer uma palavra? Quem sabe se ela no se embriagaria por amor quele filho perdido para ela? Mas se a msica vem 
do mar e atravessa o forte, os saveiros, as canoas, e fala em amor, Guma esquece de tudo, e se deixa ir no doce acalanto dessa toada to bela.
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A sua infncia fora rpida e quase no tivera brinquedos, mas nela j comeara a experimentar as suas foras. Aquele talho grande que tinha na mo fora uma briga 
dos seus 14 anos. Os outros eram Jacques, Rodolfo, o Vesgo e Maneca Mozinha. Ele estava s com Rufino e a briga foi por causa de besteira, por causa de Maneca Mozinha 
ter espiado as coxas da irm de Rufino, uma pretinha de pouco mais de 10 anos. Ele ia com o negro conversando bobagens quando Maricota chegou chorando:
- Ele estava espiando debaixo de minha saia...
Rufino foi procurar Mozinha. Guma no era homem para deixar um companheiro numa hora dessa, e mesmo a lei do cais diria outra coisa. Foram juntos e encontraram 
os quatro ainda rindo. Rufino virou a mo, que ele no era de discusses nem de xingamentos, e a briga foi feia. Era no areal que o sol da manh incendiava e rolaram 
aos socos. Maneca Mozinha, que tinha uma mo torta, ficou estendido com o soco de Rufino. Mas ainda assim eram trs contra dois, e, no meio do barulho, Rodolfo, 
que no prestava mesmo, puxou de uma navalha e foi aquela sangueira. Rufino levara um talho debaixo do queixo, e, quando Guma acudiu, s pode foi desviar com a mo 
a lmina que era para o seu rosto. Apesar da navalha e de serem trs, correram. O negro Rufino limpou o sangue e prometeu:
- Aquele Rodolfo me paga. Um dia eu ensino ele...
Guma no disse nada. Ele amava a lei do cais e ela no permitia que se puxasse uma navalha, a no ser quando o adversrio era maior em nmero. Quem no cumpria a 
lei do cais no valia nada para ele.
Uma semana depois, Rodolfo apareceu com a cara quebrada, estirado na areia, sem navalha e sem calas. Rufino cumpria suas promessas.
Gostava de Rufino desde a escola. Sem pai, criado pela me, Rufino pouco durara na escola. O que aprendera l se reduzia a quase nada: a tatuar nos companheiros 
ncoras e coraes, corria uma pena e tinta azul. D. Dulce ralhava com ele, mas o negro ria com seus olhos mansos e dentes largos e D. Dulce sorria tambm. Largou 
a escola, foi sustentar a me e a irm. Emprestou seus braos de gigante a todos os canoeiros. Reinava com coragem, porque no havia na beira do cais quem tivesse 
mais confiana em Iemanj do que ele. E um dia teria uma canoa sua, sem dvida, que j pedira na festa do Dique e mandara um frasco de perfume para que a Princesa 
de Aioc (assim chamam os negros a Iemanj) tivesse os cabelos sempre cheirosos. Ela lhe daria uma canoa, que ele era o mais entusiasmado na sua festa, e ainda um 
dia seria og do seu candombl. Ria muito o negro Rufino. Bebia muito, tambm, e cantava com uma voz baixa, que fazia silenciar, todas as outras.
J Rodolfo no parecia um homem dali. Seu pai chegara um dia, abrira uma venda, que faliu. Apesar disso, no saiu do cais, arranjou uma portinhola no mercado, vendia 
na feira de gua dos Meninos. Rodolfo nasceu, era um branco bonito, cabelo bem liso, que ele trazia tratado a brilhantina. Quando cresceu, deixou o leme do saveiro 
que o pai lhe arranjara, desertou das guas e vivia aparecendo e desaparecendo. Por vezes chegava com muito dinheiro, pagava cachaa para todos, fazia fregus no 
""Farol das Estrelas"". Outras vezes aparecia quebrado a pedir dez tostes emprestados, a beber  custa dos outros. No cais olhavam para ele com certo receio e diziam 
que no era "boa bisca".
Jacques cresceu nos saveiros como Guma. Casou e logo morreu numa noite de tempestade. Morreu como o pai e deixou a mulher com um filho na barriga.
Maneca Mozinha ainda estava nos saveiros, com sua mo aleijada, mas sabendo dirigir um barco como ele s. At mestre Manuel, to velho no cais e sempre moo, o 
respeitava.
Esses haviam sido seus amigos de infncia. Eram muitos os meninos como ele no cais, agora homens nos saveiros. No esperavam grande coisa da vida: viajar sobre as 
ondas, ter um saveiro, seu, beber no "Farol das Estrelas", fazer um filho que seguisse seu destino e ir um dia com Iemanj. Bem que canta uma voz no cais nas noites 
mais belas:
 doce morrer no mar...
Dona Dulce, que est envelhecendo e j botou culos, ouve a msica e sabe que eles morrero sem temor. Apesar disso, sente uma amargura no seu corao. Teme por 
eles, tem pena desses homens. O velho Francisco, que j no viaja, que fica no cais esperando a morte calma, livre das tempestades, das traies das ondas, sabe 
tambm que eles morrero sem temor. Mas, ao contrrio de D. Dulce, o velho Francisco tem inveja deles. Pois contam que a viagem que os nufragos fazem com Iemanj, 
para as Terras do Sem Fim, por sob os mares, mais veloz que os mais velozes navios, vale bem essa vida pouca que eles levam no cais.

Acalanto de Rosa Palmeiro

Rosa Palmeiro  um nome que soa bem aos ouvidos da gente do cais. Contam muitas histrias dessa mulata.
O velho Francisco sabe inmeras, em prosa e verso, porque Rosa Palmeiro j tem ABC e at os cegos do serto contam as suas estrepolias. Os homens do cais, que a 
conhecem, gostam dela e nenhum lhe nega fogo para o seu cachimbo e um largo aperto de mo. E junto de Rosa Palmeiro ningum conta valentia.
Nas noites em que no saem muitos saveiros, o velho Francisco narra histrias.  bem verdade que o velho Francisco aumenta as histrias que conta, inventa pedaos 
inteiros. Mas por mais que aumente nunca dir mesmo a inteira verdade sobre Rosa Palmeiro. Nenhum contador de histrias desse mundo (e os melhores esto na beira 
do cais da Bahia) pode dizer tudo que Rosa Palmeiro j fez. Ela j fez muita coisa, tanto assim que o velho Francisco est cantando no seu violo para uma roda:

"Rosa Palmeiro tem navalha na saia.
Tem brinco no ouvido e punhal no peito.
No tem medo de rabo-de-arraia.
Rosa Palmeiro tem corpo bem feito".

Ah! no seria nada se ela no tivesse o corpo bem feito, sua fama j viajou, corre mundo, todo marinheiro a conhece. Todos tm medo da navalha na saia, do punhal 
no peito, da mo fechada. Mas tem mais medo ainda do corpo bem feito de Rosa Palmeiro. Ela engana muito. Ela vai passando, o corpo se mexendo, mesmo chamando, nem 
parece que  ela. O marinheiro vai atrs, a areia  macia e a Lua  bela no mar. Cantam rio cais que a noite  para o amor. Ela vai remexendo o corpo, anda gingando 
como se fosse martima tambm. O marinheiro no sabe, vai atrs dela. A areia os espera. Nem parece que  Rosa Palmeiro de to bonita. Pobre do marinheiro se ela 
no gostar dele ou se ela no quiser amar essa noite. Rosa Palmeiro traz navalha na saia, punhal no peito. Rosa Palmeiro j deu em seis soldados, j comeu vinte 
prises, j bateu em muito homem. O velho Francisco canta:
"Rosa bateu em seis soldados.
Na noite de So Joo.
Chamaram seu delegado.
Ele disse - no vou l no".

"Veio toda a pulia.
Ela puxou o punhal.
Foi medonho o rebulio.
Foi uma noite fatal".

Ela bateu em homem, ela fez correr toda a polcia. Era valente e era bela. O velho Francisco canta as proezas de Rosa Palmeiro e todos aplaudem:
"Veio ordem de trazer
Palmeiro ou morta ou viva..
Ela puxou a navaia.
S se viu homem correr.."

Ouvem e aplaudem. Guma  dos que mais aplaudem. Ele no tem lembrana de Rosa Palmeiro. J faz muitos anos que ela foi embora daquele porto. Andou primeiro o Recncavo 
todo, viajou depois para o sul do estado, se amigou uns tempos com um coronel, deu uma surra medonha nele, desapareceu nesse mundo sem fim. Um dia passou de novo 
pela Bahia, mas quase ningum a viu, chegou num navio e foi no outro, dizem que no tinha envelhecido nada, que era a mesma. A flor (uma rosa palmeiro) que trazia 
sempre no vestido, l estava. Mas foi embora novamente, e s resta dela nessas noites o seu ABC e as histrias que os homens contam debaixo da sombra que o mercado 
projeta. Tinha um corpo bonito e no perdeu nada ainda. Quando amava um homem, era mulher como nenhuma. Ento sua rosa andava ainda mais bonita, botava cheiro no 
cabelo. Quem se metesse com ela quando estava de amigo no tinha remdio, Rosa Palmeiro era mulher de um s. O velho Francisco cantou:

"Se de dia era valente,
Valente como ela s...
De noite era diferente,
Dos homens ela tinha d..."

Na memria dos homens do cais passava o perfil de Rosa Palmeiro. Alguns dos que estavam ali, Brigido Ronda, por exemplo, a haviam amado. Quase todos tinham assistido 
s lutas de Rosa Palmeiro, por isso gostavam de ouvir seu ABC e as histrias das suas brigas. Por onde andaria Rosa Palmeiro? Nascera naquele cais, fora pelo mundo, 
que no gostava de estar num lugar s. Ningum sabe por onde ela anda. Onde ela estiver tem barulho. Porque ela traz navalha na saia, punhal no peito e porque tem 
um corpo bem feito.
- 

Uma noite ela desceu da terceira classe de um navio que chegava do Rio. O 35 pegou na sua bagagem e foi levar de graa para um quarto do "Farol das Estrelas". Cinco 
minutos depois todos no cais sabiam que Rosa Palmeiro havia voltado e ainda era a mesma, no tinha envelhecido. Rosa Palmeiro tem corpo bem feito, o verso podia 
continuar. No saiu nenhum saveiro nessa noite. Cargas de telhas, de laranjas, de abacaxis e sapotis esperaram pela manh do dia seguinte. Rosa Palmeiro tinha voltado 
depois de muitos anos de ausncia, os marinheiros de um baiano correram para o "Farol das Estrelas". Os canoeiros vieram tambm. O velho Francisco trouxe Guma.
Vinha um rumor de copos da sala do botequim. Uma lanterna vermelha iluminava o desenho de um farol de luz baa. Quando eles entraram, Rosa Palmeiro estava sentada 
no balco e ria muito, os braos abertos, um copo na mo. Quando avistou o velho Francisco, se atirou de um salto, apertou os braos no pescoo dele:
- Olhe o velho Francisco... Olhe o velho Francisco.Bem diz que vaso ruim no quebra...
- Por isso ns dois t vivo...
Ela ria, sacudia o velho Francisco:
- Tu no ficou no fundo do mar, heim, desgraa velha? Quem houvera de dizer...
Reparou Guma:
- Quem  esse taifeiro? D parena parece com voc...
-  meu sobrinho Gumercindo, que a gente chama de Guma. Tu viu ele bem menino...
Ela ficou se lembrando. Logo, sorriu:
-  o filho de Frederico? Aperte esses ossos, menino... Teu pai era um homem e tanto...
- Era meu irmo -riu Francisco.
- T a dois irmo que no se parecia. Ele no tinha cara de peixe morto!
Todos riram, porque Rosa Palmeiro tinha mesmo muita graa, abanava as mos, falava igual a um homem, bebia como poucos. O velho Francisco bateu palmas e disse:
- Minha gente, vamos beber porque chegou essa bruaca velha...Eu pago um gole para todos.
- Eu pago outro... - gritou mestre Manuel, que nesse tempo ainda no morava com Maria Clara.
Sentaram-se e emborcaram os copos de cachaa. Seu Babau, o dono do "Farol das Estrelas", andava de um lado para outro com a garrafa de "rabo-de-galo" na mo, contando 
os copos bebidos. Rosa Palmeiro veio sentar junto do Guma numa mesinha do canto. Ele olhava para ela, tinha o corpo bem feito. As ndegas grandes oscilavam como 
a proa de um saveiro. Ela engoliu a cachaa, fez uma careta:
- Eu conheci teu pai, mas no sou to velha assim...
Guma riu, olhando os olhos dela. Porque o ABC no falava naqueles olhos fundos, verdes, que pareciam uma pedra do fundo do mar? Mais que o punhal, a navalha, o corpo 
bem feito, as ndegas de saveiro, aqueles olhos metiam medo, eram fundos e verdes como o mar. Quem sabe se eles no variavam com a cor do mar, mar azul, verde, mar 
de chumbo nas noites pesadas de calmaria?
- Eu tambm conheci o velho Frederico e s tenho vinte anos...
- Tambm no sou to nenm... Mas mijei muito nas calas de Frederico. Voc,  ver ele ...
Agora era mestre Manuel quem pagava o copo de cachaa. Gritou para Rosa Palmeiro:
- Quem t pagando sou eu, mulher dos diabos...
Ela virou na cadeira:
- E eu no mereo no?
Tu t ficando um couro, Rosa - riu o velho Francisco.
- Cala a boca, canoa emborcada. Tu no entende dessas coisas...
- Bem dito, Rosa. Tu ainda tira o juzo dum -apoiou Severino.
Rosa Palmeiro falou para Guma:
- Tou mesmo um couro assim como seu tio disse? - ria e olhava bem dentro dos olhos dele. Ela tinha punhal nos olhos tambm.
- Que nada... No tem quem arresista...
Olhos de Rosa Palmeiro que sorriem. Para que essa sala de botequim se a areia do cais  macia e o vento que passa  morno? Os olhos de Rosa Palmeiro so da cor 
do mar.
Mas agora Rosa Palmeiro no  de um homem s.  de todos eles do cais que querem saber o que ela fez durante tanto tempo fora da sua terra. Por onde andou, que 
brigas teve, que cadeias correu. Reclamam de todos os lados que ela conte:
- Eu s vou dizer uma coisa pra vocs... Andei por este mundo que Deus me acuda. Andei por tanto lugar que nem sei mais. Vi cidade grande, cidade que cabe dez Bahia...
- Tu andou no Rio de Janeiro?
- Andei trs vez... Tou chegando de l.
-  muito bonito?
-  uma beleza. Uma fartura de luz e de gente que at di...
- Muito navio grande?
- Cada um grando que no d pra entrar aqui. Tem uns que de ponta a ponta bate do cais no quebra-mar...
- No t grande de mais, no?
- Tu viu? Pois eu vi.  s perguntar pra um marinheiro de verdade. Ou tu t pensando que canoeiro  martimo?
Mestre Manuel atalhou:
- Eu tambm j vi falar.. Diz que  um disparate.
- No mordeu nenhum homem por l, Rosa? perguntou Francisco.
- Homem de l no  homem. Nem vale a pena. Eu vivi l nos morro, era arrespeitada como qu. Nem queira saber. Uma vez um pexote quis se atravessar na minha frente 
na sala de um baile. Travanquei a ncora no pescoo do bicho, ele naufragou no cho. S se viu risada...
Os homens agora estavam satisfeitos. L fora, no Rio, nas outras terras, ela tinha amostrado quem era. Rosa Paimeiro olhou para Guma e disse:
- At eles disseram: se mulher da Bahia  assim, que dizer dos homens?
- Tu deixou fama, hem, Rosa?
- Tinha um vizinho meu que no sei que deu nele um dia quis se atirar em cima de mim. Eu estava enrabichada por um mulato que fazia samba, no dei ousadia. Uma noite 
ele veio com conversa fiada pro meu quarto. Foi conversando, olhando a cama e se atirou em cima. Eu disse para ele: "Compadre, levanta o ferro, d teu fora." Ele 
bem do seu, ancorado ali como se fosse o porto dele. Bugalhava os olho pra mim. Eu avisei: meu homem t pra chegar... Ele s disse que no tinha medo de homem. Eu 
perguntei pra ele: e de mulher tu tem medo? Ele disse que s de feitio. E com os olho bugalhado em mim. Eu disse que era melhor ele ir embora. Mas ele no quis 
ir nada. At ia tirando as calas, eu a me aborreci, sabe?
Os homens sorriam, antegozando o final:
- O que foi que teve?
- Peguei pelo pescoo, atirei pela porta. Ele ficou ainda espiando, arriado no cho, com cara de besta.
- Bem feito, negra...
- Vocs no viu o resto. Eu tambm pensei que tivesse acabado a o verso. Mas tinha nada. Depois meu mulato chegou, eu no alarmei. Mas tinha dado uma raiva no homenzinho, 
e ele, negcio de meia-noite, invadiu a casa com mais meia dzia. Meu mulato era bom na coisa e a gente no teve dvida: foi um fuzu de desmanchar... Os homens 
coitado pensava que era s bater no Juca, me agarrar e abrir a vela. Quando viro que a coisa tinha seus ipissilone, um j tava com a cara quebrada e eu com a navaia 
velha de guerra na mo. Foi uma sangueira que at parecia pesca de punhal. Quando pensamo que no, olhe a pulia na porta. Tocou tudo pro distrito.
- Tu comeu a cadeia do Rio?
- Comi nada. Cheguei l, contei tudo ao delegado, disse que Rosa Palmeiro no levava tapa assim no. O deIegado era um doutor baiano, riu, disse que j me conhecia 
e mandou embora. Pedi pro Juca ir tambm, ele deixou. Os outro ficou tudo, fora um que foi pra Assistncia todo tatuado.
- Voc teve sorte do delegado!
- Mas quando procurei o Juca, cd? Nunca mais que vi. Ficou com tanto medo de mim...
Os marinheiros riam. Os copos de cachaa se esvaziavam num momento. Mestre Manuel pagava. Quem foi que disse que Rosa Palmeiro era um couro? Guma estava com os 
olhos nela. Ela tinha um ABC e sabia brigar. Mas tinha um corpo bem feito e uns olhos fundos. Rosa Palmeiro lhe disse:
- Nunca briguei com os homens que gosto... Pergunte a qualquer um... -Mas no viu nenhum medo nos olhos dele.
Saram tarde do botequim. O velho Francisco foi embora, at mestre Manuel se cansou de esperar. Seu Babau disse para Rosa Palmeiro:
- No vai dormir?
- Ainda vou espiar essas coisas a fora...
Tinha muito tempo que ela no amava um homem naquelas areias. Muita gente pensava que ela s sabia brigar, que a vida para ela era um barulho, a ponta de uma faca, 
o brilho de uma navalha. Se homem valente vira estrela no, cu, ela um dia estaria l entre eles. Mas a vida para Rosa Palmeiro no era s barulho. Do que ela mais 
gosta, mais de que de briga, de cachaa, de conversa,  de estar assim nos braos de Guma, estendida na areia, dominada, mulher, muito mulher, catando a cabea dele, 
dengosa. Os seus olhos so fundos como o mar e como o mar variam. So verdes, verdes de amor nas noites do areal. So azuis nos dias calmos, e cor de chumbo quando 
a calmaria  apenas o prenncio da tempestade. Seus olhos brilham. Suas mos, que manejam facas e navalhas, so agora doces e sustm a cabea de Guma, que repousa. 
Sua boca, que diz palavres,  terna agora e sorri de amor. Nunca a amaram como ela desejou. Todos tinham medo dela, do punhal, da navalha, do seu corpo bem feito. 
Pensavam que no dia em que ela se zangasse apareciam o punhal e a navalha, o corpo desaparecia. Nunca a tinham amado sem temor. Nunca ela vira uns olhos lmpidos 
assim como os de Guma. Ele a admirava, no a temia. Mesmo aqueles que haviam tido a coragem de ver seu corpo bem feito, apesar da navalha e do punhal, nunca a tinham 
olhado nos olhos, nunca tinham enxergado a ternura destes olhos de mar, desejos de amor, ternos olhos de mulher. Guma olhou esses olhos e compreendeu. Por isso as 
mos de Rosa Palmeiro alisam o seu cabelo, seus lbios sorriem e seu corpo estremece.
- 
Trs noites depois o "Valente" deslizava nas guas do rio Paraguau. Vinha um cheiro de frutas do poro. O vento arrastava o saveiro e no era necessrio ningum 
no leme, de to calmo que estava o rio. As estrelas brilhavam no cu e no mar. Iemanj viera ver a Lua e espalhara os seus cabelos nas guas tranqilas.
Rosa Palmeiro, navalha na saia, punhal no peito, falou no ouvido de Guma:
- Voc vai se rir de mim, me achar boba... Sabe o que eu queria ter?
- O que era?
Ela ficou olhando as guas do rio. Quis sorrir, ficou encabulada:
- Te juro que queria muito ter um filho, um filhinho para eu tomar conta e criar ele. No ria no...
E no teve vergonha das lgrimas que rolaram sobre o punhal do peito, a navalha da saia.

Lei

Os barcos de pesca voltaram para o cais. Alguns mal tinham comeado a pescaria e no tinham feito ainda para as despesas. Rufino voltou com a canoa do meio da baa. 
Saveiros que j estavam com as velas levantadas e a ncora suspensa baixaram a ncora e arriaram as velas. No entanto o cu era azul e o mar era sereno. O sol clareava 
tudo e at clareava demais. Mesmo por isso os barcos de pesca haviam voltado, Rufino trouxera a canoa para o Porto da Lenha, os saveiros arriaram as velas. A gua 
foi mudando de cor, de azul que era ficou cor de chumbo.
Severiano, um canoeiro decidido, veio andando para o lado do cais dos saveiros. Vendo que os saveiros no saam, vrias pessoas deixaram o mercado e tomaram o elevador. 
A maioria, porm, se deixou ficar porque o tempo estava bonito, o cu azul, o mar sereno, o Sol brilhante. Para eles nada estava para acontecer.
Severiano se aproximou e falou para mestre Manuel e Guma:
- Vai ter coisa braba, hoje...
- Quem sa que  doido...
Puxaram fumaa dos cachimbos. Pessoas entravam e saiam do Mercado Modelo. O sol reluzia nas pedras pequenas do calamento. Na janela de uma casa uma mulher estendia 
uma toalha. Marinheiros trepados no dorso de um navio o lavavam. O vento comeou a correr, sacudindo a areia que voava. Severiano perguntou:
- Tem muita gente no mar? Mestre Manuel olhou em volta. Os saveiros balouavam sobre pequenas ondas.
- Que eu saiba, no... Quem tiver fica por Itaparica ou Mar Grande...
- Eu no queria t na gua numa hora dessa...
O velho Francisco se juntou ao grupo que ia aumentando:
- Foi num dia assim que Joo Pequeno bebeu gua...
Ora, Joo Pequeno foi o mestre de saveiro que mais conhecia da profisso naquele cais inteiro. Sua fama era respeitada muito longe. Homens de Penedo, de Caravelas, 
de Aracaju, falavam nele. Seu saveiro ia mais longe que todos os outros e no temia temporais.
Entendia tanto daquela barra que um dia Joo Pequeno foi convidado para prtico. Entrava com os navios nas noites de tempestades. Ia busc-los l fora, pulando sobre 
as ondas, e os trazia evitando os perigos da barra difcil nos dias de temporal.
Pois numa noite assim calma, s que o mar estava cor de cobre, ele se aventurou a sair. Um navio no sabia o caminho, vinha  Bahia pela primeira vez. Joo Pequeno 
no voltou da aventura. O Governo deu uma penso  mulher dele, mas depois cortou por economia. Hoje de Joo Pequeno s resta a fama na beira do cais.
O velho Francisco, que o conheceu, j contou a histria de Joo Pequeno umas cem vezes. E os que o escutam ouvem-na sempre com respeito. Dizem que Joo Pequeno aparece 
nas noites de tempestade. Muitos j o viram vagando em cima dos saveiros, procurando o navio perdido na bruma. At hoje, Joo Pequeno ainda procura o navio. E no 
descansar enquanto no o levar ao porto. S ento comear o seu passeio bem merecido com Iemanj pelas Terras do Sem Fim.
Essa  noite de ele aparecer. Quando o vento encrespar zunir de estremecer as casas, quando a noite cair sobre o cais, ele vir procurar o caminho do navio que se 
perdeu. Vogar em cima dos saveiros, amedrontar os que estiverem no mar.
Um saveiro se aproxima do cais. Com o vento que sopra forte, vem numa carreira doida. As velas esto esticadas ao mximo. Os homens olham pra Xavier que vem...
O saveiro est chegando e se pode ler o nome em tinta preta: Cabor.
- Nunca vi nome mais feio pra um barco... - diz Manuel.
- Ele tem l suas razes - interrompe Francisco. - Quem sabe da vida dos outros?
- No tou falando no. Disse por dizer...
O vento aumentava a cada instante e as guas no eram mais serenas. De longe vinha o zunido do vento forte e impiedoso. Aos poucos o cais foi se despovoando. Xavier 
atracara o saveiro e vinha para o grupo:
- A coisa t feia...
- Tem muita gente n'gua?
- S topei com Otoniel, mas tava bem pertim de Maragogipe...
O mar se movia, as ondas j eram grandes, os saveiros e as canoas subiam e desciam. Manuel virou-se para Xavier:
- Se mal lhe pergunto, mano, porque voc botou no seu barco esse nome to estapafrdio?
Xavier fechou o rosto. Mulato troncudo, trazia o cabelo alisado:
- Coisa da gente... Tudo  besteira, sabe?
A tempestade desabara sobre a cidade e o mar. Agora no se via mais ningum nas proximidades do mercado a no ser eles, que formavam um grupo de capas de oleado 
por onde a chuva escorria. O vento ensurdecia e eles tinham que falar alto. Manuel gritou.
- Que foi que voc disse?
- Voc quer saber? Foi coisa de mulher... t com muito tempo, foi noutra costa, l no Sul. Tudo  besteira, no vale a pena, sabe? Ningum adivinha coisa de mulher. 
Porque  que ela me chamava Cabor? S ela podia dizer e nunca disse, s que ria, ria muito... Era de fazer maluquecer, isso era...
O vento levava as palavras. Os homens se curvavam para ouvir melhor. Xavier baixou a voz:
- Me chamava Cabor... Porqu, eu no sabia. Ela ria toda vez que eu perguntava... O barco ficou Cabor...
No havia motivo para os outros estarem espantados. Ele fez uma cara de raiva e gritou:
- Vocs nunca gostou de uma mulher? Ento no sabe que  desgraa... Eu quero mil vezes, Deus me perdoe -e batia a mo na boca- um temporal como o de hoje que uma 
mulher enganadeira, dessas que vive rindo... Me tratava Cabor, o Diabo sabe porqu. Porque foi embora? Eu no tinha feito nada a ela. Um dia quando voltei tinha 
se afundado no mundo, deixou as coisas toda... At procurei no mar, podia ter se afogado... Vamos beber um trago?
Marcharam para o "Farol das Estrelas". De l vinha a voz de Rosa Palmeiro que cantava. O vento levantava a areia. Xavier falou:
- No vale a pena... Mas a gente fica pensando... Botei o nome no barco de Cabor. Ela me chamava de Cabor. At tinha me dito, fazia pouco espao, que ia ter um 
menino meu.. Foi embora com o menino no bucho.
- Um dia volta... - consolou Guma.
- Menino, tu  de outro dia... E se ela voltar eu estraalho ela...
- O nome do barco... Imaginei...
- Se no fizesse, eu ia embora de vergonha...
Disse mais outras palavras que o vento levou. No ouviam mais a voz de Rosa Palmeiro cantando. A escurido dominava. S foram ouvir vozes novamente quando chegaram 
 sala do "Farol das Estrelas".
O homem de sobretudo gritava para seu Babau:
- Pensei que tinha era homem... S tem covardes.
A sala estava vazia. S Rosa Palmeiro ouvia atenta. Seu Babau estendia as mos, no encontrava desculpas:
- Mas o temporal no t de brinquedo, seu Godofredo...
- Uns covardes. Homens de coragem nesse cais j se acabou. Donde t a raa de Joo Pequeno?
Eles se aproximaram. Era seu Godofredo, da companhia de navios baianos que estava possesso:
- Que est se dando, seu Godofredo?-perguntou Manuel.
- Que est acontecendo? Pois no sabe? O "Canavieiras" est a fora, sem poder entrar...
- E o comandante no conhece?
- Conhece a cara dele...  um Ingls que chegou agora. No sabe nada ainda direito. Tou procurando um homem para servir de prtico...
Cuspiu com raiva:
- Mas j se acabou os homens valentes dos saveiros...
Xavier se adiantou. Francisco, que pensava que ele j ia se oferecer, o puxou pela capa.
- O senhor falou em Joo Pequeno? Que foi que ele ganhou? Nem o descanso do Inferno. Vive por a assombrando a gente. Que foi que ele ganhou? Deram uma mesada s 
para o tapear... Tiraram logo...  s a gente morrer para ser valente...
- Mas tem famlias no navio...
- Ns tambm tem famlia... Que  que ganha...
Seu Godofredo se desviou:
- A Companhia d duzentos mil ris ao homem que quiser ir...
- Vida barata, hem ? - Xavier sentou e pediu cachaa.
Rosa Palmeiro riu bem alto:
- Tua mulher vem nesse navio, God ? Ou  tua amsia ?
- Cala a boca, mulher, voc no v que o navio est cheio?
No gostavam de seu Godofredo no cais. Ele comeara como praticante num baiano, no se sabe como chegara a comandante. Nunca entendeu direito aquilo, sabia era perseguir 
os marinheiros. Depois que ele quase deixa o Mara na barra de Ilhus, a Companhia deu-lhe um bom lugar nos escritrios. E ele perseguia quanto podia os saveireiros, 
os canoeiros, os navegadores.
- Est cheio de gente. Onde esto os homens do cais? Antigamente um navio no se perdia assim...
- Tem algum do senhor no "Canavieiras"?
Ele olhou para Francisco:
- Eu sei que vocs me odeiam...- Sorriu. - Eu s seria capaz de pedir para salvar algum meu no ? Mas no estou pedindo, no. Estou  pagando. Duzentos mil ris 
para quem quiser ir...
Outros homens chegavam. Godofredo repetiu a proposta. Eles olharam com Incredulidade. Xavier bebia numa mesa:
- Ningum aqui quer se matar, seu Godofredo. Deixe que o Ingls se arranja.
Guma perguntou:
- Porque no mandam um rebocador?
Seu Godofredo estremeceu:
- Deviam mandar, sim... Mas a Companhia diz que  muito caro... Preciso de um homem de coragem. A Companhia d duzentos mil ris...
O vento sacudia a porta do "Farol das Estrelas". Pela primeira vez ouviram o apito do navio que pedia socorro. Seu Godofredo levantou os braos (ficava baixinho 
metido naquele sobretudo grosso) e disse quase carinhosamente aos homens:
- Eu dou mais cem mil ris do meu bolso... E juro que protejo o homem que for...
Eles estavam espantados, mas nenhum se moveu. Seu Godofredo virou-se para Rosa Palmeiro:
- Rosa, voc  uma mulher, mas tem mais coragem que muitos homens... Olhe, Rosa, meus dois filhos esto a bordo. Foram passar as frias em Ilhus... Voc nunca teve 
filho, Rosa?
Francisco sussurrou ao ouvido de Guma:
- Bem disse que tinha algum dele no barco...
Godofredo estendia as mos para Rosa. Agora estava ridculo, baixo, vestido com o sobretudo rico, a face angustiada, a voz pesada:
- Pea para eles irem, Rosa... Dou duzentos mil ris a quem for... Protejo a vida toda... Eu sei que no gostam de mim... Mas so meus filhos...
- Seus filhos -Rosa Palmeiro olhava para a tarde escura.
Godofredo veio para uma mesa. Apoiou a cabea nas mos bem tratadas e os ombros subiam e desciam. Pareciam os saveiros no mar.
- Ele est chorando... - disse Manuel.
Rosa Palmeiro levantou-se. Mas Guma j estava junto de Godofredo:
- Deixe estar, que eu vou...
O velho Francisco sorriu. Olhou para o brao onde estavam os nomes do seu irmo e dos seus saveiros. Ainda cabia o nome de Guma. Xavier largou o copo:
- Maluqueceu... E no adianta nada...
Guma saiu na escurido. Os olhos de Rosa Palmeiro brilhavam de amor. Godofredo estendeu a mo:
- Traga meus filhos...
Desapareceu na noite que chegara. Levantou as velas, botou o saveiro contra o vento. Ainda viu o vulto dos que haviam acompanhado at o cais. Rosa Palmeiro e o 
velho Francisco saudavam. Xavier gritou:
- Lembranas para Janana...
Mestre Manuel virou-se com dio:
- Nunca se deve dizer que um homem vai para a morte...
Levantou os olhos, viu a sombra do saveiro que se afastava no mar de chumbo:
- Era uma criana ainda...
- 

As estrelas tinham desaparecido. Tambm a Lua no veio nessa noite e por isso no havia cnticos no mar, no se falava de amor. As ondas corriam umas sobre as outras. 
Isso dentro da baa, antes mesmo do quebra-mar. Como no estaria ento l fora, adiante da barra, onde o mar fosse livre?

O "Valente" se afasta com dificuldade do cais. Guma procura ver o que est adiante de si. Mas  tudo negro em redor. O difcil  atravessar esse pedao de mar, o 
vento contra. Depois ser uma carreira doida, a favor do vento enfurecido, por um mar que j no  dos saveiros e das ondas: o mar dos grandes navios.
Guma ainda enxerga as sombras no cais. Aquela que agita a mo  Rosa Palmeiro, a mulher mais valente e mais doce que ele j viu. Guma s tem 20 anos, mas j amou 
vrias mulheres. E nenhuma delas soube ser ainda como Rosa Palmeiro, to afetuosa nos seus braos. O mar estava como Rosa Palmeiro nos dias de barulho. O mar testava 
cor de chumbo. Um peixe salta sobre as ondas. Para ele a tempestade no tem importncia. At impede os pescadores na sua faina. O saveiro aos poucos atravessa as 
guas do cais. O quebra-mar est perto. O vento corre em redor do forte velho, entra pelas janelas abandonadas, brinca com os velhos canhes inteis. Guma j no 
v os vultos no cais.  possvel que Rosa Palmeiro esteja chorando. Ela no  mulher de chorar, mas queria ter um filho e se esquecia que era muito tarde para isso. 
Fazia de Guma seu amante e seu filho. Porqu, nessa hora da morte pensar na sua me que se fora? Guma no quer pensar nela. Rosa Palmeiro tem alguma coisa de me 
no seu amor. No  mais nova e o acarinha como a um filho, muitas vezes se esquece dos beijos doidos de desejo e beija suavemente com beijos maternais. O saveiro 
salta sobre as ondas. Avana facilmente, o quebra-mar parece se conservar sempre  mesma distncia. To prximo e to longe. Guma arranca a camisa molhada. A onda 
atravessou o saveiro de lado a lado. Como estar ento fora da barra? Rosa Palmeiro quer ter um filho. Ela se cansou de dar em soldados, de comer cadeia, da navalha 
na saia, do punhal no peito. Ela quer um filho a quem acarinhar, para quem cante cantigas de ninar. Uma vez Guma dormiu nos braos dela e Rosa cantava:
- dorme, dorme, bebezinho, que a cuca vem a.
Se esquecia que ele era seu amante e fazia dele filho, acalentava no colo. Talvez fosse at isso que houvesse desencadeado a clera de Iemanj. S Dona Janana pode 
ser me e mulher. E ela o  de todos os homens do cais,  protetora de todas as mulheres. Agora Rosa Palmeiro far promessas para ela, para que Guma volte com vida. 
Talvez prometa at (o que no faz o amor?) a navalha da saia, o punhal do peito. Outra onda lava o saveiro. A verdade, pensa Guma,  que  difcil chegar com vida. 
Hoje ser o seu dia. Pensa isso sem medo. Chegou mais cedo que ele esperava, mas tinha mesmo que chegar, ele no escaparia. Tinha pena somente de ainda no haver 
amado uma mulher como a que pedira certa noite a Dona Janana. Uma mulher que lhe desse um filho para herdar seu saveiro, para ouvir as histrias do velho Francisco. 
Tambm no tinha corrido outros portos como pensara. No fora como Chico Tristeza por outros mares para as Terras do Sem Fim. Iria agora com Iemanj, Dona Janana 
dos canoeiros, Princesa de Aioc dos negros, correr por baixo das guas. Talvez ela o levasse para a terra de Aioc, que era a sua terra.  a terra de todos os martimos, 
onde D. Janana  princesa. Terras de Aioc, longnquas, perdidas na linha do horizonte, de onde vinha Iemanj nas noites de lua.
Onde est o quebra-mar que nunca o saveiro o atinge? Guma segura o leme, e ainda assim  difcil manter o barco contra o vento. Passa sob a sombra do forte velho. 
L fora da barra est um navio que apita. O vento traz o grito de barco cheio de gente. No  pelo dinheiro que Guma vai no "Valente" tentar trazer esse navio para 
o porto. Ele mesmo no sabe bem porque  que afronta assim a tempestade. No , com certeza, pelo dinheiro. Que far com aqueles duzentos mil ris que sero mais 
ainda se Godofredo der tambm o prometido? Comprar presentes para Rosa Palmeiro, uma roupa nova para Francisco, uma vela, talvez, para o "Valente". Mas passaria 
sem isso tudo e no  por duzentos mil ris que um homem vai para a morte. No  to-pouco porque Godofredo tem dois filhos no "Canavieiras" e chora como uma criana 
abandonada. No  por isso no.  mesmo porque vem um apito triste do navio, um pedido de socorro e a lei do cais manda que se atenda aos que no mar pedem socorro. 
Assim, Iemanj ficar satisfeita com ele, e se voltar com vida, ela lhe dar a mulher que pediu. Guma no pode responder ao apito do navio. Estar perto da luz do 
Farol da Barra, com certeza,  espera de socorro, os homens de bordo tentando consolar as crianas e as mulheres. Navio sem rumo, perdido perto do porto. Por causa 
dele  que Guma vai. Porque um navio, uma canoa, um saveiro, uma tbua, qualquer coisa sobre o mar,  a ptria desses homens do cais, do povo de Iemanj. Eles mesmos 
no sabem que no madeirame dos navios, nas velas rotas dos saveiros, est a terra de Aioc, onde dona Janana  princesa.
Passou pelo quebra-mar. No forte velho uma luz oscila, caminha como um fantasma. Ele grita:
- Jeremias!  Jeremias!
Jeremias aparece com a lanterna. A luz cai sobre o mar e pula com as ondas. Jeremias pergunta:
- Quem vai a?
- Guma...
- Que diabo te deu, menino?
- Vou buscar o "Canavieiras" que t fora da barra...
- E no podia deixar para entrar amanh...
- 't apitando socorro...
Atravessou o quebra-mar. Jeremias ainda grita e vira a luz da lanterna:
- Boa viagem! Boa viagem!
Guma maneja o leme. Tambm Jeremias no tem mais esperanas de v-lo. No espera mais ver o "Valente" atravessar o quebra-mar. Nunca mais Jeremias cantar para Guma. 
 Jeremias quem,  noite, diz que " doce morrer no mar". Agora ser uma corrida doida. Est com o vento a favor. Quase o saveiro emborca na manobra para mudar de 
rumo. Agora o vento o arrasta, joga gua sobre o saveiro, empasta o seu cabelo, canta nos seus ouvidos. O vento passeia por todo o saveiro. Apaga a sua lanterna. 
As luzes da cidade, cada vez mais distantes passam velozes. Agora  uma corrida sem fim, todo virado de um lado, agarrado ao leme. Para onde o arrasta este vento? 
A chuva molha o seu corpo, chicoteia a sua cara. No distingue nada na escurido. S o apito do "Canavieiras"  seu rumo. Poder passar muito longe dele, poder 
dar com os costados em Itaparica, ou numa pedra qualquer no meio do mar. Ningum teve coragem para vir. At Jeremias se admirou quando ele passou. E Jeremias  um 
velho soldado. Mora ali no forte, sozinho como um rato, desde que desengajou por velhice. Veio morar ali no meio das guas, num forte abandonado, para no sair de 
junto dos canhes, de coisas que recordavam quartel e armas. Foi com seu destino at ao fim. Assim, ia Guma com o seu, que em seu saveiro ia numa corrida desabalada. 
Talvez no chegasse nunca e amanh os homens procurassem seu corpo. O velho Francisco gravaria seu nome no brao, contaria sua maluquice aos outros homens do cais. 
Rosa Palmeiro havia de esquec-lo e amar a outro e de pensar num filho. Mas, apesar disso, a lei do cais teria sido cumprida e a sua histria seria exemplo para 
outros tempos.
No ouve o apito do navio. As luzes da cidade esto quase invisveis. Apesar dos seus esforos, o saveiro se afastou muito da rota que devia seguir. Est muito mais 
para o largo, as costas de Itaparica esto prximas. Fora o leme e segue na corrida, procurando se orientar. Que tempo durar isso, quantas horas correr assim? 
J est tardando que isso termine. Porque no chega logo a hora de ver Iemanj, se no deve encontrar o "Canavieiras"?
Muito moo para morrer. Ainda queria uma mulher nova, assim como D. Dulce quando ele estava na escola, que fosse s dele. No deixaria um filho e seu saveiro se 
estraalharia. Ele no teme a morte, mas pensa que ainda  cedo para morrer. Queria morrer depois de ter deixado uma histria que fosse recordada na beira do cais. 
Ainda era cedo para morrer. Ainda era cedo para ir com D. Janana. No era ainda og do seu candombl, no cantava ainda os seus cnticos, no podia levar no pescoo 
a sua pedra verde.
O que leva ao pescoo  a medalha que D. Dulce lhe deu. D. Dulce ficar triste quando souber que ele morreu. Ela no compreende a vida deles, vida, dura, todo dia 
junto da morte, e espera um milagre. Quem sabe se ele no vir? Por isso Guma no quer morrer. Porque no dia em que vier esse milagre ento tudo ser mais bonito, 
no haver tanta misria no cais, um homem no arriscar sua vida por duzentos mil ris.
Est no rumo certo novamente. Ouve o navio que apita, que chama. Mas a onda que vem  muito forte e arranca com Guma de junto do leme. Nada para o saveiro, que vai 
desarvorado, rodopiando com o vento. Talvez tudo tenha acabado e ele no tem um nome para dizer nessa hora. No chegou ainda seu momento de morrer. Porque ainda 
no chegou a sua mulher. Nada com desespero, alcana uma borda do saveiro, toma do leme. Mas est voltado contra o navio, que j se v na distncia. Luta contra 
o vento, contra as guas, contra o seu corpo, que treme de frio.
Recomea a corrida. Seus dentes esto apertados uns contra os outros. No sente nenhum medo. Quer acabar com aquilo de uma vez. Prximo, muito prximo, brilha o 
navio iluminado. A chuva cai pesada. O vento parte suas velas, mas ele j est gritando, junto do casco do "Canavieiras":
- Uma escada!
Os marinheiros acodem. Jogam uma corda, que  amarrada ao "Valente". Depois  a aventura de passar do saveiro para a escada oscilante de bordo. Duas vezes esteve 
prestes a cair, e ento no haveria salvao, seria esmagado entre o navio e o saveiro.
Sorri. Est ensopado de gua e, no entanto, est feliz. No cais, a estas horas pensaro que esteja morto, que seu corpo viaja com Iemanj.
Sobe para a ponte de comando, o ingls lhe entrega o navio. Os maquinistas pem as mquinas a funcionar, os foguistas avivam o fogo, os marinheiros manobram. Guma 
 quem comanda.  ele quem d ordens. S mesmo assim um homem da beira do cais pode chegar a comandante de um navio. Era por arte de Iemanj. Ser uma nica noite. 
Amanh nem o ingls, nem seu Godofredo, o conhecero mais, quando ele passar com o "Valente". Ningum o chamar de heri. Guma sabe disso. Mas sabe que sempre foi 
assim e que s mesmo um milagre, como quer D. Dulce, pode mudar essa lei.
Duas horas depois - a tempestade ainda dominava a cidade e o mar- o "Canavieiras" ia encostando no cais. As velas do "Valente" estavam rotas, seu casco furado do 
atrito com o navio, o leme despedaado.
Contam no cais que nunca mais Joo Pequeno apareceu porque o navio j tinha encontrado o caminho do porto. E foi desde esse dia que se comeou a falar em Guma na 
beira do cais da Bahia.

Iemanj dos cinco nomes

Ningum no cais tem um nome s. Todos tm tambm um apelido ou abreviam o nome, ou o aumentam, ou lhe acrescentam qualquer coisa que recorde uma histria, uma luta, 
um amor.
lemanj, que  dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos, tem cinco nomes, cinco nomes doces que todo o mundo sabe. Ela se chama Iemanj, sempre foi chamada 
assim e esse  seu verdadeiro nome, de dona das guas, de senhora dos oceanos. No entanto os canoeiros amam cham-Ia de D. Janana, e os pretos, que so seus filhos 
mais diletos, que danam para ela e mais que todos a temem, a chamam de Ina, com devoo, ou fazem suas splicas  Princesa de Aloc, rainha dessas terras misteriosas 
que se escondem na linha azul que as separa das outras terras. Porm, as mulheres do cais, que so simples e valentes, Rosa Palmeiro, as mulheres da vida, as mulheres 
casadas, as moas que esperam noivos, a tratam de D. Maria, que Maria  um nome bonito,  mesmo o mais bonito de todos, o mais venerado, e assim o do a Iemanj 
como um presente, como se lhe levassem uma caixa de sabonetes  sua pedra no Dique. Ela  sereia,  a me-d'gua, a dona do mar, Iemanj, D. Janana, D. Maria, Ina, 
Princesa de Aloc. Ela domina esses mares, ela adora a Lua, que vem ver as noites sem nuvens, ela ama as msicas dos negros. Todo o ano se faz a festa de Iemanj, 
no Dique e em Monte Serrat. Ento a chamam por todos seus cinco nomes, do-lhe todos os seus ttulos, levam-lhe presentes, cantam para ela.
O oceano  muito grande, o mar  uma estrada sem fim, as guas so muito mais que metade do mundo, so trs, quartas partes, e tudo isso  de Iemanj. No entanto, 
ela mora  na pedra do Dique do cais da Bahia ou na sua loca em Monte Serrat, Podia morar nas cidades do Mediterrneo, nos mares da China, na Califrnia, no mar 
Egeu, no golfo do Mxico. Antigamente ela morava nas costas da frica, que dizem que  perto das terras de Aioc. Mas veio para a Bahia ver as guas do rio Paraguau. 
E ficou morando no cais, perto do Dique, numa pedra que  sagrada. L ela penteia os cabelos (vm mucamas lindas com pentes de prata e marfim), ela ouve as preces 
das mulheres martimas, desencadeia as tempestades, escolhe os homens que h de levar para o passeio infindvel do fundo do mar. E  ali que se realiza a sua festa, 
mais bonita que todas as procisses da Bahia, mais bonita que todas as macumbas, que ela  dos orixs mais poderosos, ela  dos primeiros, daqueles de onde os outros 
vieram. Se no fosse perigoso de mais, poder-se-ia mesmo dizer que a sua festa  mais bela que a de Oxoluf. Oxal velho, o maior e mais poderoso dos orixs. Porque 
 uma beleza na noite da festa de Iemanj. Nessas noites o mar fica de uma cor entre azul e verde, a Lua est sempre no cu, as estrelas acompanham as lanternas 
dos saveiros, Iemanj estira preguiosamente os cabelos pelo mar e no h no mundo nada mais bonito (os marinheiros dos grandes navios que viajam todas as terras 
sempre dizem) que a cor que sai da mistura dos cabelos de Iemanj com o mar.
O pai-de-santo Anselmo era o porta-voz dos martimos perante Iemanj. Macumbeiro da beira do cais, antes fora marinheiro, andara pelas terras da frica aprendendo 
a lngua verdadeira deles, o significado daquelas festas e daqueles santos. Quando voltara, deixara o navio de uma vez , e se detivera no cais em substituio a 
Agostinho, que morrera. Era agora ele quem fazia as festas de Iemanj, quem presidia as macumbas do Monte Serrat, quem com ordem de D. Janana curava doenas, dava 
bons ventos aos saveiros, mandava para longe as tempestades freqentes. No havia naquela beira de cais e naquele mundo de gua quem no respeitasse o Anselmo, 
que j andara na frica e rezava em nag. Sua carapinha branca fazia com que se descobrissem as cabeas dos homens do cais e das canoas.
No era to fcil assim ser da macumba de pai Anselmo e era preciso ser bom martimo para um negro se sentar entre os ogs de Iemanj cercado pelas feitas que danavam. 
Guma, mulato claro, de cabelos longos e morenos, se sentaria em breve numa das cadeiras que ficavam em volta do pai santo, na sala do candombl. Desde que trouxera 
o "Canavieiras" na noite do temporal sua fama corria de boca em boca, e estava provado que lemanj o favorecia. No demoraria assim a se sentar entre os ogs das 
feitas. Na prxima festa de lemanj ele j usaria sua pedra (que  verde e se vai buscar no fundo do mar) e assistiria entre os ogs  iniciao das feitas, das 
is, que so as sacerdotisas negras.
E, como ele, o negro Rufino tambm usaria a pedra de lemanj. Se consagrariam de uma vez  dona do mar,  mulher de cinco nomes, me deles todos, que um dia, somente 
um dia em toda a vida,  tambm esposa. O negro Rufino contava mesmo, quando com os braos fortes levava a canoa abarrotada de carga pelo rio acima:
"Eu me chamo Ogum de l
No nego meu natur
Sou filho das guas claras
Sou neto de lemani..."
Era preto retinto, mas sara das guas claras, Iemanj era sua av, me de seu pai que fora martimo como seu av e os mais velhos cuja memria j se perdera. A 
festa de Iemanj se aproxima. Guma ir nesse dia pedir a sua mulher, aquela que se parea com ela e seja virgem e linda, de deslumbrar esse cais da baa de Todos-os-Santos. 
Porque Rosa Palmeiro j fala em ir embora, em levantar ferros para outras terras. Esperava ter um filho daquele jovem valente, um filho que ela embalaria nos seus 
braos acostumados a brigas, para quem cantaria cantigas de ninar com seus lbios treinados em palavres. Mas Rosa Palmeiro esquecera que j era tarde para isso, 
que ela gastara em barulhos sua mocidade e que s restava nela a ternura que nunca fora gasta, aquela vontade de acarinhar. E como o filho no vinha, ela iria procurar 
barulho em outras terras, beber cachaa em outros botequins, viajar nas guas de outros mares. Nunca, porm, antes da festa de Iemanj, seno no teria bons ventos, 
encontraria tempestade no seu caminho.
Por isso, porque Rosa Palmeiro vai embora, Guma lembrar a Iemanj que a hora de lhe dar o prometido chegara. Levar para lhe presentear, alm de um pente para 
seus cabelos, um pedao da vela do "Valente", daquela vela que se despedaou no salvamento do "Canavieiras".
Est prximo o dia da festa de Iemanj. Nesse dia o cais estar vazio, no haver uma canoa no mar, um s saveiro transportando carga, um marinheiro que no arranje 
meios de deixar o navio por um momento. Iro todos para onde mora D. Janana, a de cinco nomes.
"Iemanj vem...
Vem do mar..."
Cantam assim nessa noite de lemanj. Aquele terreno ali  onde se realiza a feira de gua dos Meninos, a maior da Bahia. Adiante, em Itapagipe, fica o porto da Lenha, 
porto dos canoeiros. E entre os dois a morada de Iemanj, numa pedra do mar. A areia guarda restos de cascos de saveiros. Conchas de vrias cores brilham  luz da 
Lua. Ao fundo, a rua fracamente iluminada. As vozes que chegam de longe cantam:
"Eh, a Sereia
A sereia vem brincar na areia..."
 a noite de festa de Iemanj. Por Isso, o povo a chama, para ela vir brincar na areia. Se v a sua loca, bem por baixo da Lua, toda contornada pelos cabelos de 
Iemanj, que se espalharam no mar. Se ela no vier, ento eles iro at l, busc-la. Hoje  noite da sua festa,  noite de Janana brincar:
"Sereia do mar levantou...
Sereia do mar quer brincar."
lemanj brinca no mar. Houve tempo, os mais velhos ainda se recordam, que as frias de Iemanj eram tremendas. Nesse tempo ela no brincava, As canoas e os saveiros 
no tinham descanso, viviam vida de penar. Os temporais enchiam a barra, levantavam o rio acima das suas margens. Nesse tempo at crianas, at moas, foram levadas 
de presente a Iemanj. Ela as conduzia para o fundo das guas e nunca os corpos apareciam. Iemanj estava nos seus anos terrveis, no queria cnticos, toadas, msica, 
sabonetes e pentes. Queria gente, corpo vivo. Era temida a clera de lemanj. Levaram-lhe crianas, levaram moas, uma que era cega at se ofereceu, e foi sorrindo 
(Iria, sem dvida, ver coisas belas!), uma criana chorava na noite em que a levaram e gritava para a me, para o pai, que no queria morrer. Fora tambm numa noite 
da festa de Iemanj. Muitos anos j tinham passado. Era um ano terrvel aquele, o inverno destroara metade dos saveiros, raras canoas haviam resistido ao vento 
sul e a clera de Iemanj no passava. Agostinho, o macumbeiro que fazia sua festa naquela poca, disse que Iemanj queria era carne humana. Levaram, aquela criana 
porque era a mais bela do cais, parecia at com Janana, pois tinha os olhos azuis. A tempestade corria sobre o cais e as ondas lavavam a pedra de Iemanj. Os saveiros 
corriam de lado e todos ouviam os gritos da criana, que ia de olhos vendados. Era uma noite de crime e o velho Francisco quando conta essa histria ainda treme. 
A polcia soube de tudo, alguns caram na cadeia. Agostinho fugiu. A me da criana enlouqueceu. S ento cessou a clera de Iemanj. Sua festa foi proibida e durante 
algum tempo a substituram pela procisso de Bom Jesus dos Navegantes. Mas aquelas guas eram de Iemanj, aos poucos a sua festa voltou, tambm a sua clera havia 
passado, ela no quis mais crianas e virgens. S por acaso, uma ia ser sua mucama, como a mulher daquele cego cuja histria o velho Francisco sabe.
Iemanj  assim terrvel porque ela  me e esposa. Aquelas guas nasceram-lhe no dia em que seu filho a possuiu. No so muitos no cais que sabem a histria de 
Iemanj e de Orung, seu filho. Mas Anselmo sabe e tambm o velho Francisco. No entanto, eles no vivem contando essa histria, que ela faz desencadear a clera 
de Janana. Foi o caso que Iemanj teve de Aganju, deus da terra firme, um filho, Orung, que foi feito deus dos ares, de tudo que fica entre a terra e o cu. Orung 
rodou por estas terras, viveu por esses ares, mas o seu pensamento no saa da imagem da me, aquela bela rainha das guas. Ela era mais bonita que todas e os desejos 
dele eram todos para ela. E um dia no resistiu e a violentou. Iemanj fugiu e na fuga seus seios romperam, e, assim, surgiram as guas, e tambm essa baa de Todos-os-Santos. 
E do seu ventre fecundado pelo filho, nasceram os orixs mais temidos, aqueles que mandam nos raios, nas tempestades e troves.
Assim, Iemanj  me e esposa. Ela ama os homens do mar como me enquanto eles vivem e sofrem. Mas no dia em que morrem  como se eles fossem seu filho Orung, cheio 
de desejos, querendo seu corpo.
Um dia Guma ouviu essa histria da boca do velho Francisco. E se recordou que sua me viera tambm uma noite e ele a desejara. Era como Orung, era um sofrimento 
que se repetia. Por isso, talvez Iemanj o amasse, protegesse as suas viagens no saveiro, Por Isso, para que ele no ficasse igual a Orung, ela devia dar-lhe uma 
mulher bonita, quase to bonita como D. Janana mesma.
Hoje  dia de festa de Iemanj. No Dique, onde ela passa uns tempos durante o ano, sua festa  a 2 de Fevereiro. Tambm nas Cabeceiras da Ponte, em Mar Grande, em 
Gameleira, em Bom Despacho, na Amoreira, seu dia  a 2 de Fevereiro, e nessa data a festejam. Porm, em Monte Serrat,  onde a sua festa  ainda maior, pois;  feita 
na sua prpria morada na loca da me-d'gua, ela  festejada a 20 de Outubro. E vm os pais-de-santo, do Dique, de Amoreira, de Bom Despacho, de Gameleira, de toda 
a ilha de Itaparica. E nesse ano at o pai Deusdedith veio da Cabeceira da Ponte assistir  iniciao, das feitas de Iemanj.
A areia, alva, est agora preta, de ps que a pisam.  o povo do mar que chega, chamando pela sua rainha. Todos eles so sditos da Princesa de Aloc, esto todos 
desterrados em outras terras, e por isso vivem no mar procurando alcanar as terras da sua rainha. O cntico atravessa as areias, atravessa o mar, as canoas e saveiros, 
a cidade que se movimenta ao longe, e com certeza ele chega a estas terras desconhecidas, onde ela se esconde:
"Iemanj vem...
Vem do mar..."
 uma imensa massa humana que se movimenta na areia. A igreja de Monte Serrat aparece no alto, mas no  para ela que se dirigem esses braos cheios de tatuagens. 
 para o mar, esse mar de onde vir Iemanj, a dona daquelas vidas. Hoje  dia de ela brincar na areia, de ela festejar as suas bodas com os martimos, de ela receber 
os presentes que os noivos rudes lhe trazem, de receber as saudaes daquelas que em breve sero suas sacerdotisas. Hoje  dia de eIa se levantar, de espalhar seus 
cabelos na areia, de brincar com eles, de lhes prometer bons ventos, cargas felizes, mulheres, belas. Eles a chamam:
"Iemanj, vem...
Vem do mar..."
Vir do mar com seus longos cabelos de misteriosa cor. Vir com as mos cheias de conchas e o rosto sorridente. E ento brincar com eles, entrar no corpo de uma 
negra e ser igual aos negros, aos canoeiros, aos mestres de saveiro, uma mulher como as outras do cais, possuda por eles, esposa daqueles homens. Desaparecer 
ento o cais negro da Bahia, francamente iluminado de lmpadas eltricas, cheio de msicas saudosas, e estaro nas terras de Aioc, onde se, fala nag e onde esto 
todos os que morreram no mar.
Mas Iemanj no vem assim, com simples cnticos.  preciso que a vo buscar, que lhe levem os presentes. E toda aquela gente entra nos saveiros. As canoas vo abarrotadas, 
o saveiro de Guma est que no pode, mestre Manuel vai abraado com Maria Clara, com quem se amigou h poucos dias, mulheres cantam alto, a Lua clareia tudo,
Mil lanternas enchem o mar de estrelas. Guma vai com o negro Rufino no "Valente". O velho Francisco canta tambm, e Rosa Palmeiro leva uma almofada cara, para nela 
Iemanj deitar a sua cabea,
A procisso corta o mar. As vozes se elevam e adquirem um som misterioso, porque vm dos botes e das canoas e se perdem no mar imenso onde Iemanj, descansa. Mulheres 
soluam, mulheres levam cartas e presentes, todos tm um pedido a fazer me-d'gua. Danam dentro dos saveiros e parecem fantasmas aqueles corpos de mulheres se 
rebolando, aqueles homens remando ritmadamente, aquela msica brbara que atravessa o mar.
Rodeiam a loca da Me-d'gua. Os cabelos de Iemanj se estendem no azul do mar bem por baixo da Lua. As mulheres sacodem os presentes, recitam os pedidos (... que 
meu homem no fique nas tempestades... ns tem dois filhos pra criar, minha santa Janana... ) e ficam com os olhos longos vendo se eles afundam. Porque se eles 
bolarem  que Iemanj no aceitou o presente e ento a desgraa pesar sobre aquela casa.
Agora a me-d'gua vir com eles. Ela ganhou presentes, ela ouviu pedidos, ouviu cnticos de negros. E os saveiros se preparam para voltar.  quando do escuro da 
praia vm relinchos, gritos de um animal. E  luz da Lua eles, dos saveiros e das canoas, enxergam o vulto do cavalo negro na areia. Aquilo foi promessa, foi promessa 
grande para Iemanj. O cavalo est, com os olhos vazados, no enxerga o mar na sua frente. E os homens o empurram. Ele  preto, retinto, o rabo lustroso, a crina 
alta. Entra pelo mar,  um presente para Iemanj. Montada nele ela andar pelas suas terras dentro das guas. Montada no cavalo preto correr os seus mares, vir 
espiar a Lua. O animal  atirado na gua. Os homens vm em duas canoas, e o guiam, que ele  cego. Vazaram-lhe os olhos com ferro em brasa, marcaram-no para Janana. 
E o soltam bem perto da loca e as mulheres ento repetem seus pedidos (... que meu homem deixe aquela peste da Ricardina, e volte para mim... ) e a procisso retorna. 
O cavalo se debateu, nadou ao acaso com seus olhos sem luz, e afinal foi para Iemanj. Agora ela cavalga nele pelas noites de tempestade, atravessa no seu cavalo 
preto os pequenos portos do Recncavo comandando os ventos, os raios e os troves.
Desembarcam dos saveiros. Iemanj vem com eles.  noite da sua festa, ela vem danar nos candombls de Itapagipre. At Deusdedith, pai-de-santo das Cabeceiras da 
Ponte, velo para a festa de Ina. Ela vem com eles, vem galopando no cavalo que lhe deram hoje. Vem pelos ares, perto da Lua, e montada no seu cavalo preto no teme 
sequer encontrar seu filho Orung, que a violentou.
E a procisso lenta e ritmada se balanando como um saveiro sobre as ondas. O vento que passa leva para a cidade adormecida um cheiro de maresia e um rudo de cnticos 
selvagens.
O som dos instrumentos ressoa por toda a pennsula de Itapagipe. Os msicos esto excitados tambm como todos os que assistem a esta macumba do pai Anselmo, em honra 
de Iemanj. Faz meses que estas negras, que hoje so feitas, foram iniciadas. Primeiro deram a todas elas um banho com as folhas sagradas, rasparam-lhes os cabelos 
da cabea, das axilas, do pbis, para que o santo mais livremente possa penetrar, e ento veio o efun. Tiveram as cabeas pintadas e tambm as faces com cores berrantes. 
Receberam ento Iemanj, que penetrou nelas ou pela cabea ou pelas axilas ou pelo pbis.
Mas s penetra pelo pbis quando a negra  virgem e nova, e  como se a escolhesse para sua mucama, para pentear seus cabelos, fazer ccegas no seu corpo.
Depois elas ficaram todos esses meses recolhidas. No conheceram homem, no viram movimentos da rua e do mar. Viveram s para Iemanj. Hoje  o dia da grande festa 
quando elas ficaro mesmo feitas, mesmo sacerdotisas de Iemanj. Elas danam loucamente, e rebolam, se destroncam inteiramente, danam at melhor que Rosa Palmeiro, 
que  feita h vinte anos.
A me do terreiro canta os cnticos de Iemanj:
"A d rss  ki  lemanj
Akta gu lgu a i,
E'r fi ril"
As, feitas danam como se houvessem endoidecido de repente. Os ogs, e agora Guma e Rufino, esto entre elas. Movem os ombros como se remassem em canoas. No meio 
da festa que j possui a todos (Iemanj h muito que est entre eles, metida no corpo de Ricardina), Rufino cutucou Guma:
- Olha quem est espiando para voc. Guma olha, mas no distingue aquela de quem Rufino fala:
- Aquela morena... Aquela bonitona? -No tira os olhos de voc...
- Nem t olhando...
Os ombros se movem em cadncia sempre igual. Iemanj sada Guma, que  seu protegido. A me-do-terreiro canta:
" yin ard w  yin marab
Mab x r nun
Mab x r w".
Danam todos enlouquecidos. Mas Guma no tira os olhos da assistncia. Sem dvida que aquela  a mulher que Iemanj lhe mandou. Tem os cabelos escorridos, parecendo 
molhados, os olhos claros de gua, os lbios vermelhos. Ela  quase to bela como a prpria Janana e  moa, muito moa, pois os seios mal surgem no vestido de 
chita encarnada. A dana domina a sala, lemanj dana mais que todos, s ela no dana, apenas olha Guma de quando em vez, com aqueles olhos feitos de gua, com 
seu cabelo escorrido, seus seios ainda nascendo. Iemanj mandou a sua mulher, aquela que ele lhe pediu ainda menino, no dia que sua me apareceu. E ele no duvida 
um instante que a possuir, que ela dormir em seu saveiro, ser sua companheira nas viagens. E canta para Iemanj dos cinco nomes, me dos homens do cais, sua esposa 
tambm, que vem para eles nos corpos de outras mulheres que aparecem assim de repente nas suas macumbas.
Donde viria ela? Ele a procurou quando a festa terminou, mas ela no se encontrava mais. Foi atrs de Rufino, que j descia para o "Farol das Estrelas" com seu violo:
- Quem  aquela moa?
- Que moa?
- A fulana que tu disse que 'tava me olhando?
- E no tava mesmo? Cada olho que nem holofote...
- Donde tu conhece?...
- Posei os olho em riba dela hoje pela primeira vez. Mas aquilo  troo de respeito. Tu no viu as quilhas?
Guma se sentiu enraivecido:
- No fale desse modO na moa que voc nem conhece.
Rufino riu:
- Tou  dizendo bem... Tem um bundo...
- Vai saber quem ela  e me conta.
- Voc t querendo, no ?
- No posso gostar?
- Se Palmeiro souber, tu t naufragado...
Guma riu. Entraram no "Farol das Estrelas". Rosa Palmeiro bebia copo sobre copo:
- Agora vou embora, minha gente, que esse mundo no tem portera...
Mestre Manuel, que bebia com Maria Clara, muito orgulhoso da amante, vendo Guma entrar, gritou para Rosa:
- Tu vai deixar saudade, negra...
- Quem gosta de mim vai comigo... -E sorria para Guma.
Mas Guma foi se sentar distante dela. J se sentia da outra, era como se Rosa Palmeiro h muito houvesse viajado. Ela veio para junto dele:
- T triste hoje?
- Voc no vai embora?
- Tu quer, eu fico...
No veio nenhuma resposta. Ele fitava a noite que cobria o cais. Rosa Palmeiro sabia o que aquilo queria dizer. Ela fizera o mesmo com muito homem, em alguns at 
dera pancada. Ela estava velha, no era mais mulher para um jovem daquele. Seu corpo ainda era bem feito, mas no era mais corpo de jovem, era um corpo de me fracassada. 
Eles agora se recordavam.
Pela ltima vez a imagem da me prostituda perturbou Guma. Os seios de Rosa Palmeiro grandes, o punhal entre eles, lhe lembravam os seios da sua me, tambm j 
gastos pelos carinhos. Mas de agora em diante uma outra imagem se apresentava aos seus olhos. Eram os seios mal nascidos da moa que assistia ao candombl, daqueles 
olhos de gua, lmpidos, claros, to diversos dos de Rosa Palmeiro. Aquela menina sem ABC, sem histria, que olhara para ele sem esconder nada do que sentia...
- Tu t importante no cais... -disse Rosa Palmeiro. -Desde o servio do "Canavieiras"...
A menina devia saber que ele era Guma, o que na noite do temporal salvara sozinho, com seu saveiro, um navio cheio de gente. E sorriu...
Rosa Palmeiro sorriu tambm. Ela iria embora e no amaria mais. Agora s queria barulho nesse resto de vida. Brilhariam o punhal do peito, a navalha da saia, desapareceria 
seu corpo bem feito. E se voltasse ao seu porto, cansada de barulhos e brigas, talvez arranjasse uma criana, filho perdido de uma mulher qualquer, e lhe contaria 
as histrias da vida daqueles homens e lhe ensinaria a ser valente como um marinheiro deve ser. Havia de cri-lo como a um filho, como teria criado aquele seu filho 
que nasceu morto, filho do seu primeiro homem, o mulato Rosalvo. Fora com ele, bem cedo, que amor no conhece idade. Fora cem a maldio da me velha para o mundo. 
Ele era malandro, tocador de violo, viajando de graa nos saveiros, tocando nas festas de todas as cidades do Recncavo. Rosa Palmeiro muito o amara e tinha somente 
15 anos quando o conheceu. Sofreu fome, que dinheiro ele no tinha, sofreu pancada nos dias de cachaa de Rosalvo, sofreu mesmo que ele andasse com outras mulheres. 
Mas quando ela soube que a criana nascera morta porque ele lhe dera aquela beberagem amarga, que fora ele quem a no quisera viva, ento ela virou outra, virou 
a Rosa Palmeiro da navalha e punhal e o deixou morto junto ao violo. Tudo em falso nele, as suas cantigas, os seus olhares, seu modo suave de falar. Ele apenas 
ficara espantado, quando ela o apunhalou na cama. Era para pagar a criana que ele matara. Depois os meses de cadeia, o jri, o homem que dizia que ela estava bbada. 
Foi solta e virou valente, que outro jeito ela no tinha, aquela fama tinha se agarrado nela. Muitos anos tinham passado, muitos homens tambm. E s com Guma voltara 
a vontade de outro filho, de uma criana que bulisse os bracinhos, que a chamasse de mame. Por isso ela amou tanto a Guma, a esse que j no a quer porque ela envelheceu. 
Tambm ele no lhe deu um filho, mas a culpa era dela, que estava velha e intil. Ela iria embora, que ele no a queria mais.
Saram do Farol das Estrelas. Caia uma chuva miudinha. Ele a abraou pela cintura e pensava que ela merecia uma noite de amor pelo muito bem que lhe devotara. Uma 
noite de despedida, uma ltima noite, sob o cu nublado, sobre o mar encrespado com a chuva. Andaram para o "Valente". Ele a ajudou a subir, se estendeu ao lado 
dela. E se chegou para a amar. Mas Rosa Palmeiro o deteve (ela iria puxar a navalha da saia? Ou o punhal do peito?) e falou:
- Eu vou embora, Guma...
A chuva molhava devagarinho e no vinha nenhuma msica do mar.
- Tu casa um dia deste, vem uma noiva pra voc... Bonita, como voc  merecedor... Mas eu quero que tu me d uma coisa...
- Que ?
- Eu queria um filho, mas j tou velha.
- Que nada...
A chuva caa mais grossa, agora.
- Tou velha, teu filho no pegou mais em mim... Mas voc vai casar e quando tu tiver casado e com um filho eu volto praqui. Tou velha de cabelo branco, j sou muito 
velha, Guma, te juro que no brigo mais com ningum, no uso mais arma, no arranjo barulho.
Guma olha para ela, que parece outra, suplicando, os olhos fundos de mar postos nele, olhos carinhosos de me.
- No brigo mais... Eu quero que voc arranje um lugar para essa mulher velha na casa de tua mulher... Ma no vai saber de nada de ns dois. Nem eu quero mais nada, 
no vou brigar com ela. Quero  ajudar a criar teu filho, como se eu tivesse tido voc... Eu tenho idade de ser sua me... Tu deixa?
Agora as estrelas esto brilhando no cu, a lua apareceu tambm e uma msica suave vem do mar. Rosa Palmeiro acaricia a face de seu filho. Isso foi na noite da 
festa de lemanj, a dos cinco nomes.

Um navio ancorou no cais

Um navio ancorou no cais e nele Rosa Palmeiro foi embora. Guma olhava a mulher que da terceira classe sacudia um leno. Ela ia para as aventuras que seriam as ltimas. 
Quando voltasse, encontraria uma criana para cuidar, algum de quem ela seria av. Ainda de muito longe ela sacudia o leno e os homens do cais respondiam aos seus 
adeuses. Algum falou atrs de Guma:
- Eta bicha doida... S vive correndo mundo...
Guma veio andando pela beira do cais. A tarde caa aos poucos, e uma carga de fazendas o esperava para que ele a levasse para Cachoeira. Mas ele no tinha vontade 
de sair do cais, atravessar a baa. H vrios dias, desde a festa de Iemanj, que s pensava em encontrar a moa que o olhara. Nada conseguira, saber sobre ela, 
porque naquela noite havia multa gente na festa de pai Anselmo, gente que tinha vindo de muito longe, at das plantaes de Conceio da Feira. Andou por estas ruas 
de perto do cais, examinando casa por casa, e no a encontrou. Ningum sabia donde ela viera, quem era, qual sua vida. No morava com certeza no cais porque a todos 
se conhecem. O negro Rufino tambm nada conseguira saber sobre ela. Mas Guma no desanima. Ele sabe que a encontrar.
Unia carga de fazendas o espera. Depois que ela estiver arrumada no saveiro ele sair para Cachoeira. Mais uma vez subir o rio. De to aventurosa que  a vida dos 
mestres de saveiro, j nem parece aventura subir e descer o rio, atravessar a baa.  coisa de todos os dias, coisa que no mete medo a ningum. Assim Guma nem pensa 
na viagem. Pensa em que daria alguma coisa para novamente encontrar a mulher da festa de Iemanj. Agora, ento, que Rosa fora embora, ele ficara livre para amar. 
Vai pela beira do cais assoviando, baixinho. No mercado cantam.  um grupo de marinheiros e carregadores. No meio um mulato dana e canta:
"Sou mulato e no nego
Ai, meu Deus, de mim tem pena!
Embora eu queira neg
Meu cabelo me condena"
Os outros batem com as mos. Os lbios esto abertos em sorrisos, os corpos se movimentam no, ritmo da embolada. O mulato canta:
"Inda querendo s branco
O cabelo me crimina..."
Guma vai chegando para o grupo. A primeira pessoa que viu, multo elegante com uma roupa azul-marinho, de casimira, foi Rodolfo, que fazia meses no aparecia. Rodolfo 
tava sentado num caixo e ria para o mulato que cantava. No grupo estavam Xavier, Maneca Mozinha, Jacques, Severiano. O velho Francisco, sentado ao fundo, pitava 
no cachimbo.
Rodolfo, mal viu Guma, abanou a mo:
- Tou precisando de dizer duas palavras a voc...
- T bem...
Agora o mulato acabava de cantar e sorria para o grupo. Arfava da dana, mas estava com um ar de vitria. Era Jesuno, canoeiro do Serena do Mar, um batelo que 
viajava entre a Bahia e Santo Amaro. Riu para Guma:
- Al, mano velho...
Maneca Mozinha viu o cumprimento, gozou:
- Nem fala com Guma, Jesu... O menino t de leme virado...
- T o qu?
- T sem rumo. Viu assombrao...
Os outros riram. Maneca continuou:
- Diz que homem quando t bestando por mulher t naufragado. Vocs sabem que ele ia virando o "Valente" por cima da coroa grande?
Guma estava era com raiva. Ele nunca se importava com brincadeiras, mas desta vez, nem sabia mesmo porqu, estava cheio de raiva. Se Maneca Mozinha no fosse aleijado... 
Mas Severiano e Jacques se meteram na brincadeira:
- Que couro foi que voc arranjou ? -indagou Jacques.
- Alguma bruaca sem futuro, j largando a casca... -respondeu Severiano rindo com aquela sua gargalhada escandalosa.
Rufino viu que Guma ia brigar e falou:
- Vamos acabar com isso, minha gente. Cada qual sabe de sua vida.
- Tu  scio da mulher, negro - Severiano riu ainda mais. Todos riram em redor. Mas riram pouco, porque Guma j estava em cima de Severiano. Jacques foi desapartar. 
Mas Rufino o pegou:
- Um homem  para homem...
- Deixa de ser besta, negro, que voc nem  homem... Fmea de canoeiro...
E arremeteu para o negro. Rufino pulou para trs e cantou:
"Froxa, se tem coragem
Deixa de galinhagem..."
Desviou-se do golpe de Jacques, virou as pernas, o rapaz se estendeu no cho. Guma socava Severiano. Os outros espiavam sem compreender perfeitamente. Severiano 
livrou-se e puxou da faca. O velho Francisco gritou:
- Ele vai matar Guma...
Severiano encostou-se na parede do mercado, faca na mo, e gritou para Guma:
- Manda Rosa brigar comigo, que tu no  homem.
Guma pulou, mas o p de Severiano o alcanou na boca do estmago. Ele caiu embolado. E o outro foi em cima com a faca. Foi quando Rodolfo, que agora assoviava a 
embolada que o negro cantava h pouco, se meteu, apertou o pulso do canoeiro at a faca cair. Guma j tinha se levantado. E socou Severiano at que o deixou estirado:
- S  homem com ao na mo...
Agora Rufino cantava vitorioso:
"Amarelo empapuado
Cara de papa-piro
Toma vergonha na cara
Larga meu nome no cho."
O grupo se dissolveu lentamente. Uns homens levaram Severiano para a sua canoa, Jacques andou para a casa jurando vingana. Guma e Rufino foram para o saveiro, Guma 
j havia pulado para dentro do barco quando ouviu o grito de Rodolfo:
- Pra onde vai?
Voltou:
- Se no fosse voc, eu era homem morto...
- Deixe disso...
Rodolfo se lembrou...
- At parece aquela vez que a gente embolou quando era menino. S que agora eu tava era com vocs...
Tirou os sapatos bem lustrados, entrou na lama do cais dos saveiros: - Quero dar duas palavras a voc...
- Que ?
- Voc no t ocupado agora?
- No... - Guma estava certo que ele queria dinheiro.
- Pois te senta, que eu vou falar.
- Ento at logo. - E Rufino foi embora. Rodolfo passou a mo no cabelo bem alisado. Cheirava a brilhantina barata. Guma pensava onde ele teria passado estes ltimos 
meses. Em alguma outra cidade? Na cadeia por algum furto? Ele no era boa bisca, todos diziam. Batia carteiras, passava contos do vigrio, uma vez botou o punhal 
nos peitos de um homem na Pitangueiras pedindo dinheiro. Fora a sua primeira priso. Mas desta vez Rodolfo no estava miqueado, no vinha pedir dinheiro emprestado.
- Tu vai sair hoje?
- Me boto pra Cachoeira...
- Coisa de pressa?
-  sim. Umas fazendas de seu Rangel que tava no armazm. Ele quer logo que  pra pegar o Carnaval...
Guma arrumava os fardos no poro.
- Vai ser batuta o Carnaval...
- Vai falando, que eu tou ouvindo.
Rodolfo achava que assim era melhor, era mais fcil. Assim ele no via Guma e podia falar direito.
-  uma histria comprida.  melhor eu comear do princpio...
- Pois vai falando...
- Voc se lembra de meu pai?
- O velho Concrdia? Me alembro, sim... Tinha uma bodega no mercado.
- Direitinho. Mas tu no se lembra de minha me. Morreu quando eu nasci.
Ficou olhando as guas. Via o vulto de Guma se movendo no poro.
- Tou ouvindo.
- Pois eu lhe digo: o velho Concrdia nunca foi casado com ela...
Guma olhou para cima surpreso. Via Rodolfo espiando para as guas com os olhos pensativos. Porque vinha lhe contar aquilo ?
- A mulher verdadeira dele morava na cidade alta, numa rua l por cima. Quando ele tava pra morrer, me contou... u t vendo que eu no fiz nada, no fui ver a mulher 
dele, que eu no tinha nada que ver l. Fiquei aqui com aquele casco de saveiro que o velho me deixou, depois fui pra outra vida. No me agrada essa de cais.
Guma subiu, depois de ter arrumado os fardos de fazenda. Sentou-se em frente de Rodolfo:
-  mesmo uma vida ruim... Mas que  que a gente vai fazer?
- Pois ... Eu deixei e ca a, rolando de um lado pra outro.
Baixou a cabea:
- Voc bem sabe que eu j comi cadeia... Pois outro dia eu ia bem calmo da vida, tinha arranjado uns cobres, um negcio gozado de um coronel de Bonfim... Foi quando 
esbarrei com minha irm...
- Voc tinha Irm?
- Eu tambm tava inocente disso. O velho no se lembrou de falar na filha. S me disse que procurasse a mulher dele, que ela j sabia e que me criava como se tivesse 
me parido.
- E ela tinha uma filha...
- Se cruzou comigo naquele dia. J vivia me procurando, que ela sabia que eu era vivente. Tava me procurando desde a morte da me, h coisa de um ano.
- E onde ficou este tempo ?
- Tava com uns tios, uns parentes dela.
- Parentes do velho Concrdia?
- No. Da me dela. Uma trapalhada, sei l.
Guma s no entendia o que ele tinha que ver com aquilo, o motivo por que Rodolfo lhe contava toda aquela histria.
- Pois nem te conto, seu mano. A menina tomou conta de mim. Disse que vai me botar na linha, um bocado de conversa. Mas eu digo uma coisa: por Deus que ela  uma 
menina, boa como eu nunca vi...  mais nova do que eu, t com dezoito anos. Me consertar ela no me conserta, eu j perdi mesmo a vergonha. Quando a gente se enterra 
nesta vida, no sai mais...
Fez uma pausa, acendeu um cigarro:
- No acostuma mais com trabalho...
Guma comeou a assoviar baixinho. Agora estava com pena de Rodolfo. Falavam mal dele no cais. Diziam que ele no era boa bisca, que no prestava, que era um ladro. 
Ele tinha entrado, agora no podia sair nem mesmo com uma irm boa ajudando.
- Ela d em cima de mim, eu prometo, tenho pena dela. Ela diz que eu vou terminar mal, e  verdade.
Fez um gesto largo com as mos, como que desviando aquela conversa toda, e explicou:
- Pois minha irm quer que eu lhe leve l...
- Que eu v l?! -Guma estava espantado..
-  isso mesmo... os fulanos parentes dela vinham no Canavieiras no dia que voc foi buscar o bicho. Coisa de homem voc fez. E os tais vinham, que foram ver se 
arranjavam alguma coisa em Ilhus. No arranjaram nada, voltaram para aqui. Eles tm uma quitanda na Rua Rui Barbosa. Vinha tudo na terceira classe, J pensava que 
tava tudo morto. Ela quer lhe agradecer...
- Uma besteira. Todo o mundo fazia. Tive foi sorte do mar no estar mais brabo...
- Ela j te viu outro dia, veio s pra ver voc. No dia da festa de Janana. Ela tava no candombl do velho Anselmo.
- Uma morena, de cabelo liso?
- Isso mesmo...
Guma ficou sem saber o que dizer. Olhava muito espantado para Rodolfo, para o saveiro, para o mar. Sua vontade era cantar, gritar, pular de alegria. Rodolfo perguntou:
- O que foi que deu em voc?
- Nada. Eu j sei quem ...
- Pois . Voc se prepare para ir l quando voltar. Eu digo a ela que voc prometeu ir.
Guma olhava com raiva o saveiro, o carregamento de fazendas. Gostaria de ir nessa mesma noite:
- T bem, eu vou.
- Ento, adeus. Mande c no degas...
Rodolfo saltou levando os sapatos na mo. Guma ainda gritou:
- Como  o nome dela?
- Lvia!
- 

Guma suspendeu as velas do saveiro, puxou a ncora e aproveitou o vento. Mestre Manuel ia no "Viajante sem Porto" atravessando o quebra-mar. Ningum nessa poca 
andava mais ligeiro num saveiro que mestre Manuel. Guma olhou o Viajante sem Porto. Ia rpido, as velas abertas ao vento. A noite descera completamente. Guma acendeu 
o cachimbo, acendeu a lanterna do Valente e o saveiro deslizou na gua.
Perto de Itaparica alcanou o saveiro de mestre Manuel:
- Vamos pegar uma aposta, Manuel?
- At, onde voc vai?
- Maragogipe, primeiro, de l pra Cachoeira.
- Ento a gente aposta at Maragogipe.
- T valendo cinco...
- E mais dez se tu topar - gritou o negro Antnio Balduno, que ia no saveiro de Manuel.
- T valendo.
- E os saveiros saram juntos, cortando guas calmas. Do Viajante sem Porto, Maria Clara cantava. Nesse momento Guma compreendeu que perderia a aposta. No h vento 
que resista a uma cano quando  bela. E essa que Maria Clara canta  das mais belas. O saveiro de mestre Manuel se aproxima. O Valente vai sem vontade, que Guma 
est todo no embalo da cano. As luzes de Maragogipe so visveis  margem do rio. O Viajante sem Porto passa por ele, Guma joga os quinze mil ris, mestre Manuel 
grita:
- Boa viagem.
Ele vai contente porque venceu mais uma carreira e a sua fama se consolidou ainda mais. Guma tambm tem fama no cais. Ele  um bom mestre de saveiro, mo firme no 
leme, e corajoso como no h outro. Na noite do Canaineiras ningum quis sair, s ele teve coragem. Nem mesmo mestre Manuel quis sair. Nem Xavier, que tinha um desgosto 
na vida. S ele foi. Desde ento sua fama corre no cais. Ele  dos que deixam uma histria, coisas sobre as quais os outros refletiro.
O saveiro corre na noite mansa do rio. Entra na grande curva de Maragogipe. Guma est feliz. Ela se chama Lvia. Ele no conheceu mulher nenhuma com esse nome. Quando 
ela estiver com ele, mestre Manuel perder todas as carreiras porque ela cantar como Maria Clara aquelas velhas canes do cais. Iemanj o ouviu, lhe mandou sua 
mulher.
H uma cano do cais que diz que desgraado  o destino das mulheres dos martimos. Dizem tambm que o corao dos martimos  volvel como o vento, como os barcos 
que no se fixam em nenhum porto. Mas todo o barco tem o nome do seu porto na proa. Pode andar por outros, pode viajar muitos anos, mas no esquece o seu porto, 
voltar a ele um dia. Assim o corao dos marinheiros. Nunca eles esquecem aquela mulher, que  a deles s. Xavier, que tem tantas mulheres nas ruas, nunca esqueceu 
aquela que o chamava de Cabor e se foi grvida numa noite. Guma tambm no esquecer Lvia, essa Lvia que ele mal viu. Chega a Maragogipe.
O homem j o espera na ponte. Tratam sobre o carregamento de charutos que o saveiro deve pegar na volta. Guma bebe um trago no botequim prximo e arriba novamente 
com o "Valente".
Aqui  preciso ir depressa.  aqui que aparece o cavalo branco. H tantos anos que todos j perderam a conta, anda sem parar o cavalo branco. Ningum sabe porque 
ele corre assim por essas matas junto ao rio. Runa de velhos castelos feudais, engenhos destrudos, so hoje propriedade do cavalo branco, do cavalo assombrado, 
que corre. Quem o v, no pode sair do lugar.  verdade que ele aparece de preferncia no ms de Maio, que  o ms das suas correrias. Guma avana com o saveiro 
e, mesmo sem querer, espia para aquelas matas onde domina a assombrao.
Dizem que  uma alma penada, um senhor de engenho malvado, matava homens, animal dele trabalhava at cair morto. Agora, virou cavalo branco, e corre, assim pela 
margem do rio, pagando o que fez. Leva um carregamento pesado como levavam os seus cavalos. E vai rangendo os couros do carregamento, cavalgando pela mata. Quando 
ele passa, at o cho treme, que nem carne de tartaruga. Aqueles que o vem no podem sair do lugar. E ele s deixar de correr por aquelas terras, que foram engenho 
seu, quando algum tiver pena dele e tirar das suas costas o carregamento, caus que vo cheios de pedras para a construo do seu castelo. H muitos anos que ele 
corre assim.
Esse barulho que Guma ouve  o barulho do cavalo branco. Hoje Guma gostaria de ir at  mata e libertar aquele senhor da sua escravatura. Guma est feliz. O saveiro 
corre pelo rio. Vai veloz, perseguido pelo rudo que fazem os cascos do cavalo assombrado. Vai veloz tambm porque quer voltar amanh, quer voltar ao seu porto para 
ver Lvia.
Nunca a viagem lhe parecera longa. Muito tem ainda que fazer, no entanto. Deixar a carga em Cachoeira, vir carregar em Maragogipe, descer at  Bahia. Viagem longa 
e para quem anseia voltar. No demorar que ela esteja com ele no saveiro e cante para ele e faa com que o Valente ganhe todas as apostas. Por isso mesmo  preciso 
ir mais depressa, que essa viagem  muito demorada,  longa de dois dias.
- 

Sadam Guma de todos os lados. O botequim ferve de gente. O cais de Cachoeira  sempre concorrido, vm embarcao de todos os lados, hoje tem um baiano atracado 
na ponte. L pelas trs da manh ele sair, e por isso os marinheiros no dormem, esto todos no botequim, bebendo cachaa, beijando mulheres. Guma senta num grupo 
e pede cachaa. Um cego toca violo na porta. As mulheres riem muito, riem mesmo sem ter de qu, s para agradar. Unia no entanto se queixa da vida a umi marinheiro:
- T tudo to ruim... Uma misria. No se faz nada. Nem para comida.
Contam a Guma o barulho que houve na vspera entre uns canoeiros e uns rapazes da cidade. Foi na casa de uma mulher. Os rapazes estavam bbados, um queria entrar 
no quarto de uma mulher que estava com Trara, canoeiro da "Maria da Graa", comeou a meter os ps na porta. Trara se levantou, abriu a porta de repente, o sujeito 
caiu dentro. Levantou logo, comeou a dizer nomes e a gritar que a mulher era dele, que aquele "negro sujo" desse o fora, se no quisesse ter a cara partida. Os 
rapazes eram uns seis, riam e gritavam para Trara, que fosse logo embora, seno, apanhava muito. O sangue foi subindo na cabea de Trara, ele emboIou com o tal:
- Ele era um, contra seis... No podia ganhar, s mesmo milagre do Cu -explica Josu, um negro gordo.-Brigou que era homem, saiu apanhando, mas com honra. A a 
gente se ajuntou, um bocado de homem, foi l, foi mesmo uma desgraceira... Os meninos corria que fazia pena. Um at se meteu debaixo da cama de uma mulher...
Riam alegremente. Guma tambm ria:
- Bem feito... Pra deixar de ser besta.
- Voc no sabe do melhor. EIes so tudo empregado nas casa de comrcio. Hoje foi um zunzunzum danado. Foi um tal de conversar pelos cantos que tu nem sabe. Coisa 
de fmea, um cochichinho danado. To arrevesado, e como so tudo de um tal de tiro-de-guerra que tem por aqui, diz que hoje depois das manobras do tal tiro vo esperar 
a gente na casa da mulher.
- Eles to querendo...
- Pensa que  s vestir farda, vira homem -riu um sarar muito alto.
- Ns daqui a pouco vai pra casa da mulher. Tu vem com a gente.
Guma fez, com a mo, que no. Em qualquer outra ocasio ele iria logo, iria satisfeito porque no se negava a um barulho. Mas agora queria estar no saveiro, ouvindo 
uma cano qualquer que viesse do mar, para pensar em Lvia.
- O qu? Tu no vai? - espantou-se Josu. - Pois eu no esperava isso de voc. Um camarada valente.
- Eu no tenho nada com o peixe - tentou explicar Guma.
- Quem foi que disse? Ento voc no  martimo?
Guma viu que no havia jeito. Se no fosse, ningum mais lhe estenderia a mo na beira do cais:
- J no t aqui quem falou. Eu topo.
- Logo tava vendo.
Dai a pouco chegou Trara, que j vinha um bocado bebido. Foi saudado com gritos:
- Ai, Trara! Macho de verdade! Trara cumprimentou.:
- Boas noites para todos. E viva a marinhagem...
Guma pouco o conhecia. Ele quase no ia  Bahia, andava mais pelos portos do Recncavo, carregando fumo de um para outro lugar. Mulato avermelhado, cor de formiga, 
tinha um bigodinho cuidado e a cabea raspada  escovinha. Josu o apresentou a Guma:
- Esse aqui  Guma, negro valente de verdade.
- Ns j se conhece - disse Trara.
Sorria com a boca aberta, um palito num canto. Estava de camisa listada e curvou-se de um modo cmico:
- J ouvi contar de voc... No foi voc?
- Foi ele, sim. Se meteu num barquinho. Se lascou num temporal de fim de mundo e trouxe o "Canavieiras".
- Pois hoje tem um brinquedinho para homem valente.
- Josu tava me falando...
- Primeiro, era eu s. Me lascaram, quase me deixaram naufragando. Depois foi aquela gua.
- A gente deixou eles daquele jeito...-e Josu fez um gesto misterioso com a mo, fechando e abrindo e depois soltando o punho fechado na mesa. Queria dizer que 
haviam esmagado os rapazes.
- Agora eles anda querendo fazer turumbamba. Diz que vai tudo l...
Da rua vinha um barulho de passos ritmados. Era o tiro que passava. Ouviu-se dizer:
- Meia volta, volver.
E o rudo dos ps arrastando no cho, Josu pediu mais cachaa.
Trara props:
- Vamos chegando, minha gente? Se no fica tarde, eles diz que a gente correu.
Bateram nqueis na mesa e saram. Eram uns doze. Os marinheiros do baiano no vieram porque tinham que estar a bordo, o navio saa de madrugada. Um ficou se lastimando:
- Ora, perder uma Coisinha assim. E eu que me plo por uma lasca...  azar.
Saram conversando para a rua de mulheres. Falavam sobre como diversas, era como se j houvessem esquecido o barulho. Contavam casos de pesca, um magricela narrava 
uma histria interminvel de uma moqueca que comera, na casa de um compadre em So Flix. Trara ouvia tudo curvado, o casco da cabea pelada brilhando quando passavam 
em baixo de um poste. Mas quando entraram na rua das mulheres comearam a gritar:
- Ns t chegando.
As pessoas que passavam olharam espantadas. Era um grupo curioso. De longe, se conhecia que eram homens do mar, pois vinham naquele passo largo e inseguro dos que 
vivem nas embarcaes. Os corpos gingavam como se houvessem apanhado vento forte. Um rapaz ainda novo, talvez 16 anos, disse para o companheiro mais velho:
- L vm marinheiros. Vamos embora.
O outro fez uma pose puxou uma fumaa do cigarro:
- Que  que tem? Marinheiro no  gente? Eu c no tenho medo no.
Ficaram espiando. Um velho passou resmungando:
- No tem polcia... Um bando de malandros. Um homem srio no pode ter segurana.
- E olhava com saudade as mulheres que se reclinavam nas janelas.
O grupo passou junto aos rapazes. O que fazia pose puxava uma fumaa do cigarro, que foi bem direitinho na cara de Josu:
- Isso foi de propsito, espuma de gente?
No tinha sido, O rapaz explicou com a voz tremendo. O companheiro ajudou. Josu olhava de maus modos. O grupo parou mais adiante.
- Tu no  espia dos outros?
- At a gente j ia embora. Ns no temos nada com isso no, chefe.
- No sou chefe de ningum, Isso  dichote.
Trara gritou para Josu:
- Sapeca logo e vem embora, homem de Deus! Olha que a gente chega tarde.
A o rapazinho suplicou:
- No d em mim no, pelo amor de Deus. Eu no fiz nada.
Josu baixou a mo:
- Ento te some da minha frente.
Os rapazes se rasparam. Guma perguntou a Josu:
- Que foi?
- Nada. Os meninos quase morre de medo...
Entraram numa das casas. Veio l de dentro uma mulata gorda, rebolando as cadeiras:
- Que  que vocs quer?
Josu foi logo pegando no queixo:
- Como vai, mezinha?
- Me do Diabo, no tua. Que  que vocs vm fazer aqui? Baguna como ontem? Depois quem se avm com a polcia sou eu. Vo dando seu fora...
- Deixa disso, Tibria. A gente vem s cao um bocado com as meninas. Ento a gente no pode vir em casa de uma mulher?
A cafetina olhava desconfiada:
- Eu sei o que  que vocs quer. Vocs s sabe armar encrenca. Pensa que a vida da gente  boa, ainda arranja sarna pr gente se coar...
- A gente quer  beber umas cervejas, Tibria.
Foram entrando. Na sala, as mulheres, em torno da mesa, olhavam amedrontadas. Um do grupo disse virando pra Guma:
- Elas to pensando que a gente  bicho ? Ou alma do outro mundo?
Uma mulher loira, avelhantada, falou para Trara:
- Tu vem armar barulho de novo, coisa-ruim?
- S vim acabar o amorzinho de ontem, Lulu.
Sentaram  mesa. Desceu cerveja. Eram cinco mulheres somente. Tibria avisou:
- No tem mulher pra vocs todos. S d pra cinco...
- Os outros vo pra outras casas -props Trara.
- Mas primeiro vamos beber uma cerveja junto - e Josu bateu na mesa reclamando cerveja com urgncia. Depois alguns foram para as outras casas. Sairiam logo que 
ouvissem os soldados do tiro e ficariam pela redondeza da casa da Tibria esperando a hora do barulho. Dos doze, s ficaram em torno  mesa Trara, Josu, o mulato 
magro, um sujeito que tinha um talho no beio e Guma, com quem Josu, j inteiramente bbado, estava muito agarrado:
- Voc nem sabe como sou seu amigo... No cais ningum fala mal de voc na minha vista.
O do talho no beio disse:
- Eu conheci o pai de vosmic. Diz que ele tinha despachado um...
Guma no contestou. Uma mulher botou uma vitrola para tocar. Josu arrastou uma mulatinha para o quarto. Trara foi com a loira velha. Tibria contava as garrafas 
de cerveja bebidas. O do talho arriou a cabea em cima da mesa. Uma mulher se aproximou dele:
- E eu? Fico sem homem?
O do talho foi quase arrastado. O mulato magro disse:
- Eu vim foi pr barulho. Mas j que estou aqui. - E foi com a outra mulher.
A que coube a Guma era uma morena nova. No devia ter muito tempo na vida. No quarto comeou logo a se despir.
- Voc paga um conhaque para mim, simptico?
- T bem...
- Tibria! Traz um conhaque.
J de camisa, recebeu o copo na porta que entreabriu. Bebeu de um gole, aps oferecer.
-  servido?
Deu um estalo com a boca e agradeceu: "Obrigado." Deitou-se de barriga para cima:
- Que  que voc est esperando a? (Guma estava sentado aos ps da cama) -No quer?
Guma tirou os sapatos e o palet. Ela falou:
- S t me parecendo que vocs veio aqui por outra coisa.
- Nada. Foi pra isso mesmo.
Uma vela iluminava o quarto. Ela explicou que a lmpada estava queimada, "era to miservel o servio de eletricidade em Cachoeira ..." Guma, estendido na cama, 
olhava a mulher que falava. Era bem nova ainda, no demoraria a estar velha. Vida assim levara sua me. Era um destino desgraado este. Perguntou para a mulher:
- Como  seu nome?
- Rita. - Virou-se para ele. - Rita Maria da Encarnao.
- Bonito. Um nome grande. Mas voc no  daqui, ?
Rita fez um muxoxo com a boca:
- V l... tou aqui porque. . . - Explicou o final da frase com um gesto vago e um olhar triste. -Mas eu sou da capital.
- Da Bahia, ?
- Pois no havia de ser? Ou voc pensa que eu sou tabaroa?
- Tou achando  voc muito nova pra t metida nessa vida...
- Desgraa no v idade.
- Quantos anos tu tem?
A sombra da vela desenhava fantasmas no quarto de barro batido. A mulher estirou uma perna, olhou para Guma:
- Dezesseis. Porqu, se mal lhe pergunto?
- Tu  muito nova e j est nisso. Olhe: eu conheci uma mulher - lembrava-se da me - que envelheceu muito depressa.
- Tu veio foi me dar conselho? Tu  martimo ou padre?
Guma sorriu:
- Dizendo por dizer... Eu tenho pena, somente.
A mulher se sentou na cama. As mos tremiam:
- Dispenso sua caridade. Que foi que voc veio fazer aqui?
E (quem sabe porqu?) se cobriu com o lenol, com uma vergonha repentina. Guma agora estava triste e no se importava que ela o insultasse. Achava-a bonita, nova 
de 16 anos e pensava que em algum tempo sua me fora assim. Tinha pena dela e o que ela lhe dizia era mais triste ainda. Pousou a mo no ombro dela e foi com tanta 
suavidade que ela olhou de novo para ele:
- Desculpe..
- Sabe qual foi a mulher que eu conheci? Era minha me. Quando eu vi era moa ainda, mas estava acabada que nem um casco de saveiro naufragado... Tu  bonita,  
uma menina. Porque  que voc t aqui? -Ele gritava e no sabia porqu- Voc no tem nada que fazer aqui. T se vendo logo que voc no  daqui.
Ela se cobria ainda mais com o lenol. Tremia como se tivesse frio, como se houvessem chicoteado seu corpo. Guma se arrependeu de ter gritado.
- Tu no tem nada que fazer aqui. Porque no vai embora? -Sua voz era carinhosa como a de um filho falando a uma me. Ele lhe dizia tudo que quisera dizer  sua 
me.
- Pra onde? A gente cai aqui,  como se afundasse num brejo. No tem rvore onde a gente pegar. S tem canio...
Parecia que ela ia chorar:
- Para que voc veio falar isso tudo? Eu tava bem boa da minha vida. Voc veio pra me maltratar. Voc no ganha nada com isso.
A luz da vela morria e ressuscitava a cada momento:
- Eu no sou da Bahia, no. Nunca pisei os ps l. Sou de Alagoinhas. Tou aqu  por vergonha. Foi um caixeiro viajante. Sa da minha terra com vergonha. Meu filhinho 
morreu...
Ele estendeu as mos sobre a cabea de Rita. Ela soluava baixinho, encostou a cabea no seu peito:
- Me diga o que  que eu vou fazer?
Bateram na porta. Guma ouviu a voz de Josu:
- Guma!
- Que ?
- Eles t chegando... Sai logo.
De fora, da rua, vinha o rumor de vozes e passos. A mulher pegou no brao de Guma:
- O que ?
- So os do tiro. Vai haver encrenca... - E fez um gesto de pular da cama.
Ela o segurou com os dois braos, o rosto amedrontado, os olhos ainda cheios de lgrimas. Ela o segurou como quem segura uma ltima esperana, uma rvore na beira 
do abismo:
- Tu no vai no...
Ele a acariciou:
- No vai ser nada. Solta...
Ela o olhava sem compreender:
- E eu como vai ser? E eu? Tu no vai, eu no deixo... Voc  meu, agora no pode ir morrer... Se voc morrer, eu me mato...
Ele arrancou do quarto e no corredor ainda ouvia, apesar do barulho que faziam os rapazes, entrando aos berros, os soluos dela e a sua voz que perguntava:
- E eu? Eu me mato tambm...
Eram perto de setenta rapazes do tiro, fora os que eram casados e no tinham vindo. Foi somente por isso que o barulho teve aquele fim. Invadiram os quartos dando 
nos homens e nas mulheres, os marinheiros reagiram. Ningum sabe se foi Trara que puxou a faca primeiro ou se foi o rapaz que atirou. Quando a polcia chegou, os 
martimos tinham fugido pelos fundos, pulando o muro e desaparecido para o cais, lugar perigoso para se ir procurar um marinheiro. O rapaz com a facada acabava de 
morrer. O ferimento do outro era pequeno, uma punhalada no brao. O rastro de sangue atestava que Trara sara baleado e o sargento do tiro dizia que tinha sido 
no peito, ele tinha visto quando o rapaz disparara:
- Ainda assim o mulato desceu o punhal. Depois saiu curvado como um velho. A bala foi no peito, garanto. Ele no guenta chegar ao cais...
A mulher tambm estava morta. Se metera entre Guma e a bala que o sargento atirara, mas ningum ligou para Rita, que uma prostituta no tem importncia. O rapaz, 
sim, era de boa famlia, conceituado no lugar, filho de um advogado. O delegado coou a cabea (estava dormindo quando o chamaram), olhou o cadver de Rita, empurrou 
com o p:
- E essa? Porqu?
A loira estava espantada tambm:
- Deu uma coisa nela. Saiu do quarto, parecia doida, se agarrou com um que tinha tado, com ela, queria levar ele pro quarto. Foi quando comeou o tiroteio, ela se 
meteu na frente dele, recebeu as sobras...
- Era amsia dele?
- T vendo que ela conheceu ele esta noite... - Balanou a cabea. -Deu uma coisa nela...
As outras tambm no compreendiam. Ningum compreendia. Ningum sabia que ela tinha apenas se purificado, deixado aquela vida, para a qual no nascera. E a deixara 
pelo seu amor. Ento Tibria, a cafetina, com os olhos espantados, repetiu:
- Deu uma coisa nela...
- 

Guma tinha se jogado na gua a uma boa distncia do "Valente". Nadou para o saveiro, subiu. Um vulto apareceu na sua frente falando baixinho:
- Guma?
Era Josu. Estava nu da cintura para cima. O rio estava enchendo, o saveiro ficara a uma boa distncia do cais:
- Foi uma dos diabos... Trara t aqui. Eu trouxe ele a nado. S faltei botar a alma pela boca.
- Pra que ele aqui?
- Ele t malzinho, Guma. S levando pra Bahia. Se apanham ele aqui, do fim no desgraado. E ainda por cima ele t com uma bala na barriga...
O cais estava despovoado. O baiano iluminado recebia passageiros raros. As canoas tinham ido embora. Josu explicou:
- Quando cheguei com ele, a turma tinha zarpado. S tava o "Valente". Se eu tivesse um saveiro, levava ele. Mas na minha canoa ele no chega l.
- Onde tu deitou ele?
- T no poro. J amarrei o lugar da ferida, agora parece que t dormindo...
- Que fao dele?
- Leva ele pro Dr. Rodrigo, que  um homem bom, trata dele. Depois ele capa o gato.
- T certo.
Guma espiou com a lanterna Trara deitado no poro.
O sangue j no escorria da ferida. Trara parecia um morto. Apenas a respirao mostrava que ainda vivia. Estava lvido, a lanterna iluminava a cabea raspada, 
Josu falou:
- Te avia, rapaz, que a polcia aparece uma hora dessa.
Ajudou Guma nas manobras, quando o saveiro saiu se atirou na gua. Deu adeus com a mo:
- At outra... Conte com este negro.
Saindo do porto, Guma viu um movimento desusado no baiano. Vrios homens entravam, falavam alto. Era a policia, com certeza. Guma ia no leme, o saveiro corria quanto 
podia. Apagara a lanterna e ia com cuidado, que o rio tinha muitas coroas e a noite era escura. Ouviu a primeira chamada do baiano. "Ainda tenho uma hora", pensou. 
Uma hora para tomar a dianteira, para escapar de uma revista do saveiro. Tinha que se esconder num canto qualquer do rio at que o navio passasse. E se dessem busca, 
se encontrassem Trara agonizando no saveiro, ento a sua carreira estava terminada. Talvez nem houvesse priso. No costumava haver por aquelas bandas. Talvez ficasse 
boiando na gua com uma faca nas costas para exemplo. No adiantava mais se vingarem em Trara, que j estava morrendo, mas tinham que se vingar em algum.
O rapaz era de boa famlia, gente de prestgio... Guma espiou em redor. O mar estava calmo, o vento soprava, uma brisa boa que levava o saveiro. O mar ajudava os 
seus homens. O mar  amigo, doce amigo. O saveiro desliza sobre a gua azul. Guma se desvia de uma coroa. Corre agora num canal estreito. Tem os olhos atentos e 
a mo firme no leme. Trara geme no poro. Guma fala:
- Trara... t ouvindo, Traira?
Como resposta os gemidos aumentam. Guma no pode deixar o leme agora.  perigoso de mais deixar o saveiro solto nesse canal:
- Vou j... Espere um minuto.
Os gemidos se sucedem e so dolorosos. Guma pensa que Trara vai morrer. Morrer no seu saveiro e ali a polcia o encontrar. Se vingaro ento em Guma. Isso no 
o amedronta. No quer  ficar s com o cadver de Trara, que morreu por uma brincadeira. Trara no devia ter puxado a faca. Se os outros eram muitos, no era covardia 
ir embora, deixar o campo livre. Mas Guma reflete. Quem no faria o mesmo, qual deles no puxaria a faca? Trara est morrendo, no adianta discutir.  preciso  
se livrar de uma revista para poder levar o cadver at o porto, onde possa entreg-lo queles que o choraro.
Atravessaram o canal. Guma acende a lanterna e se aproxima do poro. Trara conseguiu se virar e est deitado de lado. Da ferida sai um filete de sangue. Guma fala:
- Quer alguma coisa, mano? Ns t indo para a Bahia. Os olhos parados de Trara se viram para ele:
- gua...
Guma traz a cabaa, desce, chega o gargalo  boca do ferido.  com dificuldade que Trara bebe. Depois se volta novamente e fica de barriga para cima. Olha fixamente 
Guma:
-  Guma?
- Eu mesmo.
- O outro ficou morto, no foi?
- Foi...
- Nunca matei um homem. A gente cava a desgraa mesmo...
- Tinha que ser.
- Que vai ser agora de minha mulher?
- Voc  casado?
- Sou casado em Santo Amaro, tenho trs meninas. Que vai ser delas?
- No vai ter nada. Voc vai ficar bom, arriba com elas,
- A polcia t perseguindo?
- Mas a gente engana eles.
- Ento vai pr leme.
Guma sobe. Vem pensativo porque Trara tem mulher e trs meninas. Quem ir dar de comer a tanta gente? Bem que o velho Francisco diz que marinheiro no deve se casar. 
Um dia vem uma desgraa, tenta a gente, os filhos ficam com fome. No entanto, ele quer casar. Quer trazer Lvia para o seu saveiro, ter um filho. A voz surda de 
Trara ,o chama novamente:
- Guma! Desce.
Trara est tentando levantar a cabea.
- Voc ouviu o apito do baiano?
- No.
- Eu ouvi. A essa hora t largando. No adianta mais. Eles vm nele, no vm?
Guma sabe que ele se refere  polcia. No nega. Trara continua:
- Eles alcana a gente. Mata aqui mesmo.
Ficam em silncio. A lanterna ilumina o rosto de Trara, que est fechado num rito de dor.
- S tem um jeito. Eu vou mesmo morrer. Tu me ajuda a subir, eu me boto na gua. Quando eles chegar, no me encontra.
- Tu t bestando, homem. Eu ainda sei manobrar com um saveiro.
- Me d gua.
Guma sobe aps dar gua. Agora sim que o baiano apitou. Agora estar largando do porto e vir atrs dele. Quando deitarem o barco com os homens tudo estar perdido. 
O baiano seguir e os homens armados daro cabo deles. Diro depois que eles resistiram. Guma nem pode resistir. Faca s serve corpo a corpo. Quando eles pularem 
para o saveiro, ser de Parabelum na mo, rifles atirando. Nessa noite iro ver Janana. No ver mais Lvia, no ver mais o velho Francisco. O saveiro corre com 
o vento. O "Valente" est dando tudo que pode, mas esta  a ltima corrida do "Valente". Ficar perfurado de balas, talvez afunde com o seu dono. Sua lanterna no 
brilhar mais nessa baa, no atravessar mais o rio, no pegar mais aposta com mestre Manuel. O rapaz ficou estendido na sala, ficou tambm a mulher. S agora 
Guma se recorda dela. Morreu para o salvar, era jovem e bela. Deixou aquela vida, que no nascera, para ela. Se no morresse, no largaria mais o copo de cachaa 
e envelheceria antes do tempo. Morreu como a mulher de um marinheiro. No foi uma mulher da vida que morreu com um tiro no peito. Foi a esposa de Guma, Iemanj sabe 
disso, h de passear com ela pelas terras de Aioc, h de faz-la sua mucama na pedra do Dique. Era nova e bela. Morreu por um homem do mar. Seu corpo ir para o 
cemitrio, mas com certeza Iemanj ira busc-la para sua mucama. Guma contar a Lvia a sua histria. E se lhe nascer uma filha, seu nome ser Rita. Ouve o apito 
do baiano. Vem atravessando o canal. No demorar a estar ali perto deles, a descer o escaler e a desaparecer na escurido. Ento tudo estar terminado. O "Valente" 
corre o mais que pode. Corre para a morte, que o seu dia. Chegou. Iro navegar nas terras de Aioc, que so mais belas. L estar Rita esperando.
Guma ouve um rudo. Como que algum se arrastando no saveiro. H algum, sim. Algum que vem muito de mansinho para a borda do barco. Larga o leme e vai espiar. 
Era Trara que vinha se jogar na gua. Se atira em cima dele e ele ainda luta, quer acabar com aquilo de uma vez, no quer sacrificar Guma por sua causa. A cabea 
raspada billha  luz da lanterna. Guma o arrasta para o poro. Ele o olha. Agradecido e com orgulho. Ele tambm sabe que a lei do cais  essa e Guma a sabe cumprir. 
Morrero os dois. Ento pede a Guma:
- Voc tem uma faca de mais
- Tenho. Pra qu?
- Me d. Quero morrer como um homem. Ainda sou capaz de levar um... -sorri com dificuldade. Guma d a faca e sobe. Ele tambm se defender. No se deixar matar, 
como um peixe pescado vivo. S largar a faca quando j estiver cado. No ver Lvia, ela casar com outro, ter filhos de outro. No entanto ser de Lvia o nome 
que ele dir quando cair. Pena que no tenha Rufino junto a ele. Se o negro estivesse, tatuaria o nome de Lvia no seu brao. Enxerga a lanterna de um saveiro. Queni 
vir? Dentro de pouco ele o saber. Se for um amigo, talvez tudo esteja salvo. O saveiro se aproxima. Era o saveiro de Jacques. Ainda esta manh eles brigaram  
beira do cais. Mas Guma sabe que pode recorrer a ele. Porque assim o manda a lei do cais.
A um sinal da lanterna de Guma o saveiro de Jacques pra. Jacques est, espantado. Estava esperando uma hora para se vingar de Guma. Mas este lhe explica o que aconteceu, 
a perseguio, Trara deitado ali, Jacques no discute. Passam Trara para o saveiro. Ele arqueja, est perto da morte. Guma avisa:
- Eu espero em Maragogipe.
- T certo
- Boa viagem...
Os saveiros partem. Agora nada acontecer. Ningum desconfiar de Jacques, que vai para Cachoeira, E no "Valente" nada encontraro. Ningum pode afirmar que Guma 
estivesse no barulho a no ser as mulheres, na hora homem no guarda cara. Ele estar livre.
Foi revistado (havia lavado as manchas do poro), deixaram-no em paz. Jacques no demorou a voltar, Guma estava carregando charutos. Depois os saveiros saram juntos, 
Jacques j tinha perdido a viagem, agora ia com ele at o fim. Trara no morrera. Ia gemendo no fundo do saveiro de Jacques. Era manh clara quando chegaram  Bahia. 
O baiano, h muito estava atracado. No cais j sabiam do barulho, Jacques ficou no saveiro, Guma foi buscar o Dr. Rodrigo. Trara gemia no saveiro. E falava na mulher, 
na famlia, nas trs meninas. No seu delrio ele via um navio enorme, um transatlntico, ancorado no cais. Vinha busc-lo para o fundo do mar. No era mais um navio, 
era uma nuvem negra de tempestade que ancorava no cais. Um navio ancorou no cais. Uma nuvem ancorou no cais. A tempestade chegou para levar Trara, que matou um. 
Onde est sua. Mulher, onde esto suas filhas para lhe darem adeus? Ele vai no navio, ele vai na nuvem. No, ele no vai porque a mulher no est ali, ali no esto 
suas filhas para os adeuses finais. Trara j a bordo do navio, j a bordo da nuvem, no centro da tempestade, ainda fala na mulher, na famlia, nas trs meninas: 
Marta, Margarida, Raquel.

Marta, Margaricia, Raquel

Se de uma coisa h certeza no cais, mas certeza absoluta, inabalvel,  que o Dr. Rodrigo  de famlia de marinheiros; seus pais, seus avs ou outros mais antigos 
cruzaram os mares nas embarcaes, fizeram daquilo seu meio de vida. Porque essa  a nica explicao para que um doutor, de diploma e quadro, largasse as ruas bonitas 
da cidade e viesse morar na beira do cais, numa casa tosca junto com livros, um gato e as garrafas de bebidas. Mal de amor no era. Dr. Rodrigo estava muito moo 
ainda para sofrer no peito um mal sem cura, Com certeza - repetiam os canoeiros- ele era de famlia de martimos, voltara para o mar. E como era magro e fraco, incapaz 
de levar um saveiro pelas guas e suspender um saco cheio, tratava das molstias dos marinheiros, dava vida aos que chegavam quase mortos das tempestades. E em geral 
era quem dava dinheiro para o enterro dos mais pobres, quem ajudava as vivas. Tirava dia cadeia aqueles que se embriagavam e eram presos. Muito fazia por eles e 
era estimado no cais, sua fama chegara mesmo a lugares aonde s chegava a fama dos marinheiros mais valentes. outras coisas fazia, mas os marinheiros no tinham 
conhecimento. Talvez s D. Dulce soubesse que ele fazia poemas sobre o mar, porque ele achava a sua poesia fraca de mais para o motivo. Tambm D. Dulce no compreendia 
perfeitamente porque ele morava ali, sendo rico e estimado na cidade l em cima. Vestia uma roupa coada, ~ gravata, e quando no visitava os seus doentes (tinha 
muitos que nada lhe rendiam) fumava um cachimbo e olhava a paisagem sempre nova no mar.
Tinha um aparelho de rdio e muitos vinham de noite ouvir as msicas de outros pases. J entravam sem desconfiana, olhavam os livros grossos e bonitos como a conhecidos 
(a princpio se sentiam amedrontados com aqueles livros que os separavam do Dr. Rodrigo) e quase sempre terminavam. por fechar o rdio e cantar as canes do cais 
para o doutor ouvir.
A sua estada no cais, a sua vida entre eles, inteiramente para eles, s no era segredo para o velho Francisco, que uma vez lhe disse:
- Seu pai era marinheiro, no era, Dr. Rodrigo?
- No, que eu saiba, Francisco.
- Mas seu av...
- Esse no conheci nem meu pai teve tempo de me falar da vida dele... - sorria Rodrigo.
- Pois foi marinheiro - afirmava Francisco. - Eu conheci ele. Era comandante de um navio. Um homem bom. Querido na redondeza. E Francisco tinha quase a certeza de 
ter conhecido o av de Rodrigo, apesar de ter inventado a mentira naquela hora. Da essa certeza no cais. E iodos esperam que um dia o Dr. Rodrigo case com D. Dulce. 
Mas se encontram, do passeios, conversam. Mas nunca falaram em se casar. No entanto h muito que no cais se fala na festa desse dia. Os mais ntimos at fazem uma 
aluso de vez em quando e o Dr. Rodrigo sorri como que se esconde mais na roupa surrada e muda de assunto. Volta para os seus livros, para seus doentes (tem um menino 
tsico que lhe rouba quase todo o tempo), para a contemplao do mar.
A principio o Dr. Rodrigo, ia sempre  cidade. Ia propor medidas de higiene para as casas do cais. Nunca foi atendido. Deixou de ir. D. Dulce falou no milagre que 
espera. Ento tudo ser mais belo na beira do cais. Talvez ento o Dr. Rodrigo possa fazer os seus versos belos, to belos quanto o mar.
- 

Guma entra na sala que serve de consultrio, Uma mulher gorda ouve a me do menino tsico, que o tem seguro pela mo. O menino  s osso, tosse de quando em vez 
e, quando tosse, o faz com tanta fora que chega a chorar. Uma mocinha num canto olha horrorizada e tapa a boca com um leno. A me conta:
- Int s vezes eu penso, Deus me perdoe - e bate com a mo na boca - que era melhor Deus chamar ele logo...  um sofrimento sem par, um sofrimento pra todos, um 
tossir sem fim, a noite toda... Que alegria tem ele na vida, coitadinho, que nem pode brincar? s vezes eu penso que Deus me ajudava se me tirasse ele. -Passa a 
manga do vestido nos olhos e agasalha mais o pequeno, que tosse e parece muito longe daquilo tudo.
A mulher gorda apia com a cabea. A mocinha pergunta do canto:
- Como foi que ele apanhou?
- Foi uma constipao, foi ficando ruim, foi arruinando, deu na molstia...
A mulher gorda aconselhou: -J levou ele pro pai Anselmo? Diz que...
- No adiantou... Dr. Rodrigo tambm tem sido mesmo que um pai pra gente...
- Iemanj t chamando ele -completou a gorda. Guma perguntou:
Dr. Rodrigo, vai demorar, D. Francisca?
- No sei no, seu Guma. T com Tibrcio l dentro, aquele da ferida na perna... O senhor t, doente?
- No. , outro negcio...
O menino tossiu. A mulher gorda falou:
- Pois a Mariana, voc conhece, no ? A mulher do Z Pedrinho...
- Ah, sim!
- Pois ela tava daquele jeito. Ficou to magra como bacalhau seco. Botava cada posta de sangue, parecia que um dia botava o corao. Pois pai Anselmo deu uma beberagern, 
foi pau casca.
- Com Mundinho no adiantou nada. Foi ele at que mandou pro Dr. Rodrigo. E esse mesmo no tem dado volta. Tem feito tudo...
A porta abriu, Tlbrcio saiu capengando. Dr. Rodrigo apareceu de avental, a cara magra, ossuda. Cumprimentou Guma:
- Doente, Guma?
- Eu queria falar com o senhor. Negcio de pressa.
- Entre -Virou-se para as mulheres. - Esperem um minuto.
Logo depois saam os dois, Rodrigo j de palet, a maleta de ferramentas na mo. Avisou s mulheres:
- Voltem s duas horas. Agora um caso de urgncia. Da porta ainda, avisou: -No esquea do remdio do menino, D. Francisca. Antes do almoo...
J iam pelo cais quando Rodrigo, pediu:
- Agora me conte o que foi que aconteceu.
Guma contou. Sabia que podia confiar inteiramente em Rodrigo. Era um deles, era como se fosse marinheiro. Narrou o barulho todo, a morte de Rita, o ferimento de 
Trara:
- O rapaz morreu. E Trara est malzinho...
Entraram pela lama do cais, saltaram para o saveiro de Jacques. Dr. Rodrigo, pulou logo para o poro. Trara delirava e falava nas filhas, chamava por Marta, Margarida, 
Raquel. E todos ficaram sabendo que Marta j estava moa, tinha uns 18 anos belos, Margarida saltava nas pedras, nadava no rio, tinha 14 anos e longos cabelos, ficando 
moa, mas de quem ele tinha saudade era de Raquel, que ainda ia fazer 4 e falava atrapalhado, no sabia pronunciar direito as palavras. Jacques disse:
- Ele t variando...
Marta, Margarida, Raquel, chamadas com insistncia. Marta cosia peas, comeando um enxoval, que o noivo podia vir a cada momento, Margarida pulava nas pedras, brincava 
na beira do rio, nadava como um peixe, Raquel embolava a lngua, conversava com a velha boneca, nica, pessoa que a entendia. Raquel era chamada com mais insistncia, 
era de Raquel que ele tinha mais saudade. Raquel conversava com a boneca velha, dizia que ela Ia ficar no canto, que o pai havia de trazer uma boneca loira nessa 
viagem. E o pai moribundo chamava Raquel, chamava tambm por Marta e Margarida, chamava at pela sua velha, mulher, que o estaria esperando com uma peixada.
Rodrigo examinou a ferida, o doente no ouvia mal.,. nada, no se apercebia da presena deles. S via as trs filhas, danando em torno, saltando risonhas, rindo 
alegremente. Marta, Margarida, Raquel. Era uma boneca nova que Raquel tem nos braos, uma boneca nova que conversa com ela, boneca que ele trouxe nessa viagem. Ele 
vai embora num navio, ele vai embora numa nuvem e Marta e Marga- rida e Raquel danam no cais, danam as trs de mos dadas corno nos dias felizes em que Traira 
chegava das longas viagens e deitava na mesa os presentes trazidos. Marta veste as peas mais novas do enxoval, Margarida dana sobre pedras que catou na beira do 
rio, Raquel aperta uma boneca ao peito.
- S operando.
- O qu, doutor?
- S tirando a bala... Assim mesmo... O jeito  levar o homem para minha casa. E ele tem famlia, no ?
Trara falava:
- Marta, Margarida, Raquel.
- Como  que a gente vai levar ele? - perguntou Jacques.
Mas se arranjaram. Foi numa rede. Primeiro o saveiro velejou para os fundos do cais, onde era quase deserto, botaram Trara na rede, passaram um pau e o levaram 
ao ombro. Em casa Rodrigo j tinha os ferros preparados e a operao comeou logo. Guma e Jacques ajudavam e viram as carnes cortadas, a bala arrancada do corpo, 
a carne cosida novamente. Era como se estivessem vendo tratar um peixe. Agora Trara dormia, no falava mais nas filhas, no chamava pelas trs.
Quando tudo tinha acabado, Guma perguntou:
- Ele vai ficar bom, doutor?
- Acho que ele no resiste, Guma. Foi muito tarde.
Rodrigo lavava as mos.
Guma e Jacques ficaram olhando o companheiro. A face plida, a cabea raspada, o corpo enorme, a barriga rasgada, parecia j ter se ido, j no ser mais deste mundo. 
Guma disse:
- Tem famlia. Mulher e trs filhas. Um martimo no deve se, casar.
Jacques baixou a cabea, que ele ia se casar dentro de um ms. Dr. Rodrigo perguntou:
- Donde  a famlia dele?
- Ele pousava l pras bandas de Santo Amaro...
-  preciso avisar...
- J deve de saber... Desgraa corre mundo.
- A polcia j bateu l com certeza.
Dr. Rodrigo disse: - Vo para as suas ocupaes, que eu cuido dele. Eles saram. Guma, ainda olhou o homem que ressonava pesado. Dr. Rodrigo, quando se viu s, olhou 
o mar pela janela. Vida difcil aquela dos marinheiros. Guma dizia que eles no deviam casar. H sempre um dia em que a famlia fica na misria, h sempre Martas, 
Margaridas, Raquis, para passarem fome. D. Dulce esperava um milagre. Rodrigo quis voltar para os seus versos, mas o homem que agonizava era um protesto contra 
a poesia descritiva do mar. E pela primeira vez Rodrigo pensou em fazer um poema que falasse no sofrimento e na misria da vida do cais.
Depois a morte veio calma. Agora Trara no ia mais no navio. Rodrigo tinha chamado Guma e Jacques. Trara viu os trs em torno ao leito. No gemia mais. Estendeu 
a mo e no era ao mdico e aos amigos que ele estava vendo. Via as trs filhas em redor do seu leito, as trs filhas que o despertavam porque a manh ia alta (o 
sol invadia o quarto) e era preciso sair com a canoa. Estendeu a mo, sorriu carinhoso, (Rodrigo torcia as mos), murmurou os nomes Marta, Margarida, Raquel, repetiu 
Raquel e embarcou na sua canoa.
Embarcou na sua canoa.

Viscondes, condes, marqueses e Besouro

Essa cidade de Santo Amaro, onde Guma est com o saveiro, foi ptria de muito baro do Imprio, viscondes, condes, marqueses, mas foi tambm, gente do cais, a ptria 
de Besouro. Por esse motivo, somente por esse motivo, no  por produzir acar, condes, viscondes, bares, marqueses, cachaa, que Santo Amaro  uma cidade amada 
dos homens do cais. Mas foi ali que nasceu Besouro, correu naquelas ruas, ali derramou sangue, esfaqueou, atirou, lutou capoeira, cantou sambas. Foi ali perto, em 
Maracangalha, que o cortaram todinho a faco, foi ali que seu sangue correu e ali brilha a sua estrela, clara e grande, quase to grande como a de Lucas da Feira. 
Ele virou estria, que foi um negro "Valente".
Santo Amaro  a ptria de Besouro.  nisso que Guma pensa nesse momento deitado no seu saveiro. H trs dias os pensamentos de Guma eram outros. No dia em que Trara 
morreu, ele estava para ir ver Lvia, que era toda a sua preocupao. Mais uma vez a frase do velho Francisco, a cano que cantavam no mar, o exemplo dirio (desgraada 
 a mulher que casa com um homem do mar. Um martimo no deve se casar), o caso de Trara deixando mulher e trs filhas, vieram inquiet-lo. Um martimo deve ser 
livre, diz o velho Francisco, diz a cano, dizem os fatos dirios. Livre no para amar, para viver mais largamente. Porm livre para morrer, para celebrar suas 
npcias com Iemanj, a dona do mar. Livre para morrer, que  para a morte que eles vivem, morte to prxima, to certa que nem  esperada, nem se preocupam com ela. 
Um martimo no tem o direito de sacrificar uma mulher. No por causa da pobreza da vida deles, da misria das casas, do peixe dirio, da falta eterna de dinheiro. 
Isso qualquer uma delas suportaria, que em geral esto acostumadas, ou so do cais mesmo ou so filhas de operrios, de trabalhadores miserveis tambm. A pobreza 
elas esto acostumadas, muitas vezes a coisas piores que a pobreza. Mas a que vo esto acostumadas  a esta morte repentina, a ficar de repente sem seu homem, sem 
teto, sem abrigo, sem comida, a serem logo engolidas ou por uma fbrica ou pela prostituio quando so mais novas. Guma se horroriza s em pensar em Lvia, mais 
bonita que todas as mulheres do cais, se entregando a outros homens, chamando da janela, para sustentar um filho que um dia ser marinheiro tambm e desgraar outra 
mulher. Atrs duma janela gradeada (como as janelas de presos, de condenados) ela colocaria o seu rosto sem mistrio, seu rosto sem angstia, e chamaria os homens 
que passassem. O filho, filho de Guma, filho do mar, talvez estivesse escondido para no chorar, para no chorar pela me. E ela abriria seu corpo pelo almoo do 
filho, amanh deixaria uma mulher tambm, quando fosse ( o fim de todos eles ... ) com Iemanj para as Terras do Sem Fim de Aioc. Terra de Aioc, terra natal dos 
martimos, onde est a nica mulher que eles, realmente, devem possuir: Janana, misteriosa de cinco nomes, Janana que  me, que  mulher e por isso mesmo  terrvel. 
No se sabe de um homem casado do cais que tenha envelhecido no seu saveiro ou na sua canoa. Iemanj tem cimes, ento ela  Ina e desencadeia as tempestades. No 
adianta levar presentes, no adianta oferecer filhas como mucamas, que ela quer os maridos, seus filhos e seus esposos.
Foi por esse motivo, por no querer fazer desgraado o destino de Lvia, que Guma fugiu do cais naquela noite com uma pequena carga para Santo Amaro e a promessa 
de uma viagem de volta carregado com garrafas de cachaa. Fugiu para no ir com Rodolfo ver Lvia, olhar os seus olhos claros, ainda mais a desejar. Por isso est 
agora deitado no seu saveiro no cais de Santo Amaro, cidade dos condes, viscondes, bares, marqueses e cidade de Besouro.
Gente dos demais cais do mundo, Besouro nasceu aqui, Guma olha para o cu onde ele brilha. Se a Lua  maior e brilha mais, se  para ela que primeiro os olhos se 
voltam, o que eles procuram logo depois  a estrela de Besouro, o mais valente dos negros do cais. O cu est cheio de homens valentes: Zumbi, Lucas da Feira, Z 
Ninck, Besouro, Ali entre a Lua e Lucas est o lugar onde ficar Virgulino Ferreira Lampio, que no h de morrer to cedo.
Mas nenhum destes foi homem do cais, foi filho de marinheiro, viajou em rpidos saveiros. S Besouro. Esse foi homem do mar, sabia manejar um leme, embicar uma canoa, 
correr com o vento e com a msica. Destes todos sb ele sabe onde ficam as terras de Aioc, que, ficam mesmo no fim do mundo. Por isso ele  o mais amado dos homens 
do cais. E foi aqui, em Santo Amam, oh!, marinheiros do mundo todo, carregadores, estivadores, doqueiros, canoeiras, Dr. Rodrigo, D. Dulce, todos que trabalham no 
mar, que ele nasceu. E bem perto daqui, na Maracangalha, cortaram-no todo a faco, fizeram dele picadinho, mas, reparai bem marinheiros do mundo, todo, foi  traio, 
foi enquanto ele dormia numa rede que, de todas as coisas da Terra,  a que mais se parece com um saveiro, balana corno se estivesse em cima das ondas.
Nasceu aqui. No Recncavo nascem os homens valentes das guas. Na Bahia, a capital, a cidade das sete portas, nascem as mulheres mais bonitas do cais. Lvia, nasceu 
l. Se Besouro a visse - pensa Guma, pitando no "Valente", se apaixonaria por ela, por sua causa esfaquearia trs ou quatro. Foi um homem valente, o martimo Besouro. 
E no cais no h mulher mais bonita que Lvia, Lvia, que veio  festa de Iemanj s para ver Guma, que  valente tambm, j correu aventuras, pensa um dia viajar 
por terras estranhas nos grandes navios. Ele a deseja, ela  a mulher que h muito ele espera e ela tambm o quer, ela veio convid-lo com seus olhos sem mistrios, 
seus olhos sem falsidade. E demais Guma tem um compromisso com Rosa Palmeiro. Ter um filho com Lvia para Rosa ajudar a criar, brincar com ele, esquecer uma vida 
de barulho, brigas e mortes.  verdade que Besouro no casou. Mas tambm Besouro no conheceu Lvia, j era morto quando ela nasceu. Por uma mulher como Lvia um 
martimo esquece de tudo, esquece at que a pode deixar na misria com um filho ou com trs filhas como Trara, que deixou Marta, Margarida, Raquel.
Guma nem ouve a msica que vem do cais. Apenas a sente, ela domina os seus pensamentos e  aquela velha cano que diz ser a noite para o amor. As noites para Besouro 
nem sempre eram para o amor. Muitas vezes eram para brigas, para crimes. Outras serviam para fugas arriscadas, com da vez em que, depois de derrubar quatro soldados 
e ferir muitos outros, ele entrou pelo mato com duas balas no queixo e uma no brao. Era uma noite escura e o perseguiram, cercaram o mato, ele se jogou na gua 
e assim ferido nadou como bom martimo que era, at que uma canoa o acolheu e um pai-de-santo o tratou. Mas, sem dvida, haveria algumas noites para o amor. Nas 
noites de lua, nas noites de msica, quando a gua do rio  azul, nessas noites ele amava ara Maria Jos, ora Josefa, da Ponte, ora Alpia, ou outras que encontrava. 
Mas nunca teve uma nica mulher, uma que se ligasse ao seu destino, que sofresse vida ruim por causa da morte dele. Muitas o choraram, mas todo o povo do mar o chorou 
tambm, seu enterro foi corno o de nenhum baro, conde. visconde, marqus de Santo Amaro. Choravam que ele era bom, mo aberta para os pobres, punhal pronto a defender 
o direito de um martimo. Mas nenhuma mulher o chorou sem pensar na sua valentia, na sua bondade, nos seus feitos, nenhuma o chorou como a seu homem, como a seu 
arrimo, sua felicidade. Porque dizem os velhos, diz a cano, os homens do cais no devem casar. Guma se move inquieto. A noite  para o amor, mas o amor de aventura, 
o amor que se encontra ao acaso, na areia do cais, nas margens rio, no mercado, uma cabrocha qualquer.
A noite  para o amor, canta um negro nas guas de Santo Amaro. Outra cano (a histria do cais  toda em verso: ABC, sambas, canes, emboladas) afirma que desgraado 
 o destino das mulheres dos martimos. Esperar uma vela no cais, esperar nas noites de tempestade a chegada de um corpo. Besouro nunca casou, alm de martimo ele 
era jaguno, alm do remo tinha um rifle, alm da faca de marinheiro tinha uma navalha. Tambm Rosa Palmeiro), mulher do cais que valia dois homens, nunca conseguiu 
um filho. Jacques, que ia casar nesse ms com Judith, uma mulatinha rf de pai, ficou indeciso depois da morte de Trara. Fugiu tambm, foi para Cachoeira, pensar 
assim (Como Guma est pensando, estirado no saveiro, pitando um cachimbo, ouvindo unia msica). Lvia no tem mistrio, seus olhos no esperam nada de mau na vida. 
Ligar sua vida a um martimo  desgraar seu destino, bem diz a cano. Guma tem raiva, tem vontade de gritar, de se jogar na gua, que  doce morrer no mar, de 
brigar com muitos homens como fazia Besouro. A estrela de Besouro pisca no cu.  clara e grande. As mulheres dizem que ele est espiando os malfeitos dos homens 
(bares, condes, viscondes, marqueses) de Santo Amaro. Est vendo todas as injustias que os martimos sofrem. Um dia voltar para se vingar.
Voltar outro, ningum saber que  Besouro. A sua estrela desaparecer do cu, ele brilhar na Terra. Talvez seja esse o milagre que D. Dulce espera, o dia de que 
falam os versos do Dr. Rodrigo. Talvez que nesse dia os martimos possam casar, dar vida melhor para as mulheres e garantir que no morrero de fome aps a morte 
deles, nem to pouco precisaro de se prostituir. Quando chegar o dia? - Guma interroga a Lua e as estrelas.
Besouro foi valente e s o mataram  traio, cortaram seu corpo todo, foi preciso calar os pedaos para o enterro. Ele lutava contra os bares, condes, viscondes, 
marqueses, que eram e so donos dos engenhos, dos campos verdes de cana, que estabeleciam as tabelas de fretes para os saveiros e canoas, ele invadia os engenhos, 
tirava um pouco do que era deles e dividia pelas vivas, pelas crianas cujos pais morreram no mar. Os bares, viscondes, marqueses e condes faziam discurso no Parlamento, 
conversavam com D. Pedro H, bebiam vinhos caros, defloravam escravas, surravam negros, tratavam os saveireiros e canoeiros como a criados. Mas de Besouro tinham 
medo, era o Diabo para eles, nome que no gostavam de ouvir. Botaram polcia, botaram homens e mais homens contra ele. E no puderam com Besouro porque no havia 
mulher no cais, no rio, nas cidades do Recncavo, que no pedisse por ele a lemanj. E no havia saveiro, no havia canoa e batelo, que no lhe desse guarida. Tremiam 
os bares, tremiam os viscondes de Santo Amaro, pediam por Deus a Besouro que poupasse suas terras, e por isso foram poupadas algumas negras, alguns negros, alguns 
martimos. Porque os senhores tinham medo de Besouro.
Um dia Besouro voltar.. Guma deve esperar esse dia para casar. Ningum sabe como Besouro voltar. Talvez volte mesmo como muitos homens, como o cais, todo se levantando, 
pedindo outras tabelas, outras leis, proteo para as vivas e rfos.
Lvia o espera, ele sabe. A noite  para o amor e ela o espera. Rodolfo deve ter ficado aborrecido por no ter encontrado Guma. Ele no sabe que Guma fugiu, no 
quis desgraar o destino de Lvia. Mas agora uma tentao de voltar o invade, uma vontade de a rever, de ficar diante dela, parado. Lvia h de vir com ele, h de 
dormir muitas noites nesse saveiro. E se ele morrer ela h de ter coragem para no se prostituir. A noite  para o amor e o amor para Guma  Lvia. Ele no quer 
amor de aventuras, amor de acaso, uma cabrocha qualquer. Foi Lvia que Iemanj lhe mandou, ele no pode discutir as ordens de Iemanj. Canoeiros, pescadores, mestres 
de saveiro, temem o amor. O que ter decidido Jacques, que foi para Cachoeira pensar? Guma no quer desgraar o destino de Lvia, mas no pode. Destino  coisa feita, 
ningum pode desmanchar. O destino de Lvia  o destino infeliz das mulheres do cais. Nem ela, nem Guma, nem mesmo Besouro, que virou estrela, podem desmanchar. 
Guma a ir buscar, no devia ter fugido, que essa noite de lua bela e de tantas estrelas foi feita para o amor. Numa noite assim ningum pensa em tempestade, em 
barulho, em temporal, em morte. Guma pensa que Lvia  bela e ele a deseja.
Santo Amaro  a terra de Besouro. No importa que aqui tivessem nascido nobres do Imprio, senhores de escravos inmeros. No importa, marinheiros. Aqui nasceu Besouro, 
o homem do mar mais valente que j navegou nessas guas. Bares, condes, viscondes, marqueses, dormem junto s runas dos castelos feudais, em tmulos fechados que 
o tempo vai comendo. Mas Besouro brilha no cu,  uma estrela, derrama sua luz sobre o saveiro de Guma, que parte rpido em busca de Lvia. Um dia Besouro voltar, 
martimos de todo o mundo, e ento todas as noites sero para o amor, haver novas canes no cais e no corao das mulheres,

Melodia

O mar lhe mandou os ventos mais rpidos, lhe enviou o nordeste que atira o "Valente" para o cais da Bahia. Canoas que passam, saveiros que cruzam, jangadas que levam 
pescadores, bateles carregados de lenha, lhe desejam boa viagem:
- Boa viagem, Guma...
Boa viagem, que ele vai em busca de Lvia. A Lua ilumina sua rota, o mar  uma estrada larga e boa. E o nordeste sopra, o terrvel nordeste das tempestades. Mas 
agora ele sopra como amigo que o ajuda a transpor mais rpido esse brao de rio. O nordeste traz as canes da beira do rio, canes de mulheres lavadeiras, cantigas 
de pescadores. Os tubares saltam nas ondas da entrada da barra. H danas no navio iluminado que entra. A luz da Lua um casal conversa. "Boa viagem.", diz Guma, 
e sacode a mo. Eles respondem e ficam comentando, entre sorrisos, a saudao daquele martimo desconhecido.
Ele vai buscar Lvia, ele vai buscar uma mulher bonita para oferecer ao mar. No demorar muito a carne de Lvia ter o gosto da gua salgada do oceano, os seus 
cabelos sero midos dos salpicos do mar. E cantar no "Valente" as canes do cais. Saber da histria de Besouro, da histria do cavalo encantado, de todas as 
histrias de naufrgios. Ser como um saveiro, o casco de uma canoa, uma vela, uma cantiga, apenas uma coisa do mar.
O nordeste sopra, empina as velas do "Valente". Corre, saveiro, corre, que j brilham as luzes da Bahia. J se ouve o baticum dos candombls, a msica dos violes, 
o triste gemer das harmnicas. Guma parece j ouvir a risada clara de Lvia. Corre, saveiro, corre.

Rapto de Lvia

Seis meses de um desejo intenso de a ter, de a possuir. O "Valente" cortava as guas do mar e do rio, o "Valente" ia e vinha, e o desejo no abandonava Guma. Ele 
a vira logo que chegara naquele dia de Santo Amaro. Foi com Rodolfo, e ela lhe parecera ainda mais bela, tmida, olhando com seus olhos claros. Os parentes dela, 
tios que tinham uma pequena quitanda e na beleza de Lvia (poderia fazer um bom casamento... ) punham toda a sua esperana, logo aps os agradecimentos no viam 
Guma com bons olhos. Esperavam que ele aparecesse, recebesse os agradecimentos e seguisse sua viagem sem olhar para trs. Que podia Lvia esperar de um marinheiro? 
E que podiam eles esperar de algum que era ainda mais pobre que eles ?
Seis meses em que para v-Ia, para dar dois dedos de prosa (era somente ela quem falava, ele ouvia calado), tinha que atravessar sob os olhares dos tios. Olhares 
de raiva, de antipatia, de desprezo. Ele lhes salvara a vida, mas agora queria tirar a nica esperana que lhes restava de uma vida melhor. Mas apesar dos olhares, 
das palavras murmuradas em tom que ele as ouvisse, Guma voltava sempre vestido com a nica roupa de casimira que possua, mal arranjado dentro dela, com os movimentos 
presos.
Logo na primeira semana tinha escrito uma carta para Lvia. Primeiro quis mostrar a D. Dulce para ela consertar os erros. Mas teve vergonha e mandou assim mesmo 
como estava:
"Minha, estimada L... de toda a pureza dalma.
Saudaes.
 com a mo pesada e com o corao louco e apaixonado por ti que te escrevo essas mal traadas linhas.
Lvia meu amor peo minha filha que voc leia esta carta com ateno para poder me responder com urgncia, mas quero uma resposta sincera sada do seu corao para 
o meu.
Lvia voc sabe que o amor cresce de um beijo e termina numa sentida lgrima? mas minha filha eu penso que se voc me corresponder que o nosso vai ser ao contrrio, 
j nasceu de um olhar, h de crescer mais, de um beijo e nunca mais terminar, no  assim meu amor? Peo que me responda todas as perguntas que lhe fao j ouviu? 
Minha filha eu penso que o teu corao  uma concha doirada aonde se encerra o nome BONDADE.
Lvia meu, amor j nasci te amando no podendo mais ocultar esse segredo e no podendo mais suportar essa dor imensa que meu corao sente declarei a verdade meu 
anjo adorado, j ouviu?
Tu ser, para, mim a minha nica esperana, entrego a voc meu corao para seguir o teu destino, penso que voc gosta de mim mas meu corao em tuas mos sempre 
esteve e estar at meus ltimos momentos.
Quando eu vi voc meu anjo mais louco e apaixonado por ti eu fiquei quase que lhe declarava a confessar at que, chegou o momento de voc ouvir minhas splicas.
Escrevi para voc para poder desabafar meu corao, no amo a ningum a no ser voc, estimo-te, e quero-te para a minha eterna felicidade.
Peo agora um grande favor que no mostre a ningum esta carta para no, servir de chicanas de um corao apaixonado que eu sou capaz de rebentar o leme de um que 
se rir de mim. Assim como, tenho esperanas de voc responder satisfatoriamente no mostrarei a ningum ficar entre ns dois este segredo.
Peo resposta urgente para eu saber se voc corresponde um corao apaixonado, mas quero uma resposta sincera sada do seu corao para o meu, j ouviu?
A tua resposta servir de blsamo para o meu corao dolorido, j ouviu?
Desculpe os erros e a letra.
Voc h de reparar a mudana de letra  porque eu troquei de pena j ouviu? Fiz esta cartinha sozinho em casa te escrevendo e pensando em voc j ouviu? Sem mais 
aceite um abrao do teu G... que tanto te quer e te estima de todo o corao j ouviu?
Gumercindo." URGENTE

A verdade  que essa carta quase d em briga, em barulho grosso. Foi o caso que quem comeou a escrev-la foi o doutor Filadlfio. Quase ningum o chamava de Filadlfio, 
todos o conheciam como o doutor. Ele escrevia histria em versos, abcs do cais, cantigas. Vivia sempre meio embriagado, resmungando seu saber (estudara um ano num 
colgio de padres), ganhando cinco tostes de um e de outro para fazer cartas para as famlias, para namoradas, esposas e amantes eventuais. Fazia discurso nos batizados, 
nos casamentos, na Inaugurao de todas as bodegas do mercado e no batismo de todos os saveiros. Era admirado na beira do cais, todos lhe davam com que comer e com 
que beber. Uma caneta atrs da orelha, um tinteiro arrolhado no bolso, um guarda-chuva amarelo, um rolo de papel, um livro de Allan Kardec em baixo do brao. Lia 
eternamente aquele livro e nunca chegara ao fim, no passara mesmo da pgina 30 e se dizia esprita. No entanto nunca fora a uma sesso porque tinha um medo pavoroso 
de alma do outro mundo. Sentava-se todas as tardes em frente ao mercado e ali, em cima de um caixo, ele era o intermedirio dos amores do cais, dramatizava doenas 
e falta de dinheiro para famlias de canoeiros, escrevia tambm cartas para Iemanj, sabia da vida de todo o mundo. Quando Rufino chegava, ele ria sua gargalhada 
fina, sacudindo os ombros e perguntava:
- Quem  a nova?
Rufino dizia o nome, ele escrevia a mesma carta de, sempre. E quando via um conhecido avisava:
- Elisa t vaga. O Rufino abriu mo da bicha.
E escrevia uma carta para outro. Assim, ganhava sua vida, o dinheiro para beber. Uma vez, por dez tostes, fez para Jacques uma obra-prima da qual muito se orgulhava. 
Um acrstico que agora Judith levava sobre o peito:
"A mo-te loucamente
D ei-te todo o meu corao
E stimo-te de toda minha alma
U nica que eu amo e estimo
S ou teu at morrer"
Botou o ttulo de adeus, olhou para Jacques com os olhos comovidos:
- Eu era para estar na poltica, menino. Isso de cais no  minha carreira. Na poltica era de ver que nem Rui se aguentava...
Leu o acrstico, em voz alta, com sua bela letra, recebeu dez tostes e disse:
- Se com isso ela no ficar caidinha que nem canoa emborcada, eu lhe restituo os dez tostes...
- Voc o qu?
- Restituo... Dou de novo... Pois ...
Quando chegava a poca das festas em Cachoeira e So Flix, ele se metia no saveiro de um mestre amigo e ia escrever cartas, acrsticos, versos, nas feiras e quermesses 
daquelas cidades, onde h muito sua fama j chegara.
Era o confidente obrigatrio de todos. Muitas vezes respondia ele mesmo a carta que escrevera. Por seu intermdio muito menino nasceu no caa, muita moa se casou. 
Era tambm quem escrevia para as famlias distantes a notcia da morte de marinheiros que no voltavam ao seu porto. Nesses dias bebia ainda mais.
Guma esperava uma hora em que ele estivesse bem desocupado Para lhe falar. O doutor estava com pouca freguesia naquela tarde e palitava os dentes pensando em quem 
lhe pagaria o jantar. Guma se aproximou:
- Boa tarde, doutor.
- Que os bons ventos te acompanhem, rapaz -gostava de falar certo.
Guma ficou calado sem saber entrar no assunto. O doutor o animou:
- Ento voc no vai botar ningum no lugar de Rosa? Tou aqui para preparar uma poesia que nenhuma resiste.
- Era por isso...
- Quem  o peixe?
- T a o que eu no queria dizer...
O doutor se ofendeu:
- Em doze anos aqui, ningum desconfiou de mim. Sempre fui mudo como um cofre fechado a sete chaves.
- No  desconfiana, doutor. Depois o senhor vem a saber...
- Tu h de querer uma epstola bem amorosa, no ?
- Tava querendo que o doutor me rabiscasse uma carta dizendo umas coisas...
- Pois vamos ver a dama de que categoria ?
-  muito bonita.
- Tou perguntando - ficou danado porque ia dizer inquirindo e se esqueceu na ltima hora - se  donzela, mulher da vida ou uma navegante. - Entendia por navegante 
as mulatinhas copeiras que vinham amar os martimos por puro amor, sem esperar outras recompensas.
-  uma moa sria, quero me casar com ela.
- Ento voc tem que arranjar flores de laranjeira para depositar no envelope. E um papel com dois coraes entrelaados.
Guma saiu para ir arranjar o material. O doutor avisou:
- Carta assim custa dois cruzados. Fica, porm, dela se lamber.
Quando Guma voltou ele comeou a escrever, lendo ao mesmo tempo em voz alta. Em lugar do nome da amada botou L... como Guma pediu.
A briga saiu quando ele escrevia aquele trecho: "Minha filha eu penso que o teu corao  uma concha doirada aonde se encerra a nome bondade." Porque ele escrevera 
que o corao era um cofre doirado. Guma discordou do cofre e props concha. Achava que no havia nada mais bonito que concha. Cofre  uma coisa feia. Ora, o doutor 
no admitia discusses. Disse que ou ia cofre ou no ia nada. Ele no escrevia a epstola. Guma arrancou a carta das mos dele, arrancou tambm a caneta e o tinteiro 
e foi para o saveiro. Riscou cofre e botou concha. Depois escreveu ele mesmo, com uma grande alegria, todo o resto da carta. Quando chegou ao fim fez aquela explicao 
sobre as duas letras diversas e voltou para o doutor:
- Tome seus negcios...
- No quer que eu continue?
- No. Mas pago... -E deu os oitocentos ris.
O doutor botou o dinheiro no bolso, fechou o tinteiro espiou para Guma com um olhar srio:
- Voc j viu cofre?
- At j levei um verdo no meu saveiro pra Maragogipe...
- Mas nunca viu cofre doirado?
- No.
- Por isso  que voc diz que concha  mais bonito. Se tivesse visto um cofre doirado, nem discutia.
E a carta foi com concha mesmo. Guma a levou de noite, e no fim da visita disse a Lvia:
- Tenho uma coisa para lhe dar. Mas voc jura que s v l dentro?
- Juro!...
Ele entregou a carta e saiu quase correndo. S parou no cais e viveu uma noite de agonia pensando na resposta que ela lhe daria.
A resposta ela deu verbalmente quando ele voltou l:
- Eu tou preparando o enxoval...
Tios que esperavam tudo do casamento dela. Os tios, quando souberam, brigaram com Guma, disseram que ele no viesse mais a sua casa. Ningum sabia por onde andava 
Rodolfo. Guma estava sem poder apelar para ningum. Quando no estava viajando, passava at tarde da noite vigiando a casa Ola para a ver de repente, dar duas palavras, 
combinar um encontro. E o desejo subindo dentro dele. Afinal se abriu com Rufino. O negro esgravatou o cho com um pedao de pau e disse:
- S vejo um jeito pra coisa...
- Qual ?
- Voc roubar a moa.
- Mas...
- No tem nada. Voc acerta com ela, pega uma noite. Leva no saveiro, veleja pra Cachoeira. Quando voltar tem mesmo  que casar.
- E com quem ela fica l em Cachoeira?
- Com a me da mulher de Jacques -disse Rufino depois de pensar um instante.
- Vamos logo ver o que Jacques diz.
Jacques tinha se casado h uns meses. A sogra morava em Cachoeira. Lvia podia ficar com ela enquanto Guma acertava o casamento, com os parentes. Jacques concordou. 
Guma foi arranjar um meio de combinar com Lvia.
- 

Conseguiu conversar com Lvia, ela estava de acordo, tambm ela o desejava. Combinaram tudo para da a uma semana, na noite do prximo sbado, quando os, tios iam 
fazer uma visita. Ela arranjaria meio de ficar e ento fugiriam. Nessa noite, no "Farol das Estrelas", Guma pagou cachaa para todos e concordou com o doutor que 
cofre em mais bonito que concha. Mas somente cofre doirado.
Era em Junho, ms do vento sul, dos temporais. Em Junho, Iemanj solta o vento sul, que  um vento terrvel.  bem perigosa a travessia da barra nessa poca e os 
temporais so terrveis.  o pior ms para os pescadores e os mestres de saveiro. At os baianos correm perigo no ms de Junho, at mesmo os grandes paquetes.
Nessa noite de Junho o cu se fechou de nuvens, em vo Iemanj veio ver a Lua. O vento sul corria pelo cais frio e mido fazendo os homens se curvarem e se abrigarem 
em capas de oleado. Guma desde cedo estava na esquina da Rua Rui Barbosa. Rufino estava com ele e no tiravam os olhos da casa de Lvia. Viram a quitanda fechar, 
ouviram rudo de talher e bastante tempo depois os tios de Lvia saam. Guma descansou. Ela tinha conseguido no ir. Acompanhou os velhos at o bonde. A velha sorria, 
o velho lia um jornal. Ento Rufino foi buscar Lvia. Guma ficou na esquina. Quando Rufino bateu na porto, uma vizinha chamava Lvia:
- No quis ir, Lvial? Ento venha conversar aqui.
Lva viu Rufino, que batia, falou em voz baixa com ele, virou-se para a vizinha:
- Titia esqueceu a bolsa... Mandou pedir que eu fosse levar.
Entrou, pegou a bolsa e uma sombrinha, ainda falou para a vizinha:
- Est esperando no ponto do bonde. Vou levar a sombrinha tambm, que vai chover.
A vizinha baixou os olhos:
- Eu jurava que ela tinha levado a sombrinha... Vai chover,sim.
E Lvia foi. Atravessaram a praa, desceram o elevador e ela se encontrou diante do cais e do mar, sua nova, ptria. Guma a embuara na capa de oleado, Rufino ia 
na frente para se desviar dos conhecidos, a chuva comeara a cair, miudinha. Junto ao saveiro Rufino se despediu.
Era em Junho e foi no ms do vento sul que Lvia se mudou para o mar. O saveiro partiu contra o vento e ia inclinado, a lanterna vermelha iluminando a estrada do 
mar. Um canoeiro que entrava desejou boa viagem a Guma. Pela primeira vez Lvia respondeu  saudao do mar:
- Boa viagem...
O vento sul levantava seus cabelos, Guma ia curvado no leme, do mar vinha um cheiro sem comparao e de dentro dela uma alegria que a fez cantar para o oceano, Lvia 
saudou o mar com a mais bela cano que sabia e assim o saveiro atravessou o quebra-mar e entrou na boca da barra, porque as belas canes, que as mulheres cantam, 
compram o vento e o mar. Lvia era feliz e Guma, de to feliz, no viu pela primeira vez o temporal que se aproximava, Lvia deitou-se a seus ps e os seus cabelos 
esvoaavam com o vento. Iam calados porque ela j no cantava. Agora s o vento sul assoviava a sua cano de morte.
O temporal veio rpido, como costumam chegar os temporais de Junho. O vento sul estremeceu as velas do "Valente". A luz da lanterna Iluminava os vagalhes da boca 
da barra. No tinham sido poucos os temporais que Guma pegara nos seus anos de mar. Alguns tinham sido trgicos, para muitos dos canoeiros e mestres de saveiro. 
Uma noite ele saiu sozinho, o temporal era to forte que ningum se aventurou para salvar um navio. E jamais tivera medo. Acostumara com a morte, com a idia de 
ficar no fundo do mar. Hoje ser forte tambm esse temporal. Os vagalhes se atiram uns sobre os outros, apostando qual ser o mais alto. No entanto ele j pegou 
temporais piores e jamais teve medo. Porque tem medo hoje, porque teme que a lanterna se apague? Pela primeira vez seu corao bate apressado no meio do temporal. 
Lvia est cansada do dia inteiro de espera, da angstia de tudo poder fracassar no ltimo momento, se os tios fizessem questo de lev-la com eles, e vem-se deitar 
no madeirame do saveiro, aos ps de Guma, que vai ao leme. Ele sente a carcia dos cabelos dela. Muito a deseja e talvez nunca a possua. Talvez sigam os dois para 
as terras de Aioc sem que os corpos se unam. A hora de morrer no chegou porque no se possuram ainda, ainda conservam um desejo nos corpos, que estremecem de 
prazer quando tocam um no outro, apesar da tempestade, do mar bravio em torno. Guma no quer morrer sem a possuir, porque ento h de voltar sempre em busca daquele 
corpo.
Lvia no conhece nada da vida do mar, pergunta com os olhos assustados:
-  sempre assim, Guma?
- Se fosse assim toda a vida, na segunda viagem a gente ficava.
Ento ela se levanta e se aperta a ele:
- A gente pode morrer hoje?
- Pode ser que no... O "Valente"  um barco bom. E eu entendo meu bocado disso. - e apesar da tempestade sorri.
Ela se encolhe mais junto do seu ombro. E murmura:
- Se tu v que a gente vai morrer, vem logo ficar com eu.  melhor.
Esse tambm  o desejo de Guma. Assim morreriam depois de terem sido um do outro, as carnes terem se encontrado, os desejos terem se aplacado. Assim podero morrer 
em paz. Mas ele sabe que se conseguir atravessar a boca da barra e penetrar no rio estar salvo, pois encostar o saveiro numa das margens. Impossvel  seguir viagem 
contra esse vento sul que arrasta o barco para o largo. A lanterna ainda est acesa, a salvao ainda  possvel. A gua fustiga o vestido de Lvia, encharca a roupa 
de Guma, lava a coberta do saveiro. As velas recebem todo o vento e o "Valente" se inclina, quer voltar, termina indo de lado, se afastando cada vez mais para o 
largo, para um mar que no  mais deles,  dos transatlnticos e dos negros cargueiros. Guma sustenta o leme com toda a fora, governando o seu barco apesar da fria 
do vento e das vagas. Lvia se aperta contra a sua cabea, suplica:
- Se a gente vai morrer, vem ficar com eu...
- Talvez a gente se arranje...
Nem uma estrela no cu, essa noite no  para o amor. Tanto assim que no cantam no cais, s o vento assovia. No entanto eles querem se amar nessa noite, que bem 
pode ser a ltima. Tudo  rpido e incerto na vida do mar. At o amor tem pressa. As vagas banham os corpos e o saveiro. Pouco adiantaram em todo esse tempo. Tudo 
que Guma conseguiu foi no ir para o largo, no ser arrastado para fora da barra. Um navio entra. Mil luzes o iluminam. As vagas quebram contra o seu casco e so 
impotentes contra ele. Mas no o so contra o pequeno saveiro de Guma, que por vezes parece desaparecer sob uma onda. S Lvia infunde coragem, s o desejo de t-la, 
de viver para ela, consegue que ele continue. Nunca teve medo de um temporal. Hoje  a primeira vez. Medo de morrer sem a ter possudo.
Conseguiram. entrar no rio. Porm a a tempestade no est melhor. A lanterna do "Valente" se apaga com uma rajada de vento. Lvia tenta acend-la, mas acaba toda 
a caixa de fsforos sem o conseguir. Guma procura uma pequena bacia onde possa encostar o saveiro. So poucas naquele comeo do rio. S mesmo nas terras onde corre 
a assombrao do cavalo branco existe uma. Porm para um martimo  melhor ficar em meio  tempestade que parar ali, ouvir o cavalgar do antigo senhor de engenho. 
Esto perto. J se ouve perfeitamente o tropel da cavalgada estranha. O cavalo passa, volta, os caus batem nas suas costas, os raios desenham seu vulto.
Lvia canta baixinho uma cano que  um convite para Guma. Mas o cavalo branco corre,  melhor morrer na tempestade. Mas como deve ser bom possu-Ia, apertar o 
seu corpo contra o corpo virgem de Lvia! Ela v a bacia  luz do raio que corta a noite:
- Espie, Guma... O barco pode ancorar ali. Que importa o cavalo branco? Ele no deixar que ela morra naquela noite, que era sua noite de npcias. O cavalo branco 
corre, mas Lvia canta e no tem medo dele. Ela teme  a tempestade, o vento sul, o trovo, que  a voz colrica de Iemanj, os raios, que so o brilho dos olhos 
de Iemanj.
E Guma embica o saveiro, para a pequena bacia.
- 

Muitos anos depois um homem (velho do qual ningum sabia mais a idade) contava que no s as noites de lua eram para o amor. Tambm as noites de tempestade, noites 
de clera de Iemanj, eram boas para o amor. Os gemidos de amor eram msica da mais linda, os raios paravam no cu e viravam estrelas, as vagas eram ondas pequenas 
quando vinham bater na areia onde algum amava. Tambm as noites de tempestade so boas para o amor. Porque no amor h msica, estrelas, bonana.
Havia msica nos gemidos de dor de Lvia. Havia estrelas nos seus olhos e os raios riscaram no cu. O grito de orgulho de Guma calou os troves. As vagas vieram 
mansas bater na areia da pequena bacia, mansas como ondas. E eles foram to felizes, foi to bela essa noite escura, sem lua e sem estrelas, to cheia de amor, que 
o cavalo encantado sentiu que lhe tiravam os arreios e seu castigo terminara. E nunca mais trotou pelos caminhos da margem do rio, onde agora os marinheiros vm 
amar.

Marcha nupcial

Os tios disseram que matavam, que faziam e aconteciam. Guma deixara Lvia com a sogra de Jacques e voltou para a Bahia. Rodolfo que, como sempre, aparecera de repente, 
acalmava os tios, impedia que eles dessem parte  polcia. Guma j o encontrou no porto. Rodolfo forcejava por fazer cara feia. No conseguiu. Abraou Guma, avisou:
- Eu quero bem de verdade a minha irm. Voc sabe que eu no presto mesmo, mas quero que ela seja feliz. Veja bem o que voc vai fazer...
Guma falou:
- Eu quero  casar. Se fiz isso, a culpa foi dos velhotes, que no queria...
Rodolfo riu:,
Eu sei, sim. Tou arranjando tudo com eles. Voc tem dinheiro para tratar dos papis?
Guma confiou tudo a Rodolfo, que no dia seguinte avisou que o casamento seria dali a doze dias na igreja de Monte Serrat e no frum. Quem se danou foi o velho Francisco. 
Ele sempre achara que um martimo no deve casar. Uma mulher s serve para atrapalhar a vida deles. Mas no disse nada, que Guma estava um homem e no seria ele 
quem se metesse na sua vida. Mas que achasse bom, que apoiasse, no apoiava. Principalmente agora, que a vida estava to difcil, as tabelas de transporte nos saveiros 
e canoas to baixas... Avisou a Guma que se mudaria:
- Vou procurar ancoradouro ai por qualquer canto...
- Vosmic t  besta... Vosmic vai ficar  aqui mesmo.
- Tua mulher no h de gostar...
- Vosmic t me chamando de galinha. Na sua casa quem mandava em vosmic ou titia?
O velho Francisco resmungou qualquer coisa, Guma continuou:
- Vosmic vai gostar dela.  boazinha mesmo.
O velho Francisco continuou a remendar velas. Falava do prprio casamento.
- Foi uma festo de causar admirao. Veio gente de toda banda pra comer a peixada daquele dia. At teu pai, que era um coisa-ruim que ningum nunca sabia dele, 
apareceu. Maior s o enterro dela.
Ficou pensando, a agulha com que consertava a vela parada na mo:
- No adianta a gente casar. Acaba sempre mal. No  pra agourar, no...
Guma sabia que era assim, que o velho Francisco tinha razo. Sua tia morrera de alegria, quando numa noite de tempestade o velho Francisco voltara. Morrera de alegria, 
mas quase todas morriam de tristeza, os maridos no voltavam.
Por isso o Dr. Rodrigo o olhara espantado quando ele foi convid-lo para o casamento. Guma bem sabia em que o Dr. Rodrigo pensava enquanto o fitava. "tava se lembrando 
com certeza daquele dia no qual Trara morrera, se fora num navio ou numa nuvem no meio do delrio chamando pelas filhas. Raquel recebeu uma boneca,  bem verdade. 
Mas no foi da mo de seu pai, no foi na volta de uma das suas viagens. Guma se lembrava, se lembrava de outros tambm. Ficavam no mar, ficavam num barulho, iam 
para as Terras do Sem Fim. Como pode viver uma mulher no cais sem o marido? Umas lavam roupa para as famlias da cidade alta, outras se prostituem e bebem no "Farol 
das Estrelas". So tristes umas e outras, tristes as lavadeiras que choram, tristes as prostitutas que riem entre copos e canes. O Dr. Rodrigo estendeu a mo e 
sorriu:
- Estarei l para lhe dar o meu abrao... - mas a sua voz vinha sem entusiasmo, sem alegria. Ele pensava em Trara, nos outros tambm que haviam passado pelo seu 
consultrio.
S D. Dulce sorriu com alegria e entusiasmo:
- Eu sei que ainda vai ser mais difcil a vida para vocs. Mas voc gosta dela, no ? Faz bem em casar. Isso no pode ser assim a vida toda. s vezes eu fico pensando, 
Guma... - E havia uma esperana infantil na sua voz. Ela esperava um milagre. Guma sabia, sabiam todos no cais. E a amavam, amavam seu rosto seco, com culos, seu 
corpo magro e envelhecido. E lhe entregavam os filhos por cinco a seis meses. Ela procurava avidamente a palavra que lhes haveria de ensinar, a palavra que realizasse 
o milagre.
Apertou a mo de Guma, pediu:
- Traga ela aqui para eu conhecer...
O doutor Filadlfio meteu os dedos no colete sujo e riu sua risada fininha:
- Vamos tomar um trago pra comemorar... Lembrou-se:
- Se voc tivesse posto cofre, no teria demorado tanto...
Bebeu no "Farol das Estrelas" a sade de Guma e da sua futura. O botequim todo bebeu. Vrios eram casados, outros estavam para isso. Grande parte porm no tivera 
coragem de sacrificar uma mulher  sua vida.
- 

Lvia veio para a casa de D. Dulce. Os tios a visitaram, j estavam conformados. Trouxeram o enxoval e a festa se preparava. O velho Francisco  que ficou pelo beio 
com Lvia. Ficou to contente que parecia que era ele quem ia casar. No cais s se falava no casamento de Guma, que foi num sbado, primeiro no frum, com pouca 
gente (Rufino era padrinho e levou meia hora assinando o nome), depois na Igreja de Monte Serrat, cheia de flores. Ali estava toda gente do cais, que vinha ver Guma 
e a noiva. Todos a achavam bela. Muitos olhavam para Guma com inveja. Num grupo comentavam:
- Teve sorte, que baita mulher.. . Se eu pudesse, ela era minha.
Riram:
- Mas agora  tarde...
Um do grupo falou:
-  s voc esperar um pouco. No demora ela fica viva...
Ningum riu mais. Apenas um marinheiro velho fez um sinal com a mo e disse para os rapazes:
- Essas coisas no se diz.
O que tinha falado baixou a cabea envergonhado e um que era casado sentiu um frio lhe percorrer a espinha como se fosse o vento sul.
Lvia passou linda e Guma ria para todos sem mesmo saber de qu. A tarde fria de Junho caa sobre a cidade. O cais j estava iluminado. Eles desceram a ladeira do 
morro.
Era uma tarde mida e enevoada.. Os homens passavam abrigados em capotes, a chuva caa miudinha, cortante. Os navios, apesar de ainda ser cedo, se iluminaram. Os 
saveiros, de velas arriadas, apontavam com o mastro para o cu cor de chumbo... As guas do mar estavam paradas nessa tarde mida do casamento de Guma. O velho Francisco 
vinha contando a Rufino a histria do seu prprio casamento e o negro, j meio embriagado, ouvia com apartes escabrosos. Filadlfio pensava no discurso que pronunciaria 
dentro em pouco na mesa de Guma e nos aplausos que receberia. A chuva caa sobre o cortejo nupcial enquanto os sinos de Monte Serrat repicavam anunciando a chegada 
da noite. A areia do cais estava encharcada e foi triste a salda de um navio na tarde pardacenta.
No fim do cortejo, D. Dulce conversava com Dr. Rodrigo. Vinham de brao dado como noivos, mas ela j estava um pouco curva e via com dificuldade, apesar dos culos. 
Ele pitava o cachimbo.
- Mundinho morreu... - disse ele.
- Pobre da me..
- Eu fiz tudo. Mas no havia possibilidade de salv-lo aqui. Falta de higiene, de toda espcie de recurso...
- Ele esteve na escola. Era um bom aluno. Iria longe... De qualquer maneira, no havia de demorar l. Essa gente no pode, doutor. Precisam dos filhos para ajudar 
a ganhar o po. Muitos deles so inteligentes que faz gosto... Guma mesmo...
- H muitos anos que a senhora est aqui, no , D. Dulce?
Ela corou um pouco e respondeu:
- Faz muito tempo, sim.  muito triste...
Dr. Rodrigo ficou sem saber se ela se referia  sua prpria histria ou  vida do cais. Ela ia curva e a chuva prateava seu cabelo.
- Por vezes eu fico pensando... J podia sair daqui, arranjar uma cadeira melhor... Mas tenho pena dessa gente que gosta tanto de mim. No entanto eu no sei o que 
dizer a eles...
- Como?
- Nunca foi uma mulher chorando  sua casa? Nunca foi uma recm-viva? Muitas eu vi casar como Lvia. E depois vo l em casa chorando porque o marido ficou no mar. 
Eu no sei o que dizer...
- No faz muito tempo morreu um homem no meu consultrio, se se pode chamar aquilo de consultrio... Morreu com uma bala na barriga. S falava nas filhas, era canoeiro...
- Eu no sei o que dizer a elas... A princpio eu tinha f, ainda era feliz. Acreditava que um dia Deus teria pena dessa gente. Hoje tenho visto tanta coisa que 
at no creio mais. Porm naquele tempo ao menos eu consolava...
- Quando eu vim para aqui, Dulce (ela o olhou quando ele a tratou de Dulce somente, mas compreendeu que ele era seu irmo), acreditava tambm. Tinha f na cincia, 
vinha para beneficiar toda essa gente...
- Hoje...
- Tambm no sei o que lhes dizer. Falar em higiene onde s h misria, falar em conforto onde s h perigo de morte... Penso que fracassei...
- Eu espero um milagre. No sei o qu, mas espero.
Lvia sorria l na frente para D. Dulce. O Dr. Rodrigo suspendeu a gola da capa:
- S mesmo um milagre. Isso prova que voc ainda tem f no seu Deus. J  alguma coisa. Eu j perdi a f na minha deusa.
Ouviram o rudo, das conversas, a risada do velho Francisco ao escutar um comentrio de Rufino, o sorriso feliz de Guma, o chamado amigo de Lvia para que se aproximassem. 
Ento D. Dulce disse:
- No  mais um milagre do Cu que eu espero. J roguei muito aos santos e assim mesmo os homens e as crianas morreram. Mas eu tenho f, sim. Tenho f, Rodrigo, 
nesses homens. Uma coisa me diz que eles  que faro o milagre...
Dr. Rodrigo olhou para D. Dulce. Os olhos da professora eram bondosos e sorriam. O mdico pensou nos seus versos fracassados, na sua cincia fracassada. Olhou a 
gente que sorria em torno dele. Mestre Manuel saltava do Viajante sem Porto com Maria Clara e corria para o casal. Chegara atrasado e ria muito se desculpando. Dr. 
Rodrigo disse:
- Que milagre, Dulce? Que milagre? Ela estava transfigurada, parecia uma santa. Os olhos doces corriam para o mar. Uma criana veio e ela descansou a mo descarnada 
na sua cabea:
- Um milagre, sim.
A criana ia agora com eles na noite mida que se aproximava. Dulce continuou a falar:
- Voc nunca imaginou esse mar cheio de saveiros limpos, com martimos bem alimentados, ganhando o que merecem, as esposas com o futuro garantido, os filhos na escola 
no durante seis meses, mas todo o tempo depois indo aqueles que tm vocao para as Faculdades? J pensou em postos de salvamento nos rios, na boca da barra? As 
vezes eu imagino o cais assim...
A criana ouvia silenciosa e sem compreender. A noite mida, o mar parado. Tudo triste e sem beleza. A voz de Dulce.
- Um milagre desses homens, Rodrigo... Assim como a Lua nessa noite de Inverno. Clareando tudo, embelezando tudo,
Rodrigo olhou a Lua que subia no cu. Era cheia e iluminava tudo, transfigurando o mar e a noite. As estrelas surgiram, uma cano veio do forte velho, os homens 
no iam mais curvados, o cortejo nupcial era belo. A umidade da noite desapareceu, ficou o frio seco. A Lua clareou a noite do mar. Mestre Manuel ia abraado com 
Maria Clara e Guma sorria para Lvia. Dr. Rodrigo olhou para o milagre da noite. A criana sorria para a Lua. Dr. Rodrigo se apercebeu ento do que Dulce dizia. 
Botou a criana no brao. Era verdade. Um dia aqueles homens realizariam um milagre assim. DIsse baixinho a Dulce:
- Eu acredito.
O cortejo entrava na casa de Guma. O velho Francisco gritava:
- Entra, gente, que a casa  de todos.  pobre mas  do corao.
Quando Dr. Rodrigo e D. Dulce passaram, ele perguntou:
- Falavam do casrio prximo?
Dr. Rodrigo respondeu:
- A gente falava de um milagre.
- J se foi o tempo dos milagres... -riu Francisco.
- Ainda no - atalhou D. Dulce -Mas o milagre agora  outro.
A lua entrava pela janela.
- 

Jeremias trouxera o violo. Outros tinham trazido harmnica e o negro Rufino trouxera sua viola tambm. Ali estava Maria Clara com sua voz. E cantaram as canes 
do mar, desde aquela que diz que a noite  para o amor (e todos sorriam para Guma e Lvia) at a que dizia que  doce morrer no mar. E danaram tambm, todos quiseram 
danar com a noiva, beberam cachaa, comeram os doces que D. Dulce tinha mandado e a feijoada que o velho Francisco, ajudado por Rufino, tinha preparado. Riam muito, 
esquecidos da noite mida, do vento sul, do ms de Junho. Breve seria So Joo e as fogueiras crepitariam no cais.
Guma esperava que eles sassem. Estava como os tios de Lvia nos primeiros tempos. Desde aquela noite em que a raptara e a possura na tempestade no mais a tivera 
nos seus braos. E desde aquele dia seu desejo no fizera seno crescer. Olhava os outros que riam, bebiam e conversavam. Decididamente, eles no iriam embora to 
cedo. Mestre Manuel contava uma histria de brigas:
- Foi um sopapo e tanto. Deu um tangolornango nele, o homem se desmanchou que nem espuma...
Depois pediram uma embolada a Rufino. Lvia descansou a cabea no ombro de Guma. Francisco pediu silncio. Rufino pinicou o violo, sua voz ressoou na casa:
"Dinheiro  quem rege o mundo.
Quem rege o mundo  dinheiro."
A embolada continuou. A voz do cantador era rpida como ondas no temporal. Os versos corriam uns sobre os outros:
"Cav no cho  buraco gancho de pau  furquia, desate e tome a marr, e marre o cabelo, Maria."
Olhava para as cabrochas na sala e cantava para elas que ele gostava de variar de mulher e as mulheres gostavam de rolar na areia com ele. Dele se dizia no cais 
que era to bom canoeiro que "metia a canoa na ora, apertava o remo, ela embicava". E isso era um gesto de bravura raro, enfiar a canoa de proa na gua. Proeza 
que s os velhos canoeiros fazem.
"Foi ele que me ensinou namorar - qui eu no sabia.
A ona pega no sarto e a cobra pega no bote.
E o vaqueiro pra s bom tira a noiva do lote."
Riam na sala, mulatas requebravam os olhos para Rufino. Mestre Manuel acompanhava a msica da embalada batendo as mos nos joelhos. Rufino cantava:
"Quem tem ferida  quem geme
Quem geme  quem sente a d.
Ferreiro  quem bate o malho
Sacristo  quem bate o sino"
Pinicava o violo. Lvia gostava, mas preferiria sem dvida uma cano, uma daquelas velhas canes que s so cantadas no cais. Pouco lhe dizia a embolada. Muito 
tem sempre que dizer uma cano. Rufino terminava:
"Eu sou como a d de dente
Quando comea a pinic.
Sem pimenta fao o molho,
Sem farinha molho o cardo.
Eu no sou olho de cana
Que morre e toma a viv."
Depois de todos esses gabos, botou o violo no cho, pinicou os olhos:
- Vamos danar minha gente, que o dia  de alegria... Danaram. As harmnicas se desesperavam na msica, eram como ondas que iam e vinham. Mestre Manuel contava 
para o Dr. Rodrigo:

- O tempo t brabo, doutor. A gente t cortando uma volta nessas viagem. Nesse Inverno vai ficar muita gente com Janana...
O barulho da msica se estendia at o cais prximo. Seu Babau entrou, trazia umas garrafas de bebida, era o seu presente para os noivos. Fechara o "Farol das Estrelas", 
ningum fora l naquela noite. E foi logo pegando uma dama e voltando na sala. G samba ia forte, o cho reboava com o sapateado. Depois Maria Clara cantou. A sua 
voz penetrou pela noite, corno a voz do mar. Harmoniosa e profunda. Cantava:
"A noite que ele no veio, foi de tristeza pra mim..."
Sua voz era doce. Vinha,do mais profundo do mar, tinha como seu corpo um cheiro de beira de cais, de peixe salgado. Agora a sala a ouvia atenta. A cano que ela 
cantava era bem deles, era do mar.
"Ele ficou nas ondas ele se foi a afogar."
Velha moda do mar. Porque s falam em morte, em tristeza essas canes? No entanto o mar  belo, a gua azul e a lua amarela. Mas as cantigas, as modas do mar, so 
assim tristes, do vontade de chorar, matam a alegria de todos.
"Eu vou para outras terras que meu senhor j se foi nas ondas verdes do mar."
Nas ondas verdes do mar vo todos eles um dia. Maria Clara canta, ela tambm tem um homem que vive sobre as guas. Mas ela nasceu no mar, velo dele e vive dele. 
Por isso a cano no lhe diz novidade, no faz estremecer seu corao como o de Lvia:
"nas ondas verdes do mar"
Para que Maria Clara canta assim na noite do seu casamento? -pensa Lvia. Ela  como uma inimiga, sua voz  como a tempestade. Uma velha de coque, que perdeu o marido 
h distantes anos, chora na sala. As ondas do mar levam tudo. O mar, que tudo lhes d, tudo lhes toma. Maria Clara diz:
"Eu vou para outras terras..."
So para essas terras que vo os martimos. Terras longnquas de Aioc. Guma sorri com a boca entreaberta. Lvia descansa no seu ombro e pela primeira vez teme pela 
vida de seu homem,. E se um dia ele ficar no mar, que ser dela? A cano diz que todos ficaro um dia nas ondas verdes do mar. E na sala ningum discorda, ningum 
se revolta sequer. S Lvia  que solua alto, que quer fugir, levar Guma para bem longe dali, para a fim do mundo, para um lugar onde no ouam o chamamento das 
"ondas verdes do mar".
Lvia mal respira. A cano acaba. Mas na noite fria de Junho a sua voz se prolonga para os navios, o cais, os saveiros. E fica batendo dentro de todos os coraes. 
E para esquecer vo todos danar, os que no danam vo beber.
Maneca Mozinha suspende o clice grosso e grita:
- ta pinga marvada. Int parece chumbo.
A chuva cal l fora. As nuvens cobriam a lua.
- 

Sua marcha nupcial fora aquela cano de desgraa que resumia a vida do cais. "Ele se foi a afogar", podia qualquer mulher dizer quando o marido saa. Destino triste 
o dela. Seu irmo aparecia e desaparecia, ningum sabia dele. No viera ao seu casamento, havia dias que ela no o enxergava. Fora quem tratara dos papis, mareara 
a data, depois desaparecera. Ningum sabia da vida dele, onde morava, onde comia, onde repousava a bela cabea de cabelos escorridos. O marido ia diariamente a se 
afogar nas ondas verdes do mar. Um dia em vez dele viria seu corpo, ele navegaria nas Terras do Sem Fim de Aioc.
Lvia. tira o vestido, enxuga as lgrimas. Seu corpo agora no tem mais desejo de amor. No entanto no est saciado ainda, s sentiu seu homem uma vez. E hoje se 
casaram, hoje  dia de se amarem e ela est triste, a cano tirou o desejo que havia no seu corpo. Pensaria no corpo de Guma chegando das ondas quando o abraasse. 
Pensaria no marido indo a se afogar. Ela s teria desejo, s o amaria completamente, se pudesse fugir para bem longe do mar nessa noite. Ir para as terras agrestes 
do serto, fugir da fascinao das ondas. Os homens de IA, as mulheres de l, vivem pensando no mar. No sabem que o mar  senhor brutal que mata os homens. Diz 
uma cantiga do serto que a mulher de Lampio, que  o senhor daquilo tudo, chorou porque no pde ter um vestido da fumaa do vapor. O vapor  do mar e no mar ningum 
manda, nem mesmo um cangaceiro corajoso como Lampio.
O mar  senhor de vidas, o mar  terrvel e  misterioso. Tudo que vive no mar  cercado de mistrio. Lvia se esconde sob as cobertas e chora. De agora em diante 
seus dias sero trgicos. Assistir a Guma ir a se afogar diariamente nas ondas verdes do mar.
E ento toma uma sbita resoluo. Ir sempre com ele. Ser martima tambm, cantar as canes do mar, conhecer os ventos, as coroas de pedra do rio, os mistrios 
do mar. Sua voz aplacar tambm as tempestades como a de Maria Clara. Correr apostas no seu saveiro, vencer com sua msica. E se um dia ele for para o fundo das 
guas, ela Ir com ele e faro juntos a viagem para as terras desconhecidas de Aioc.
Guma de fora do quarto pergunta se j pode entrar. Ela enxuga os olhos e manda que ele entre. A luz da vela se apaga, crescem os ais de amor na madrugada. Ele ir 
a se afogar, ficar boiando nas ondas verdes do mar. Ela solua e o ama, se possuem loucamente como se a morte estivesse rondando o leito, como se fosse a ltima 
vez.
A madrugada rompe e Lvia jura que seu filho no ser martimo, no navegar nos saveiros, no ouvir essa msica, no amar o mar traioeiro. Na madrugada um preto 
canta que o mar  doce amigo. O filho de Lvia no ser do mar. Ser um homem da terra e ter vida calma, sua mulher no sofrer o que Lvia est sofrendo. No ir 
a se afogar nas ondas verdes.
A madrugada rompe e Guma pensa que seu filho ser um marinheiro que dominar um saveiro melhor que mestre Manuel, andar numa canoa melhor que Rufino e viajar um 
dia num navio enorme, para terras mais distantes ainda que aquelas onde anda Chico Tristeza. O mar  doce amigo, ele ir no mar.
A madrugada rompe e novamente se elevam os ais de amor.

O PAQUETE VOADOR

Roteiro do Mar Grande

Meses maus para o cais. Os saveiros poucas viagens faziam, as tabelas de carregamento muito por baixo, muitos iam pescar para cavar o dinheiro da bia. Guma se movimentava, 
levava as cargas que apareciam, topava qualquer parada. Lvia quase sempre o acompanhava. Fiel ao que prometera a si prpria, procurava estar sempre junto ao marido. 
Porm, uma noite de temporal Guma lhe confessou que a viagem se tornava muito mais difcil com ela ao lado. Ele, que nunca tinha medo, sentia um verdadeiro terror 
quando a tarde se anunciava e eles estavam no mar. A vida dela lhe trazia aquele terror, aquele medo dos ventos e das tempestades. Ela ento espaou mais as suas 
viagens, s o acompanhava quando ele estava de bom humor. Por vezes at era ele quem a convidava, sentindo o desejo nos olhos dela:
- Tu quer ir comigo, negra?
Tratava-a de negra carinhosamente. Ela ia se preparar sorridente, e, se ele perguntava porque ela gostava de acompanh-lo, ela nunca dizia que temia pela vida dele. 
Dizia que era ciumenta e tinha medo que nos portos ele se metesse com mulheres. Guma sorria, puxava uma fumaa do cachimbo, falava:
- Voc  tola, negra. Fico no barco pensando em voc.
Quando no ia, quando ficava em casa sozinha com o velho Francisco, ouvindo velhas histrias do cais, sabendo de naufrgios, mortes e afogados, o terror a invadia. 
Sabia que o marido estava no mar, em cima de uma frgil embarcao, ao sabor dos ventos. Podia no voltar ou voltar cadver, carregado numa rede por dois homens 
possantes. Podia voltar tambm com o corpo cheio de siris, chocalhando, como seu Andrade, cuja histria o velho Francisco est contando enquanto remenda velas, ajudado 
por Lvia.
Ela nunca pudera se esquecer daquela cano que Maria Clara cantara no dia do seu casamento. "Ele se ia a afogar nas ondas verdes do mar." Assistia agora, sem poder 
fazer um gesto, sem o poder deter, ao marido ir pela manh ou pela noite ao encontro da morte. Outras mulheres d cais olhavam indiferentes os maridos que partiam. 
Mas aquelas haviam nascido ali, haviam assistido  chegada do corpo do pai, de um irm o, de um tio. Sabiam que era assim, que era a lei do cais. H no cais qualquer 
coisa ainda pior que a misria das brigas, a misria dos campos: h a certeza de que o fim ser a morte no mar, numa noite inesperada, numa noite de repente. Elas 
sabiam disso, era uma sina milenar, era um destino traado. Ningum se revoltava. Choravam os pais, arrancavam os cabelos quando os maridos ficavam, se atiravam 
com fria ao trabalho ou  prostituio at que os filhos crescessem e se fossem tambm por sua vez. Elas eram do cais, traziam os coraes j tatuados.
Mas Lvia no era do cais. Viera para ali por cansa de um homem a quem amava. E temia por ele, procurava um meio de salv-lo, de quando nada, morrer como ele, no 
ter que o chorar. Ele ia a se afogar, ela queria ir tambm. O velho Francisco s sabe casos do mar. Conta histrias o dia todo, mas suas histrias so cheias de 
naufrgios, de tempestades. Narra com orgulho a morte corajosa dos mestres de saveiro que conheceu, cospe quando fala no nome de Ito, o que para se salvar deixou 
morrer quatro pessoas no seu saveiro. Cospe com nojo. Porque uni saveireiro nunca faz isso. So assim todas as histrias que o velho Francisco conta. Elas no consolam 
o corao de Lvia, o amarguram ainda mais, fazem com que muitas vezes seus olhos se encham de lgrimas. E o velho Francisco tem sempre novas histrias para contar 
novas desgraas para anunciar. Lvia muitas vezes chora, muitas vezes foge para o seu quarto para no mais ouvir. E o velho Francisco, que j est comeando a caducar, 
continua a contar para si prprio, sbrio de gestos sbrio de palavras tambm.
Por isso mesmo Lvia gostou quando Esmeralda, amsia de Rufino, veio morar junto dela. Era uma mulata bonita, peituda, ancas rolias, um pedao de mulher. Falava 
muito tambm, ria de mais, unia gargalhada escancarada, no ligava  sorte de Rufino, que tinha um pegadio danado com a mulata. S falava em vestido novo, em brilhantinas, 
em sandlias que vira nas vitrinas, mas distraia Lvia, tirava da sua cabea aquela idia de morte. Tambm Maria Clara vinha s vezes, mas Maria Clara, que nascera 
e sempre vivera nos saveiros, amava o mar sobre todas as coisas e mestre Manuel mais ainda que o mar. Tudo que desejava era que ele continuasse a ser o melhor mestre 
de saveiro daquelas bandas, lhe fizesse um filho e fosse valentemente corri Iemanj quando sua hora soasse.
Acabada a aula, D. Dulce passava por l, dava dois dedos de prosa, mas quem divertia mesmo era Esmeralda, com sua voz engraada, os requebros do seu corpo, a sua 
conversa sem sentido. Vivia tomando coisas emprestadas, entrando pela casa adentro (o velho Francisco lambia os beios, piscava o olho, ela sorria: "Olha a graa 
da arraia velha ... "), perguntando por tudo. Rufino andava com a canoa rio acima, rio abaixo, levava uma noite em casa, uma semana fora, ela nem ligava. Um dia 
em que Lvia chorava, ela disse:
- Voc t bestando. Ligando muita importncia a homem... Deixe eles ter suas mulher por l. Faa como eu... No ligo.
- No  por isso no, Esmeralda. Tenho medo  que numa viagem ele morra.
- E ns todos no tem que morrer? Eu  que no me abalo. Se o meu morrer, arranjo outro.
Lvia no compreendia. Se Guma morresse, ela morreria tambm, porque, alm da falta que sentiria dele, no era mulher para trabalho duro e no pretendia vender seu 
corpo para ganhar o que comer.
Esmeralda no concordava. Se Rufino morresse, arranjaria outro, continuaria sua vida. No era o primeiro que tinha. Um ficara nas ondas tambm, seu marido se fora 
num navio cargueiro para outras plagas, o terceiro se mudara numa canoa com uma noiva. Ela no ligava, ia vivendo. Sabia l o que Rufino faria um dia, que fim havia 
de levar? Queria era brilhantina para escorrer o cabelo, sandlias para pisar no cais, vestido bonito para cobrir suas ancas. Lvia ria, ria de morrer. Esmeralda 
a divertia. Ainda era uma sorte t-la por vizinha. Se no, como seriam os seus dias, ouvindo histrias trgicas do velho Francisco, pensando no marido que se fora 
a afogar?
- 

Mas quando Rufino chegava com a canoa, Esmeralda era outra. Sentava nas pernas do negro, gritava para Lvia:
- Vizinha, meu moreno chegou. A bia hoje vai ser melhorada...
Rufino tinha rabicho por ela, havia at quem dissesse que ela mandara fazer feitio forte, escrevera bilhetes a D. Janana. Rufino a levava ao cinema, a circo quando 
havia circo, por vezes iam danar no Oceano Futebol Clube, que no tinha time de futebol, mas, em compensao, dava baile aos sbados e domingos para a gente do 
cais. Pareciam felizes e Lvia muitas vezes invejava Esmeralda. Mesmo quando Rufino bebia e distribua bofetadas em casa. Esmeralda no temia por ele. Tinha o corao 
descansado.
Certas vezes esperava Guma num dia e passava o tempo todo no cais a distinguir, entre as velas que entravam, a do "Valente". Acontecia de uma ser parecida com a 
dele, o seu corao saltava de alegria. Pedira a Rufino que lhe tatuasse no brao rolio o nome de Guma e o do "Valente". E espiava para o brao, espiava para o 
mar, at que via que se enganara, que no era o seu saveiro que vinha. Tocava a esperar outra vela. Ser ele quem aponta agora? E a esperana enchia seu corao. 
No era ainda. Ocasies passava a tarde e parte da noite nessa espera. E quando ele no vinha na data marcada, atrasado por uma coisa ou outra, ela voltava para 
casa com o corao amargurado. No adiantava Esmeralda dizer:
- Desgraa se sabe logo. Se tivesse sido alguma coisa, a gente j sabia...
No adiantava tambm o velho Francisco rebuscar na memria cansada casos de demora de homens; que, s vezes, passavam meses sem ningum saber onde e um dia apareciam. 
Ela no dormia, andava no quarto de um lado para outro, muitas vezes ouvindo (as casas eram parede-meia) os gemidos de amor de Esmeralda se torcendo nos braos de 
Rufino. No dormia e lhe parecia ouvir na voz do vento a voz de Maria Clara cantando:
"Ele ficou nas ondas ele se foi a afogar.
Eu vou por outras terras que meu amor j se foi nas ondas verdes do mar."
E se o sono a vencia, se o cansao a jogava na cama, ento seus sonhos eram pesadelos, cheios de vises de tempestades e de corpos com siris chocalhando.
S descansava quando ouvia sua voz no meio da noite ou nas manhs claras. Ele vinha gritando numa alegria infantil:
- Lvia! Lvia! Vem espiar o que eu trouxe pra voc...
Mas quase sempre quem olhava primeiro era Esmeralda, que aparecia na porta da sua casa, abraava Guma com fora, roando os seios no seu corpo, e perguntando:
- E pra mim no trouxe nada?
- Pra voc  Rufino quem traz...
- Aquilo? Nem um rabo de peixe seco se lembra de trazer...
Lvia aparecia, os olhos j enxutos, e nem acreditava que fosse ele, tantas e tantas vezes o vira morto na noite passada.
Uma sexta-feira Guma a convidou:
- Tu quer ir comigo amanh, negra? Vou levar uns tijolos pro Mar Grande. Manuel vai tambm. E a gente vai tirar uma diferena que a gente tem...
- Diferena de qu ? - perguntou Lvia com receio de briga.
-  uma aposta que a gente fez. Uma vez a gente, apostou corrida, ele ganhou. Faz tempo. Agora a gente vai ver de novo. E tu vai cantar para o "Valente" correr...
- E adianta cantar? -sorriu ela.
- Tu no sabe? O vento ajuda quem canta melhor. Da outra vez ele s ganhou porque Maria Clara ia cantando um troo bonito. Eu no tinha ningum pra cantar.
Agarrou a mulher pela cintura, reparou nos olhos dela:
- Porque  que voc, chora quando eu no tou aqui?
- Mentira. Quem contou?
- Esmeralda, O velho Francisco tambm j me alertou. Tu tem alguma coisa?
Os olhos dela eram sem mistrio. Lmpidos e claros como a gua, a gua clara do rio. Lvia passou as mos nos cabelos longos de Guma:
- Eu, se tivesse em mim, ia toda vez com voc no saveiro...
- Tu tem medo de mim? Eu sei manobrar um barco.
- Mas todos ficam...
- Tambm l em cima - apontava para a cidade -se morre,  assim mesmo.
Lvia o abraou. Ele a deitou na cama, amassou seus lbios com a pressa que sempre tinha, a pressa dos homens que no sabem onde estaro amanh. Mas Esmeralda ia 
entrando e perturbou com sua voz a carcia de Guma.
Guma saiu, foi carregar o saveiro. Pela tardinha Lvia se vestiu melhor e tomou o elevador. Ia visitar os tios. Estava satisfeita porque no dia seguinte viajaria 
com Guma, passaria dois dias com ele, metade dos quais em cima do saveiro, pois de Mar Grande iriam a Maragogipe.
No fim da tarde Guma voltou. Sabia que Lvia tinha sado, por isso demorara mais. Tomara um trago no "Farol das Estrelas" (Seu Babau estava capengando de uma perna, 
o doutor Filadlfio escrevia uma carta para Maneca Mozinha e bebia copos e copos) e agora parara para conversar com Esmeralda, que toda bonita limpava na janela,
- No quer entrar, vizinho?
- Tou bem, vizinha.
Ela convidou com um sorriso:
- Entre. Sentado fica mais  vontade.
Ele relutou. Estava bem ali mesmo, no demoraria a entrar em casa, Lvia no devia tardar. Esmeralda falou:
- T com medo dela ou de Rufino? Rufino t viajando...
Guma a olhou espantado. Era verdade que ela o abraava roando os seios nele, que tomava umas intimidades, mas nunca se atirara assim. Ela estava convidando, sem 
dvida. Era uma mulata e tanto, mas era amsia de Rufino. Rufino to seu amigo, e ele no podia trair nem Rufino nem Lvia. Guma resolveu fazer que no entendia, 
mas nem foi preciso. Lvia vinha subindo a ladeira. Esmeralda disse:
- Fica para outro dia...
- T bem.
Agora ele queria amor, amor que no pudera ter pela manh, que Esmeralda impedira, amor que no pudera ter agora, que a amizade impedira. A amizade ou Lvia que 
subia? Guma pensava consigo mesmo. Esmeralda era uma mulata de encher a boca de gua. E estava se dando a ele, se oferecendo. Era amsia de Rufino, Rufino era amigo 
de Guma, lhe prestara favores, era seu padrinho de casamento. Demais Guma tem a mulher mais bela do cais, no precisa de outra. Tem uma mulher que o ama. Para qu 
o corpo rebolante de Esmeralda? As ancas de Esmeralda balanam, seus seios mulatos pulam no vestido. E ela tem olhos verdes,  mulata de olhos verdes. Que faria 
Rufino se Esmeralda o trasse com Guma? Mataria os dois, com certeza, abriria depois no mar sem porteira. Lvia tomaria veneno. Os olhos de Esmeralda so verdes. 
Lvia avisa:
- A comida est esfriando.
- Que esfrie.
Ele a leva para o quarto:
- Me mostre uma coisa.
Ela estremece na cama. Ele tem a mulher mais bela do cais. Nunca trair um amigo.
A manh  bela, cheia de sol. Outubro  o ms mais belo desta beira do cais. O sol no  quente ainda, as manhs so claras e frescas, so manhs sem mistrio. Dos 
saveiros prximos vem um cheiro de fruta madura que chega para o mercado. Seu Babau compra abacaxis para fabricar cachaa gostosa para os fregueses do "Farol das 
Estrelas". Uma preta passa com latas de mingau. Guma vende mungunz para um grupo. O velho Francisco torna dois tostes de mingau de puba. Um saveiro parte carregado. 
Barcos vo pescar, os pescadores nus da cintura para cima. O mercado comea a se movimentar, descem homens pelo elevador que liga as duas cidades, a alta e a baixa. 
Mestre Manuel j est no cais. Maria Clara veste chita vermelha, uma fita nos cabelos. O velho Francisco, que madruga, sempre, vem para junto deles:
- Vai sair, mestre?
- Tou esperando Guma. T casadinho de novo, chega tarde...
- J faz cinco ms...
- Parece que foi ontem -disse Maria Clara.
- Eles vive bem, isso  que vale.
Vinham chegando. Lvia com os olhos ainda empapuados da noite sem sonhos. Guma com os braos cansados, certo de perder a corrida:
- A aposta t perdida. Eu tou naufragado.
Ela riu sem maldade, apertou o brao do marido:
- T bom...
Mestre Manuel saudou:
- Tu no t com pressa...
Lvia conversava agora com Maria Clara, que dizia:
- Voc t engordando muito. Olhe esse negcio.
- No, no  nada.
- Olhe que vem por a um mestre de saveiro.
Lvia se ruborizou:
- Nem mestre de saveiro nem canoeiro. A gente no t cuidando disso... O dinheiro mal chega para dois.
Maria Clara confessou:
-  isso mesmo. Mas eu digo que logo que Manuel quiser eu tambm quero. S tenho medo  que saia mulher...
Mestre Manuel j tinha embarcado. O velho Francisco foi andando para um grupo no mercado. Mas antes avisou a Guma:
- Na volta da ilha, ganhe terreno. Manuel no  forte nessas manobras.
- T certo - Porm Guma tinha certeza de perder. Faziam apostas no mercado. Muitos apostavam em mestre Manuel, mas Guma, desde o salvamento do "Canavieiras", e principalmente 
depois do caso de Trara (que logo se espalhou pelo cais), tinha seus admiradores.
O Viajante sem Porto saiu na frente. O vento era favorvel, ele se adiantou logo, tomando o caminho do quebra-mar. Guma acabava de levantar a ncora do "Valente". 
Lvia se segurava nas velas. De perto do quebra-mar vinha a voz de Maria Clara:
"Corre, corre, meu saveiro, corre, corre, com o vento."
No quebra-mar o Viajante sem Porto esperou. Dali comeava a aposta. O "Valente" ia saindo nas primeiras manobras. No cais um grupo espiava. O saveiro de Guma sentiu 
o vento, as velas enfunaram, breve ele chegou ao lado do Viajante sem Porto. E saram os dois. Mestre Manuel ia um pouco na frente, Maria Clara cantava, Guma sentia 
os braos cansado corpo cansado. Lvia veio e se deitou ao lado dele. O vento levava a voz de Maria Clara:
"Corre, corre, meu saveiro, corre, corre, com o vento."
Lvia cantou tambm. S a msica compra o vento e o mar. E eram vozes belas, vozes do cais que se ofertava a ele. Lvia cantava:
"Corre, corre, meu saveiro, corre, corre mais que o vento."
Acaracia o "Valente". A manh clara pe reflexos na gua azul. Guma aos poucos vai deixando de sentir o cansao da noite de amor e ajuda ao saveiro, ajuda ao vento. 
Vo quase parelhas agora e mestre Manuel fala:
- Vai ser dura, rapaz...
A ilha de Itaparica  uma mancha verde no mar azul to raso em certo ponto que se vem as pedras no fundo. Deve ter conchas tambm. Por causa de concha e cofre, 
quase que uma vez Guma briga com Filadlfio. Andava namorando Lvia, s pensava em a possuir naquele tempo. E hoje pensar por acaso em outra coisa? Saiu de uma 
noite de amor, e nessa aposta no pensa em ganhar, pensa  em t-la novamente nos braos, em a apertar com fora. Guma a chama. A voz de Maria Clara atravessa a 
boca da barra.
- Deita aqui, Lvia.
- S depois de voc ganhar.
Ela sabe que, se deitar ao lado dele, ele no pensar no leme, na corrida, no bom nome do saveiro. S pensar no amor.
Os saveiros vo na mesma reta. O vento os leva, os homens ajudam. Qual chegar primeiro? Ningum o sabe, Guma est dando tudo, Maria Clara canta. Lvia volta a cantar. 
E o "Valente" avana mais um pouco. Mas mestre Manuel se curva no Viajante sem Porto e toma a dianteira.
Agora  a hora da curva. Bem aqui h uma coroa de pedra. Mestre Manuel maneja para a direita, para ganhar distncia para a curva. Vai bem na frente. Mas Guma faz, 
coisa que ningum nunca ouviu dizer, a curva fechada, bem por cima da coroa, que chega a roar no casco do barco. E, quando mestre Manuel volta com o seu saveiro, 
o de Guma j ganhou distncia e no miservel cais de Mar Grande os pescadores sadam o heri de to difcil faanha. Nunca viram daquilo, nunca viram uma curva to 
em cima das coroas. S um velho pescador discorda:
- Ele ganhou, mas o outro  melhor marinheiro. Um marinheiro no deve jogar seu barco to em cima das pedras.
Mas os moos no querem ouvir as palavras sensatas e aplaudem Guma. O velho resmunga e sai. O saveiro atraca. Logo depois chega mestre Manuel e ri:
- T igual. Naquele dia eu ganhei. Agora voc. Um dia deste a gente tira a teima.
Bota a mo no ombro de Guma:
- Mas te lembra sempre que um homem no faz duas, vezes o que voc fez hoje. Na segunda vez fica.
Mas Guma no ouve:
- Coisa mais fcil...
Lvia sorri, Maria Clara troa:
- E o que vem a haver de fazer isso?
Lvia fica sria e pensa que seu filho nunca far dessas coisas. No entanto, mesmo sem querer, ela acha belo, acha um destino digno de um homem.

Guma e mestre Manuel ficaram descarregando os saveiros. Depois iro carreg-los de novo e partiro para Maragogipe, donde volvero com charutos e fumo para a Bahia. 
Pegaram essa viagem juntos, uma viagem boa nesses meses maus de pouco movimento.
Maria Clara e Lvia, saem pela estrada do Mar Grande que  a praia. As casas so de palha. Passam homens que vendem peixe, as calas arregaadas, os braos tatuados. 
Aqui em Mar Grande existem candombls afamados, pais-de-santo respeitados. H algumas casas de pedra na zona dos veranistas.  terra dos pescadores. Daqui saem todas 
as manhs os barcos para a pescaria e voltam  tarde l pelas quatro horas. Antigamente levavam e traziam veranistas da cidade. Hoje h uma lancha que faz esse servio.
 Outubro e ainda venta de sudeste. Mas quando o Vero chegar cair o fresco, que  o nordeste fraco. Os veranistas, quando vm, tm que saltar nos braos dos pescadores 
atravs dos arrecifes, por onde a lancha no se afoita. S os saveiros penetram entre eles. Em nenhum lugar os temporais so fortes como nessa zona do Mar Grande.
Nisso pensa Lvia enquanto atravessa a praia, nica rua daqui. Maria Clara vai calada, de quando em vez apanha uma concha na praia.
-  para fazer moldura para retrato - explica.
De repente topam com as ciganas. J passara por elas um homem batendo caarolas. Era um cigano, Agora vm as mulheres num grupo de quatro. Sujas, falando numa lngua 
desconhecida, parecem discutir entre si, Maria Clara pergunta:
- Vamos ler a mo?
- Para qu? - estranha Lvia, que tem medo. Mas a outra corre para as ciganas, sem ouvir o que Lvia diz. Uma velha toma a mo de Maria Clara e avisa:
- Bota quatrocentos ris que adivinho tudo, presente, passado, futuro.
Outra pede a Lvia:
- Quer que eu leia a sua sorte?
- No.
Maria Clara anima:
-  s um cruzado, tola, fica sabendo de tudo...
Lvia entrega o nquel e a mo. A velha est dizendo a Maria Clara:
- Vejo uma viagem. A senhora vai viajar muito. Vai ter muitos filhos...
- Janana lhe oua...-ri Maria Clara.
A outra cigana, que est grvida, com grandes brincos nas orelhas, adverte Lvia:
- T atravessando um tempo ruim de dinheiro, mas vai ser pior. Depois seu marido vai melhorar muito, mas com muito perigo.
Lvia est assustada. A cigana continua:
- Mas se me der dez tostes eu conjuro o perigo. Lvia est sem dinheiro, pede a Maria Clara. Entrega  cigana, que resmunga uma reza estranha. E o grupo parte, 
recomeando naquela lngua desconhecida a discusso interrompida. Maria Clara ri:
Ela disse que eu vou ter uma dzia de filhos. Manuel vai ficar danado. Eu bem que queria, botava tudinho no Viajante, ia por ai fora,
Lvia est ouvindo as palavras da cigana:
Vai ser perigoso... Em que se vai meter Guma, assim to perigoso? Com certeza ela se referia  prpria vida do cais. A praia do Mar Grande se estende infindvel. 
Elas voltam para o porto. Os saveiros j esto descarregados. Elas agora fazem comida, fritam peixe. Guina e mestre Manuel riem, cheirando o ar donde vem o cheiro 
de peixe frito. Depois voltam a carregar os saveiros,
E  noite saem. O mar continua calmo no roteiro difcil do Mar Grande. E dos saveiros eles ouvem a msica e as canes em lngua estranha dos ciganos,  bonito, 
mas  triste. Guma diz a Lvia:
- S parece que essa msica anuncia desgraa...
Lvia baixa a cabea e no responde. H estrelas inmeras no cu.
Esta rota de Mar Grande  uma rota difcil. Por isso os saveiros vo com cuidado atravessando os arrecifes. Aqui j ficaram muitos. E, dias depois, numa noite tempestuosa, 
aqui ficaram Jacques e Raimundo, seu pai. Foi Guma quem descobriu os corpos, quando voltava de Cachoeira. O velho segurava a camisa do filho, tentara com certeza 
salv-lo. E Judith ficou viva naquela noite. Lvia tinha esperado Guma no cais. Rufino foi quem avisou que Jacques morrera. Fora a sogra de Jacques quem a hospedara 
quando ela fugira de casa com Guma.
Agora os arrecifes de Mar Grande engoliram Jacques e mais seu pai. Roteiro difcil de Mar Grande, roteiro percorrido todo dia por dezenas de embarcaes. A cigana 
dissera a Lvia que viria uma tarefa perigosa. Que novo roteiro do Mar Grande vai percorrer Guma? A vida de Lvia j  de tanto desesperar, j  to cheia de angstia. 
Quando ele parte com o "Valente" para o Mar Grande, seu corao s canta desgraas. Maria Clara j lhe disse que assim ela at agoura Guma.
Roteiro, difcil do Mar Grande, que j engoliu tantos corpos! Um dia chegar a vez de Guma, mas antes - disse a cigana - ele tem trabalhos mais perigosos para realizar. 
Ser que ele vai ficar navegando somente para Mar Grande? Quem sabe o que vai acontecer? Nem as ciganas sabem, as ciganas que ningum descobre de onde vm nem para 
onde vo, as ciganas que ouvem a voz do mar num bzio. Nem elas sabem. Lvia trouxe de Mar Grande um punhado de conchas e nelas emoldurou o retrato de Guma, um que 
ele tirou no jardim, debaixo do elevador, encostado numa rvore. O outro, o que traz ele e o "Valente", ela mandou num enveloppe para Janaria, pedindo que no levasse 
consigo aquele que  pai de seu filho. Porque Maria Clara tem razo. H um ser que se move no ventre de Lvia, um ser que um dia -  o destino -- far tambm o roteiro 
do Mar Grande.

Esmeralda

Lvia primeiro procurou o Dr. Rodrigo. Ele recomendava muito que as mulheres que se achassem grvidas fossem a ele. No gastavam nada com o tratamento, os partos 
ficavam fceis. E falavam tambm no cais que ele no se negava a "fazer anjos". Muita mulher abortara com a ajuda do Dr. Rodrigo, at uma vez D. Dulce lhe perguntou 
se era verdade:
- , sim. Essas pobres vivem sofrendo o diabo, passando fome, vendo os maridos morrerem.  justo que muitas delas no queiram mais ter filhos. s vezes tm oito 
ou dez, sem ter com que criar. Vm me pedir, o que  que eu vou fazer? Deixar que abortem com essas curandeiras da? Seria pior...
D. Dulce quis replicar qualquer coisa, mas calou. Ele tinha realmente razo. E ela baixou a cabea. Bem sabia que no era por maldade que as mulheres do cais abortavam. 
Se o faziam, era para depois no ter que abandonar os filhos pelos botequins do cais, no ter que v-los trabalhar desde os 8 anos. Havia sempre falta de dinheiro. 
Dr. Rodrigo tinha razo. Apenas D. Dulce falava o seu fracassado instinto de maternidade. Pensava em braos de criancinhas se agitando, em cabelos loiros, em vozes 
balbuciantes. Dr. Rodrigo disse:
-  preciso encarar a realidade com ela . Eu no espero milagres...
Ela sorriu:
Voc no deixa de ter razo. Mas  uma pena...
Porm Lvia no fora l para arrancar seu filho do ventre. Foi para saber se era realmente verdade, pois devia ser recente, sua barriga nem se arredondara ainda. 
Dr. Rodrigo quase afirmou que era. E lhe disse que estava disposto a ajudar no tratamento para que o parto fosse simples e o filho robusto. Com certeza ela no quereria 
abortar. Dr. Rodrigo sabia perfeitamente que elas nunca abortavam no primeiro filho.
Guma chegou  meia-noite. Atirou as coisas que carregava para um lado, mostrou a Lvia o presente que trazia. Ganhara numa aposta com um marinheiro de um navio do 
Lloyd Brasileiro, que estava ancorado no porto, um corte de fazenda. O navio estava com as mquinas escangalhadas e o marinheiro aproveitara para ir ver a famlia 
em Cachoeira. Fora no saveiro de Guma, que ia partir (fazia trs dias isso), e apostara como ele no passaria em frente ao baiano, que tambm rumava para l. Guma 
ganhou a aposta:
- Era um troo arriscado, mas eu achei a fazenda bonita. Ele ia levando pra uma conhecida...
Lvia, disse:
- Voc no vai fazer mais isso.
- No tem nada...
- Tem sim.
S ento Guma reparou que ela estava sria.
- O que  que deu em voc?
- Eu tambm tenho um presente pra tu.
- O que ?
- Pague, as alvssaras...
Ele tirou duzentos ris do bolso:
- T pago.
Ela no chegou para perto dele e avisou:
- A gente vai ter um filho...
Guma pulou da cama, ainda no tinha se despido completamente. Se atirou porta afora, Lvia perguntou:
- Aonde tu vai?
Bateu na porta de Rufino, bateu muito. Ouviu rudo de gente que despertava e foi ficando encabulado de vir acordar os outros assim, a estas horas da noite, s para 
dar a noticia de que Lvia, ia ter um filho. Ouviu Rufino perguntar:
- Quem ?
-  de casa.  Guma.
Rufino abriu a porta. Tinha os olhos inchados do sono. Esmeralda aparecia embrulhada num lenol na porta do quarto:
- Aconteceu alguma coisa?
Guma ficou sem jeito. Notcia besta que tinha para dar, tinha ido acordar os outros. Rufino repetiu:
- O que foi, mano?
- Nada. Estou chegando agora, passei para ver vocs.
Rufino no compreendia:
- Bem, se voc no quer contar...
-  coisa besta...
Esmeralda no se conformava:
- Solta logo a lngua, homem. Desatraca de uma vez.
- Lva vai ter um filho...
- Agora? -perguntou Rufino.
Guma estava com raiva:
- No, daqui a uns tempos. Mas hoje  que viu que tava, grvida.
- Ah!
Rufino espiou a noite l fora. Esmeralda acenara para Guma, um adeus:
- Amanh vou l brigar com aquela enganadeira. Tava me negando.
Rufino saiu. Ia calado ao lado de Guma:
- Vamos beber um trago no Farol. Pra comemorar.
Beberam. No um trago, mas muitos. Havia bastante gente no botequim, marinheiros, canoeiros, prostitutas, homens das docas. No fim da noite, j inteiramente embriagado, 
Rufirio props:
- Minha gente, vamos beber um copo aqui em honra de um acontecimento que vai acontecer ao meu compadre Guma.
Os outros olharam. Encheram os copos. Uma mulher magra veio perguntar a Guma:
- O que ?
Ela no estava bbada. Guma disse:
- Minha mulher vai ter um filho.
- Que lindo... - e bebeu um pouco de cerveja de um copo. Depois voltou para o seu canto e para o homem que a contratara para essa noite. Antes de sair ainda sorriu 
para Guma e disse:
- Desejo que ela seja feliz.
Com a manh voltaram para casa.
Guma levou a notcia a todos os seus conhecidos, e eram muitos, espalhados pelos diversos pontos do Recncavo. Alguns deram presentes para o menino que ia nascer, 
a maior parte desejou felicidades. Tambm Esmeralda fora  sua casa logo pela manh do dia seguinte. Fizera muito escndalo, muita histria fiada, que estava to 
contente como se fosse ela mesma, mas quando Lvia foi  cozinha fazer um pouco de caf para eles tomarem, ela arriscou:
- S eu no topo com um homem que me faa um filho, sou pesada at nisso. Homem meu no faz filho.
Mostrava um pedao das coxas, as pernas cruzadas. Guma riu:
-  s voc pedir a Rufino
- Aquele? E quero l filho de negro! Estou precisando de um filho de gente mais branca do que eu para melhorar a famlia...
Olhava para Guma como para indicar que ele  que lhe podia fazer um filho. Seus olhos verdes indicavam isso tambm porque fitavam Guma de um modo estranho, chamando. 
E os lbios dela estavam entreabertos, o seio arfava. Guma ficou um momento em suspenso, depois a desejou com toda a intensidade. Mas lembrou-se de Rufino, lembrou-se 
de Lvia:
- E Rufino?
Esmeralda se levantou de um repelo. Gritou para Lvia:
- J vou, minha vizinha. Tenho muito que fazer. Depois dou um pulo aqui.
Estava com o rosto cheio de raiva e de vergonha. Saiu apressada, parou por junto de Guma, falou:
- Trouxa...
Ele ficou sentado com a cabea entre as mos. Mulher dos diabos aquela. Queria a pulso que ele fizesse a desgraa. E depois, Rufino? Ele devia era contar tudo a 
Rufino, falar a verdade, Mas talvez ele nem acreditasse, talvez at brigasse com ele. Rufino estava embeiado pela mulata. No adiantava dizer. Mas tambm no iria 
andar com ela, trair um amigo. O pior  que quando ela o tentava, quando o olhava com aqueles olhos verdes, ele no via mais nada, no enxergava nem Rufino lhe fazendo 
favores, nem Lvia grvida, s via o corpo dengoso da mulata, os peitos salientes, as ancas reboleantes, o corpo chamando, os olhos verdes chamando. Uma cano do 
mar fala em homens que se vo a afogar nas ondas verdes do mar. Assim os olhos de Esmeralda.  como se ele fosse se afogar nos olhos verdes dela. Ela o tenta, ela 
o quer. O seu corpo danava ante os olhos de Guma. E ela o chamara de "trouxa" pensava com certeza que Guma era incapaz de derrub-la, de fazer o seu corpo gemer 
de tanto amor. Ah!, mas Guma havia de lhe mostrar. Ela gemeria tanto, se dobraria tanto, que teria de confessar que se enganara. Que importa Rufino se ela o quer? 
Quanto a Lvia, nunca h de saber.  Lvia quem entra. Traz uma caneca de caf e repara o rosto alterado de Guma:
- Tu t com alguma coisa?
Ela est grvida, sua barriga se arredonda cada dia mais. Tem l dentro um filho seu, ela no merece ser trada. E o pobre do Rufino, to bom, sempre junto dele, 
desde criana? V na caneca de caf os olhos verdes de Esmeralda. Os seus seios so empinados como os de Rosa Palmeiro. Precisa escrever a Rosa Palmeiro, pensa 
ele, para comunicar o prximo nascimento do garoto. Porm seus pensamentos no se desviam. A figura de Esmeralda t diante dele. E Guma foge para o cais, onde aceita 
ir buscar uma carga de fumo em Xaragogipe, mesmo sem ter nada para levar.
De Maragogipe vai a Cachoeira. Lvia o esperou inutilmente. Ficou na beira do cais muito tempo, todo um dia e uma noite. Tambm Esmeralda o esperou. Ela o deseja 
tenazmente, deseja aquele marinheiro quase claro, que dizem que  to corajoso. E o deseja principalmente porque Lvia  to feliz, e to diferente dela, to preocupada 
com o bem-estar do marido, que ela gostaria de feri-Ia no mais fundo do seu corao. Ela sabe que ele vir. H de fazer tudo para isso. H de tent-lo de toda a 
maneira. Guma chegou atrasado de dois dias.
Esmeralda o esperava na janela:
- Andava desaparecido...
- Tava velejando, trazendo fumo.
- Sua mulher at pensou que voc tinha dado o sute...
Guma riu sem jeito.
- Eu pensei que voc tava com medo...
- Medo de qu?
- De me ver..
- No sei porqu.
- No se lembra mais da desfeita que me fez?
- O princpio dos seios pujantes apareciam no decote do vestido.
- A gente vai ver um dia...
- O qu?
Mas Guma fugiu novamente. Seno, entraria na casa dela naquela hora mesmo e nem a deixaria sair da sala, seria ali mesmo. Lvia o esperava:
- Voc demorou. Quase uma semana para ir a Maragogipe...
- Voc pensou que eu tinha fugido?
- T doido.
- Foi a notcia que eu tive.
- Quem inventou?
- Esmeralda que me falou.
- Tambm voc agora antes de chegar em casa conversa com a vizinha, no ?
O pior  que no havia raiva nenhuma na voz dela. Apenas mgoa. Ele de repente, sem saber como, se encontrou defendendo Esmeralda:
- Ela tava brincando. A gente se cumprimentou, ela pegou, toca a falar bem de voc. Parece que  sua amiga mesmo. Era bom porque eu gosto do nego Rufino.
- Ela  que no gosta tiquinho dele.
- J reparei... -fez Guma de mau modo. Agora no se lembrava mais que Esmeralda estava quase sua amante. Estava com raiva dela porque a mulata no correspondia ao 
pegadio de Rufino. -J reparei. No dia que Rufino der tento disso, ela t desgraada...
- Deixa de falar mal dos outros... - disse o velho Francisco, que ia entrando. Vinha bbado, o que era raro, e trazia Filadlfio para jantar. Encontrara o doutor 
no "Farol das Estrelas" sem um nquel e, aps beberem tudo que o velho tinha, este o trouxera para jantar:
- Tem bia para mais um? Um boa-boca.
Filadlfio apertou a mo de Guma:
- O que tiver, serve. No precisa botar gua no feijo - e riu muito da pilhria. Os outros riram tambm.
Lvia serviu o jantar. O eterno peixe de sempre, feijo com carne-seca. FIladlfio, no meio do jantar, contou a histria da carta para Lvia, da briga por causa 
da concha e de cofre. E perguntou a Lvia:
- Cofre no  muito mais bonito? Ela tomou o partido de Guma:
- Acho concha...
Guma estava encabulado. Lvia no sabia que a carta fora de colaborao. Filadlfio, insistia:
- Olhe que  cofre doirado. J ps os olhos em cofre doirado?
Quando eles saram, Guma comeou a explicar a histria da carta. Lvia saltou para o seu colo:
- Cala a boca coisa-ruim. Tu nunca gostou de mim..
Ele a carregou para o quarto. Ela protestou:
- Depois do jantar, no.
Mas pelo meio da noite Lvia comeou a passar mal. Dera-lhe uma coisa, o estmago embrulhava, parcela que ela ia morrer. Tentou vomitar, no conseguiu. Rolava na 
cama, estava com falta de ar, a barriga doa toda.
- Ser que eu vou botar o menino?
Guma saiu feito doido. Acordou Esmeralda (Rufino estava viajando) com pancadas fortes na porta. Ela perguntou quem era:
- Guma.
Ela veio, pegou na mo dele, puxava-o para dentro:
- Lvia est morrendo, Esmeralda. Deu uma coisa nela. T morrendo.
- O qu? -Esmeralda j tinha entrado. - Vou pra l.  s mudar a roupa.
- Fique com ela, que eu vou ver o Dr. Rodrigo.
- Pode ir, que eu fico.
Da esquina ele ainda viu Esmeralda atravessando o pedao de barro que separava as duas casas. Dr. Rodrigo, enquanto se vestia, pediu que ele contasse o que tinham 
feito. Depois consolou:
- No h de ser nada... Coisa mesmo da gravidez.
Guma conseguiu encontrar o velho Francisco abancado numa mesa do "Farol das Estrelas", bebendo com Filadlfio, contando histrias a uns marinheiros. No botequim 
um cego tocava ao violo. Guma despertou Francisco da sua embriaguez:
- Lvia t morrendo.
O velho Francisco esbugalhou os olhos e quis sair correndo. Guma o impediu:
- No, o doutor j foi ver ela. Vosmec vai l em cima chamar os tios dela. V depressa.
- Eu queria ver ela. -O velho Francisco tinha a voz engasgada.
- O doutor disse que talvez no tenha nada.
O velho Francisco partiu. Guma voltou para casa, vinha com medo. Ora quase corria, ora diminua os passos com receio de encontr-la morta, perdidos ela e o filho. 
Penetrou na casa como um ladro. O candeeiro estava no quarto donde vinham vozes. Viu Esmeralda sair apressada e voltar com uma bacia com gua e um pano. E ele sem 
coragem de se aproximar. Depois foi o Dr. Rodrigo que saiu. Ento Guma o alcanou no corredor:
- Como vai ela, doutor?
- No foi nada. Seria se voc no tivesse me chamado logo. Ela poderia ter abortado. Agora precisa  de repouso. Amanh passe l em casa, eu vou dar um remdio para 
ela.
Guma ria pela boca e pelos olhos:
- Ento ela no vai ter nada?
- Pode estar descansado. Ela precisa  repousar.
Guma entrou no quarto. Esmeralda, ps o dedo na boca exigindo silncio. Alisava a cabea de Lvia, estava sentada na borda da cama. Lvia voltou os olhos, viu Guma, 
sorriu:
- Maginei que ia morrer.
- O mdico disse que no  nada. Voc precisa  dormir.
Esmeralda mandou que ele sasse. Ele se afastou e agora sentiu uma ternura diferente por Esmeralda, uma vontade de a acariciar sem desejos de posse. Ela fora boa 
para Lvia.
Entrou na sala escura. Tinha uma rede estirada de lado a lado, ele deitou e comeou a pitar o cachimbo. Ouviu os passos suaves de Esmeralda que sea do quarto ,com 
o candeeiro. Ela ia na ponta dos ps, ele podia Jurar.
O seu corpo forte iria balanando como um saveiro, pois ela ia na ponta dos ps. Suas ndegas iriam gingando como um marinheiro. Uma mulata e tanto. Ela pousou o 
candeeiro na sala de jantar. Agora anda para onde Guma est. Ele sente os passos dela, em surdina. E o desejo vai se apossando dele, aos poucos. A respirao ainda 
difcil de Lvia chega at  sala. Mas os passos de Esmeralda se aproximam, vo encobrindo, no seu barulho, o barulho da respirao de Lvia.
- Est dormindo - disse.
Encostou-se nas cordas da rede:
- Voc gramou um sustinho, hem?
- Voc est cansada? Fui lhe acordar...
- Fao de corao para voc.
Sentou-se na rede, Agora as suas pernas tocam nas de Guma. E de repente ela se atira sobre ele e o morde na boca. Enrolam-se na rede e ele a possui sem sequer a 
despir, sem pensar. A rede range e Lvia acorda:
- Guma!
Sacode Esmeralda, que est trepada nas suas pernas. Corre para o quarto. Lvia pergunta:
- Tu t a?
- Tou sim.
Ia alisar o cabelo dela, mas sua mo ainda traz um calor do corpo de Esmeralda e ele suspende o gesto. Ela chama:
- Vem dormir comigo...
Ele fica sem saber o que dizer. Na outra sala Esmeralda o espera para conclurem o que comearam. Mas se recorda dos tios dela:
- Durma voc. Eu estou esperando teus tios que mandei o velho Francisco chamar...
- Voc foi assustar eles.
- Eu tambm fiquei com medo.
Novamente suspende a mo para a acarinhar. Novamente se recorda de Esmeralda e um n toma sua garganta. E Rufino? Lvia voltou-se na cama, cerra os olhos. Ele vai 
para a sala. Esmeralda est estirada na rede, abriu o vestido, os seios pularam. Ele fica parado olhando como um demente. Ela estende a mo, o chama. Arrasta-o para 
cima de si, se aperta contra ele. Mas ele est to longe que ela pergunta:
- Me acha to azeda assim...
E recomeam. Ele agora est louco no sabe mais e que faz, no pensa, no se recorda de ningum. S do corpo, que aperta contra o seu na luta que mais parece de 
morte. E quando caem um sobre o outro Esmeralda fala baixinho:
- Se Rufino visse isso.
- Guma volta a si.  bem Esmeralda quem est ali.  a mulher de Rufino. E sua prpria mulher dorme doente no outro quarto. Esmeralda novamente fala em Rufino. Guma 
no ouve mais nada. Seus olhos esto vermelhos de sangue, sua boca est seca, suas mos procuram o pescoo de Esmeralda. Comeam a apertar. Ela diz:
- Deixe dessa brincadeira...
- No  brincadeira.
Ele a matar e depois ir se encontrar com Janana no fundo do mar. Esmeralda j vai gritar quando Guma ouve as vozes dos tios de Lvia conversando com o velho Francisco. 
Pula da rede, Esmeralda se compe apressadamente, mas a tia de Lvia espia para a sala com uns olhos espantados. Guma sacode as mos agora inteis:
- Lvia j est melhor.

Eram cinco meninos

Logo que Liva melhorou ele viajou. Fugia de Esmeralda, que agora o perseguia, queria marear encontros em pontos desertos do areal do cais, ameaava fazer escndalo. 
Mas fugia principalmente de encontrar Rufino, que chegava da a poucos dias trazendo uma carga para a feira de gua dos Meninos do prximo sbado.
Pegara uma viagem para Santo Amaro, demorara. Contra seu costume, andara por todos os botequins, quase no parava no saveiro para espiar a Lua e as estrelas no cu. 
Via logo Rufino, via o rosto de espanto que ele faria se soubesse, Guma via sua vida desgraada. Desde pequeno uma maldio pesara sobre ele. Um dia sua me viera, 
ele esperava uma mulher da vida, tivera desejos por ela. Nesse dia pensara em se jogar na gua, em ir com lemanj para a viagem sem fim dos mares de Aioc. Seria 
bem melhor se tivesse se matado naquela poca. Ningum sentiria sua falta, o velho Francisco talvez se entristecesse, mas logo depois se consolaria. Mandaria tatuar 
o nome de Guma no seu brao, junto com os dos quatro saveiros que possura, e juntaria a sua histria de criana s muitas que sabia:
- Eu tive um sobrinho que Janana desejou. E numa noite de lua cheia levou ele pra junto dela. Era um menino ainda, mas j conduzia um saveiro, levantava um saco 
de farinha. Janana quis ele...
Assim contaria o velho Francisco a sua histria. Agora seria diferente. Nem se matar ele podia, no podia deixar Lvia na misria com um filho na barriga. E que 
histria deixaria para o velho Francisco contar? Trara um amigo, andara com a mulher de algum que lhe prestara favores. E depois se jogara na gua com medo do 
que o amigo fizesse, deixando a mulher passando fome com um filho na barriga. O velho Francisco acrescentaria que aquilo era da raa da me, mulher da vida. E no 
tatuaria seu nome ao lado dos nomes dos seus quatro saveiros. Teria vergonha dele.
Guma no fita a Lua. Quebrou a lei do cais. No  medo de Rufino que ele tem. Se no fosse seu amigo, no se importaria. Tem  vergonha dele e de Lvia, Gostaria 
de matar Esmeralda e depois morrer, virar com o "Valente" por cima de uma coroa de pedras. Ela o tentou, ele nem se lembrou de Rufino, seu amigo, de Lvia doente 
no quarto vizinho. E a tia olhara desconfiada, nunca mais ele a pudera fitar. Talvez ela nem tivesse chegado a desconfiar, at agradeceu muito a Esmeralda o cuidado 
tomado com Lvia. E o pior  que Lvia agora estava muito grata a Esmeralda, mandara comprar um presente para ela, a mulata se aproveitava disso para viver metida 
l, espiando para Guma. Ele saa, ia para o "Farol das Estrelas", bebia tanto que at j se falava no cais. E ela o perseguia, toda vez que podia falar com ele queria 
saber onde se podiam encontrar, dizia que sabia lugares desertos no areal. Guma tambm sabia. ,Muita mulata, multa negrinha, levara para o areal nas noites de grande 
lua. Mas Esmeralda ele no queria levar, no queria mais v-la, queria era mat-la e se matar depois. Mas no podia deixar Lvia com um filho na barriga. Foi sem 
pensar, que o desejo no v nada. Naquela hora no viro, ningum, nem Rufino, nem Lvia, ningum. S vira o corpo moreno de Esmeralda, seios pujantes, olhos verdes 
to brilhantes. E agora sofre. Ter que encontrar Rufino mais dia menos dia, ter que conversar com ele, rir com ele, abra-lo como se abraa a um amigo a quem 
se devem favores. E, pelas costas de Rufino, Esmeralda lhe far sinais, marear encontros, sorrir.
E Lvia que tanto sofre quando ele viaja, Lvia que tanto teme por ele? Lvia tambm no merecia isso, Lvia estava doente por causa dele, tinha um filho dele na 
barriga. Da sala ouvira a respirao presa de Lvia e no entanto no se lembrara de nada disso. Esmeralda se encostara na rede, ele s vira o corpo da mulata, seus 
olhos dengosos. Depois a quis matar. Havia de estrangul-la se os tios no viessem.
A noite de Santo Arnaro  clara. Nas margens do rio os canaviais se estendem, verdes  luz da Lua. Besouro brilha no cu, foi um homem valente, nunca se falou que 
Besouro tivesse possudo a mulher de um amigo. Era homem respeitador dos seus compromissos, amigo das suas amizades. Guma abandonara tudo, agora s lhe restava ir 
viajar rir fundo das guas. Seno, como seria sua vida? Encontraria Esmeralda todos os dias, alguma vez teria de estar com ela, deitar com ela, gemer de amor com 
a mulata. Veria tambm nesses dias Lvia grvida, trabalhando em casa, chorando por ele, pensando que um dia ele morreria nas guas. Veria Rufino rindo sua gargalhada, 
passando o brao no seu ombro, dizendo "seu mano, seu mano". Veria todos aqueles a quem trara, porque trara Esmeralda tambm, j no a queria mais, no desejava 
mais seu corpo cheio de dengues. Trara a todos, trara tambm seu filho por nascer, pois no lhe deixava uma tradio no cais. Ningum apontaria para ele, dizendo 
com orgulho:
- L vai o filho de Guma, um bicho batuta que teve por estas bandas...
No. Era um traidor, fizera igual ao sujeito que apunhalou Besouro pelas costas. Esse se dizia amigo do cangaceiro, um dia meteu-lhe o punhal nas costas, chamou 
os outros para o cortarem a faco. Virou cabo de polcia, mas hoje s falam dele cuspindo de lado para seu nome no manchar a boca que o pronuncia. Assim est Guma. 
Ele se estira no saveiro, mete a mo na gua fria. No cais ningum sabe ainda. S que se admiram de ele agora beber tanto, ele que nunca foi dessas coisas. Mas no 
sabem porqu, pensam que  alegria de ter um filho a nascer.
Lvia a estas horas pensar nele, sofrer por ele estar sobre as guas. A mulher do velho Francisco morreu de alegria no dia que ele voltou. Assim tambm Lvia vive 
esperando que ele venha de torna-viagem. Com certeza ela gostaria que ele abandonasse o saveiro, fosse para a vida da cidade, trabalhasse noutra profisso. Mas ela 
nunca falou nisso porque bem sabe que os homens que vivem no mar nunca vo para a terra trabalhar noutra profisso. Mesmo aquelas pessoas que vm para o mar, como 
D. Dulce, no voltam mais. O feitio de Iemanj  muito forte. Mas poderia ir embora. Iria com Lvia para bem distante dali, algum j lhe disse que em Ilhus um 
homem pode ganhar muito dinheiro. Iria trabalhar noutro oficio, fugiria daquele lugar.
Olha o Valente. Saveiro bom. Fora do velho Francisco, fora o quinto que o velho possura. J no era muito novo, corria aquelas guas h muitos anos. Cortara a baa 
e subira o rio inmeras vezes, fora com Guma salvar o "Canavieiras", algumas vezes esteve para naufragar, um dia ficou com um rombo no casco. J tivera no sei quantas 
velas, era um saveiro de tradio. E agora Guma est disposto a acabar com a sua carreira. Vend-lo- a um mestre qualquer e ir embora: essa  a melhor soluo. 
 o castigo que merece: deixar o cais, abandonar o mar, ir para outras terras. Um dia ele pensara em viajar, em correr os mares num grande navio, corno Chico Tristeza. 
Depois conhecera Lvia, abandonara suas idias de viagens, ficar com ela, a trouxera para a vida triste do cais, para o sofrimento de o esperar todos os dias de 
uma morte certa. E depois aInda a trara e trara Rufino, seu amigo. Guma esconde o rosto nas mos. Se no fosse um marinheiro, choraria como uma criana ou uma 
mulher.
Agora s lhe resta esperar uma aventura que o leve. E que leve tambm o "Valente", que ele gostaria de no passar a outro. Porque fugir do cais, ir para outras terras, 
 coisa impossvel de ele fazer. S os que vivem no mar sabem quanto  impossvel abandon-lo. Mesmo para aqueles que no podem olhar a face de um amigo nem fitar 
a Lua brIlhante do cu.
Se no fosse um marinheiro, Guma choraria como uma criana, como uma mulher, como um preso de lgubre priso.
Encontrou Rufino no meio da gua e foi melhor assim. Rufino estava com a canoa engolindo gua, sara do porto sem notar. Guma ajudou a calafetar. Parte da carga 
estava perdida, era acar que o negro trazia. Os sacos do fundo estavam molhados, o acar se dissolvia. Guma os removeu para o "Valente" e os exps ao sol. Procurava 
no olhar para Rufino, que estava preocupado com o prejuzo:
- Pelo menos o dinheiro do frete t perdido, pra pagar o prejuzo.
- Talvez que no. Os sacos secam, a gente vai ver se falta muito. Me parece que no.
- Nem sei como foi. Eu sou de muito cuidado nessas coisa. Mas o coronel Tinoco mandou os homens dele arrumar o acar, tava com eles sem fazer nada. Eu peguei, fui 
beber um mata-bicho, que tava chovendo pra l, quando cheguei tava tudo pronto. S no meio do caminho dou pela coisa. A canoa pesada que eu no agentava. Fui ver 
o que era, a gua invadindo...
- Voc deve no pagar nada e ainda cobrar o buraco da canoa. Se foi feito pelos homens dele..
- Mas  que eu no dou certeza disso. Quando fui, passei mesmo raspando em cima da coroa da entrada do rio.  por isso.
Voltaram ainda um pedao conversando. Mas logo o saveiro se adiantou. Rufino remava atrs para ajudar a canoa. At que desapareceu, Guma no o via mais. No sabia 
mesmo como pudera conversar com ele, como pudera sustentar seu olhar, rir quando ele ria. Devia era ter dito ter deixado que Rufino lhe metesse o remo na cabea.O 
saveiro corre nas guas, o vento sopra,Lvia espera no cais. Esmeralda est com ela, e pergunta com um ar inocente.
- Viu meu negro por ai?
- Vem vindo com a canoa. At trouxe uns sacos de acar dele. A canoa andou se arrombando...
Lvia se interessa:
- Mas no aconteceu nada?
Esmeralda fita Guma:
- No foi ningum que fez? - Ele percebe que ela teme que tivesse havido briga entre os dois.
- Parece que foi na subida, ele se topou numa coroa.
- No demora embica a. T danado com o prejuzo.
Descansou o saveiro, foi andando para casa com Lvia. Esmeralda avisou:
- Vou pro Porto da Lenha, esperar por ele.
- Diga que os sacos to aqui.
- T bem.
Ficou olhando o casal que subia. Guma fugia dela. Medo de Rufino, medo de Lvia, ou no gostara do amor dela? Muito homem no cais se pelava por ela. Tinham medo, 
de Rufino, mas assim mesmo achavam jeito de lhe dizer dichotes, de fazer propostas, de enviar presentes. S Guma fugia dela, Guma que ela desejava porque era claro, 
tinha cabelos pretos, longos quase at ao pescoo, e os lbios vermelhos como lbios de criana. Seu peito se levantou. seus olhos acompanharam com saudades o homem 
que subia o cais. Porque ele fugia? No pensou que pudesse ser remorso, Faria uma carta para Janana, iria ver. Foi andando para os lados do Porto da Lenha. Os canoeiros 
a saudavam, um marinheiro que pintava o casco de uni cargueiro suspendeu seu trabalho, assoviou com admirao. S Guma fugia dela. Para andar uma vez com ela fora 
preciso fazer no sei quantas coisas se jogara mesmo se oferecera como uma mulher da vida, depois ele ainda a quisera matar. As ancas de Esmeralda valiam ouro, diziam 
no cais. Guma no as notava, Guma fugia dela. Fugia do seu corpo, dos seus olhos. S tinha olhos para Lvia magra e chorosa. Esmeralda ouvia o assovio fino do marinheiro. 
Olhou e sorriu. Ele fez com os dedos que s seis horas estaria livre, indicou o areal. Ela sorria. Porque Guma fugia dela? Era medo de Rufino com certeza, medo da 
vingana do negro, dos braos musculosos dele, forte do remo o dia inteiro na canoa.

Esmeralda no pensava em remorso. Talvez nem conhecesse essa palavra. Um vento frio corria pelo cais. Ao longe apontava a canoa de Rufino, abrindo gua. A noite 
caiu fria, o vento encrespava a areia do cais e a gua do mar. Alguns saveiros saram. Era raro aquele vento trazer temporal. A areia voava fina pelo cais, ia at 
s ruas da cidade. Havia festa na Igreja da Conceio da Praia, mulheres passavam embrulhadas em xales, homens desciam a ladeira. O vento atravessava entre eles. 
Os sinos repicavam. O comrcio fechara, a cidade baixa Ia ficando deserta.
Acabado o jantar, o velho Francisco saiu. Ia conversar no ptio da igreja, contar e ouvir histrias. Guma acendeu e cachimbo, pretendia ir ao cais mais tarde ver 
se j haviam descarregado o saveiro, ver se cavava alguma viagem para o dia seguinte. Lvia lavava os pratos, a barriga ia na frente dela, tinha perdido um pouco 
a cor, agora estava baa, um pouco lvida. Levava um filho na barriga, ia todo dia se tratar com Dr. Rodrigo, tinha enjos. Guma a espiava. Ela ia e vinha, lavava 
os pratos de flandres, os copos grossos. O cachorro, um vira-lata preto e pequeno, comia espinhas na cozinha de barro. A xcara vazia descansava no borda da mesa. 
Guma ouviu Rufino se levantar na sala da casa vizinha. Acabara de jantar com certeza. Falava com Esmeralda, era como se estivesse falando na sala, de Guma, ele ouvia 
tudo:
- Vou conversar com o coronel Tinoco pra ver esse troo dos sacos que se molhou. Vai ser uma pega braba.
Esmeralda falava alto:
- Tu deixa eu ir d uma espiada na festa da Conceio? A igreja t to bonita e  uma santa da minha devoo.
- Vai, mas t cedo aqui, tou cansado, quero encornar cedo.
Esmeralda falara alto. Naturalmente fora para ele ouvir, pensa Guma. Mas no ir a Conceio da Praia. Pela janela pode ver a igreja to iluminada que nem um navio 
de passageiros. E se for ser com Lvia, que sem dvida querer ir rezar pelo filho. Os sinos repicam convidando. O vento entra pela janela, Guma estuda o cu cinzento. 
Estava to bonita a tarde! No entanto a noite nada anuncia de bom. A Lua  minguante, uma coisa fina e amarela no cu. A voz de Rufino atravessa a parede:
- Tu t a, meu mano?
- Tou.
- Vou quebrar a cabea com o velho Tinoco.
- Tu no teve culpa.
- Mas aquilo  cabeudo que nem cgado que a gente corta a cabea e ainda t se bulindo, querendo viver.
- Tu explica.
- Dou dois berro que ele vai ver.
Esmeralda se despedia no outro lado:
- Daqui a pouquinho tou aqui.
A voz de Rufino chegou abafada:
- Deixa d um cheiro no cangote, mulata,
Guma se sentiu mal. No queria ter nada com ela, nem a queria ver, mas aquilo buliu com ele como se Rufino estivesse a lhe roubar uma coisa. Em verdade fora ele 
quem roubara Rufino, quem o trara. Os passos de Esmeralda se afastavam. Rufino falou alto:

- A mulata vai pra Igreja...
E gritou pra ela, se lembrando:
- Diabo, tu no chama Lvia?
- Ela me disse que vai com Guma - e os passos se perderam na ladeira.
Rufino agora andava na sala. Guma olhou novamente o cu. O vento era cada vez mais forte, raras estrelas apareciam sob as nuvens. "Vai ter temporal!", pensou ele. 
Lvia acabava de lavar os pratos, perguntou:
- Tu quer ir ver a festa?
Estava plida, muito plida. A barriga suspendia o vestido, talvez estivesse ridcula. Mas Guma no notava nada disso. S sabia que ela tinha um filho dele, estava 
doente por isso e ele a trara. Ouviu Rufino se despedir. Lvia estava parada, esperava resposta:
- Vai mudar o vestido.
Ela entrou para o quarto, mas saiu logo porque batiam na porta:
- Quem ?
-  de casa.
No entanto a voz era estranha, eles no se recordavam de t-la ouvido. Lvia olhou para Guma e seus olhos estavam amedrontados. Ele se levantou:
- T com medo?
- Quem ?
As pancadas se repetiam na porta:
- No tem ningum? Isso  cemitrio ou casa de navio naufragado?
Martimo era com certeza. Guma abriu a porta. No escuro da rua um cachimbo brilhava e um vulto aparecia por detrs, embrulhado num grande capote:
- Cad Francisco? Onde aquele peste est? Que no morreu eu j sei, aquilo  traste to ruim que Diabo no quer...
- Saiu.
Lvia espiava por detrs de Guma. O vulto se moveu, parecia que se encaminhava para o corredor. E era assim mesmo. A cabea se adiantou, espiou para dentro. Parece 
que s neste momento percebeu Guma:
- E tu quem ?
- Guma.
- Quem diabo  Guma? Pensa que eu vou l saber?
Guma ia se irritando:
- E voc quem ?
A resposta do vulto foi se adiantar e penetrar pela porta. Mas Guma meteu o brao, impediu a passagem:
- Que  que quer?
O velho empurrou o brao de Guma, encostou o mestre de saveiro na parede, e Guma nem pde se mover. O vulto tinha a fora de vinte homens. Lvia se adiantou:
- Que  que o senhor quer?
O homem largou Guma, entrou na sala iluminada pelo candeeiro. Agora Guma via que era um velho de bigodes brancos, alto, quase um gigante. O capote abriu ligeiramente 
e Lvia notou o punhal que aparecia. O velho espiava a casa a luz vermelha do fif que aumentava as sombras:
- Entonce  aqui que o idiota do Francisco mora, no ? E tu quem ? -Apontava para Lvia.
Ela ia responder, Guma se atravessou na frente:
- Primeiro diga, quem  voc?
- Tu  filho de Francisco? No me chegou que ele tivesse um filho.
- Sou filho de Frederico. Sou sobrinho dele.
Se arrependeu de haver respondido. O velho olhou com espanto.
- Frederico?
Olhou para Lvia, tornou a olhar para Guma:
-  tua mulher?
Guma abanou com a cabea que sim. O velho espiou a barriga de Lvia, novamente fitou Guma:
- Teu pai nunca foi casado...
Ele tinha cabelos brancos e parecia estar com frio mesmo com o casaco. Apesar de tudo o que ele dissera, Guma no se sentia insultado.
- Morreu faz tempo, no ?
- Faz tempo, sim.
- S Francisco no morreu, no ?
Olhou para o fif, voltou-se para Guma:
- Tu no sabe quem sou eu? Francisco nunca falou?
- No.
O velho perguntou a Lvia:
- Tu tem cachaa a? Vamos beber um trago pra festejar a volta de um parente.
Lvia saiu, mas quase no mesmo instante ouviu o berro de Francisco, que chegara e espiava pela janela para ver quem era o visitante:
- Lencio!
Entrou rpido para a sala. Lvia voltava com a garrafa de cachaa, ficou espiando. Francisco ainda no acreditava:
- Te fazia morto. Faz tanto tempo...
Guma disse:
Quem  afinal?
O velho Francisco falou quase em segredo, parecia um homem que estivesse cansado de longa carreira:
-  teu tio. Meu irmo.
Voltou-se para o recm-chegado; apontou Guma:
-  filho de Frederico.
Lvia serviu a cachaa, o velho bebeu de um trago, pousou o copo no cho. Francisco se sentou:
- Tu no demora, no ?
- Tu t com pressa de me ver pelas costas, no ?
O velho tinha uma risada para dentro. O bigode branco tremia.
- Tu no tem nada que fazer aqui. Todo mundo te faz morto, ningum te conhece mais.
- Todo mundo me faz morto, no ?
- Sim, todo mundo te faz morto. Que  que tu quer aqui ainda? No tem nada pra tu ver, nada nada...
Guma e Lvia estavam espantados, ela segurava a garrafa de cachaa. O velho Francisco tinha um ar de cansao, de homem prximo da morte, parecia muito mais velho, 
estava defronte de uma histria que ele nunca tinha contado. Lencio olhou o cais pela janela. Uma mulher passou pela frente da casa, era Judith. Ia de preto, levava 
um menino no colo. Sua casa era distante, a me agora estava com ela, viera ajud-la, lavaram roupas ambas, o filho era magro e falavam que no resistiria. Lencio 
perguntou:
- Uma viva?
-  uma viva, que tem isso? J te disse que voc no tem nada a ver aqui, nada.. Pra que veio? Tava morto, pra que veio ?
- Pra que veio... - repetia o velho, e era como se chorasse. Porm. riu. -Tu no t contente de me ver. Tu nem abraou teu irmo.
- Tu vai embora. No tem nada que fazer aqui.
De novo os olhos do velho procuraram o cais, o cu enevoado. Era como se tentasse reconhecer aquilo tudo, um velho marinheiro que tinha voltado ao seu porto. Era 
como se tentasse reconhecer tudo aquilo. Olhava longamente o cu, o cais perdido na bruma. A noite ia fria pelo mar. O velho voltou-se para Francisco:
- Vai haver temporal esta noite... Tu j reparou?
- Tu vai embora. Teu caminho no  aqui. Fez um esforo enorme, continuou: -No  teu porto...
O velho perdera a agressividade, baixou a cabea, e a sua voz velo suplicante, como se viesse de muito longe:
- Deixe eu ficar nem que seja duas noites s. Faz tanto tempo...
Lvia atalhou a recusa do velho Francisco:
- Fique, essa casa  sua.
Francisco olhou para ela com mgoa.
- Eu tou cansado, venho de muito longe.
- Fique o tempo que quiser - repetiu Lvia.
- Duas noite s. - Volveu-se para Francisco.
- No tenha medo.
Olhou o cu, o mar, o cais. Havia em todo o seu ser uma alegria de chegada. Um velho martimo que tivesse voltado ao seu cais. Francisco fechou os olhos na cadeira. 
As rugas do rosto se apertaram. Lencio s se voltou para perguntar:
- Tu no tinha um retrato do meu pai?
Como no tivesse resposta, calou algum tempo. Depois disse a Guma:
- Tu dorme cedo?
- Porqu?
- Vou a no porto, tu deixa a porta encostada. Quando eu entrar fecho.
- T bem.
Ele abotoou o capote, arriou o bon na cabea e se dirigiu para a porta. Mas voltou e, chegando perto de Lvia, meteu a mo no peito enorme, arrancou uma medalha 
deu a ela:
- Isso  pra voc.
O velho Francisco, depois que ele saiu, ainda disse:
- Pra que velo? Tu no vai deixar ele aqui, no  Lvia?
- Me conte isso, tio -pediu Guma.
- No vale a pena bulir com os defuntos. Todo mundo fazia ele morto.
Saiu de novo e viram que ele se dirigia para o "Farol das Estrelas". No ancorara nenhum navio naquele dia no cais, como viera Lencio? Tambm no saiu nenhum navio 
naquela noite, e no entanto ele no voltou nem naquela noite nem nunca mais. A medalha que dera a Lvia era de ouro e parecia vir de um pas longnquo, de um tempo 
passado. Tambm ele parecia vir de muito longe e ser de outra poca.
Ainda foram  Igreja da Conceio da Praia. Lvia tinha perguntado a Guma se ele sabia alguma coisa daquela histria. Ele, no sabia de nada, o velho Francisco nunca 
falara naquele irmo. No viu Esmeralda na igreja. Naturalmente ela se cansara de o esperar, fora embora. Guma se sentiu aliviado. No teria que suportar os sinais 
dela. Seria por uma histria assim que Lencio no podia aparecer no cais, perdera seu porto? Um marinheiro s perde seu porto, seu cais, quando faz qualquer coisa 
de muito miservel. Esmeralda no estava na Igreja, que cheirava a incenso. Havia quermesse l fora, o doutor Filadlfio ganhava nqueis na sua banca de fazedor 
de versos e cartas. Um negro cantava para uma roda:
"No dia que eu amanheo danado do meu miolo, fao de bolo banana fao de banana bolo."
Voltaram para casa. Do outro lado da parede a voz de Rufino perguntou:
-  tu, meu mano?
-  a gente, sim. Tamos chegando.
- J acabou a festa?
- A da igreja j acabou. Mas tem quermesse no largo.
- Tu viu Esmeralda por l, Lvia?
- No vi ela, no. Mas a gente s teve um nadinha l.
Rufino resmungou uma ameaa. Guma perguntou:
- Que arranjou com o coronel?
- Ah!, a gente divide o prejuzo...
Passados minutos falou:
- A noite t feia. Parece que vai haver coisa braba. Guma e Lvia foram para o quarto. Ela olhou a medalha que Lencio lhe dera. Guma examinou tambm: Era bonita. 
Ouviam os passos de Rufino na outra casa. Esmeralda era capaz de estar com outro no areal, em qualquer parte. Rufino ia desconfiar, era capaz de ela contar que Guma 
fora seu amante tambm. A ento a coisa ia ser feia, pior que um temporal. Ele no levantaria a mo contra Rufino, no brigaria com ele. Se deixaria matar, que 
ele era seu amigo. E Lvia, e o filho deles, e o velho Francisco? Seria um marinheiro sem porto mesmo depois de morto. Ficou nessa angstia at ouvir os passos de 
Esmeralda entrando e a sua voz para Rufino:
- Demorei, meu nego. Mas tava vendo as coisas. Maginei que tu aparecia.
- Sua cachorra, onde  que tu andou? Ningum viu voc l.
- Ora, naquele mundo de gente. Eu at vi Lvia...
Depois ouviram o estalar das bofetadas. Ele dava nela, com certeza:
- Se pego tu me enganando, te mando pras profundas...
- Te enganando? Arrenego. No me bata.
Depois no eram mais pancadas, no era mais briga. A mulata tinha olhos verdes e ancas redondas. Esse rudo no  mais de briga, de pancada. Ela tinha os seios pontudos 
e Rufino estava enrabichado por ela.
- 

O temporal caiu no meio da noite. Em geral aquele vento no trazia temporal, mas quando trazia era terrvel. Caiu no meio da noite, pegou muitas embarcaes no mar, 
Guma foi acordado pelo velho Francisco, que chegava do "Farol das Estrelas". Acordou Rufino tambm:
- Parece que j virou trs barcos. To pedindo, socorro. Vo sair uns barcos, to pedindo pra vocs ir tambm. Uns barcos trazia umas famlia, virou tudo.
- Donde?
- Pertim. Na boca da barra.
Saram correndo. Guma desatracou o saveiro, Rufino foi com ele. Os vagalhes se batiam contra a borda do cais. Outros saveiros j iam na frente, Guma logo os alcanou. 
Viam na noite negra uma vela de um dos saveiros naufragados. O Viajante sem Porto ia um pouco na frente, cortando o mar. O vulto do mestre Manuel aparecia  luz 
da lanterna. Guma avisou:
- Eh! Manuel!
-  tu, Guma?
Rufino ia sentado. De repente perguntou a Guma:
- Tu j ouviu falar de Esmeralda no cais?
- Falar de que jeito? - Guma perguntou com esforo. As vagas arrebentavam contra o saveiro. Na frente o Viajante sem Porto parecia desaparecer cada vez que vinha 
uma onda.
- Falar que ela no  direita. Comigo no vo falar...
- Nunca ouvi, no.
- Tu sabe que ando viajando. Quero que voc me faa uma coisa: quando tu souber de alguma coisa, tu me diz... No quero ser corno. Tou falando isso porque tu  meu 
amigo. Tenho medo daquela mulata.
Guma no sabia sequer para onde ia o saveiro, Rufino continuou:
- O pior  que gosto dela.
- Nunca ouvi falar...
Alcanavam a boca da barra. Destroos de trs saveiros boiavam. O temporal tentava naufragar os que vinham salvar. Pessoas seguravam-se em pedaos de tbua, nos 
cascos dos saveiros. E gritavam, choravam, menos Paulo, que era mestre de um dos saveiros naufragados e segurava uma criana nos braos. Os tubares j tinham pegado 
dois e de um terceiro arrancaram a perna. Mestre Manuel comeou a recolher gente no seu saveiro. Outros faziam o mesmo, mas nem sempre era fcil, os saveiros iam 
e vinham, alguns nufragos se soltavam das tbuas onde se seguravam e no tinham tempo de alcanar o saveiro, desapareciam no fundo da gua. Paulo entregou a criana 
a Manuel. Quando entrou para o saveiro, disse:
- Eram cinco. S ficou esse... Salvaram tambm a me da criana, que olhava como louca e ficou com o filho apertado contra o peito. O homem de que o tubaro comera 
a perna ficou deitado no saveiro de Guma, gritando. Um velho tambm veio para o seu saveiro. Rufino se jogou na gua para salvar um que no pegara o saveiro a tempo. 
Mas nem o viu, s viu o tubaro que o perseguia, que nadava em torno dele. Guma olhou, largou o leme do Valente, mergulhou com a faca na boca. Nadou debaixo do peixe, 
Rufino subiu ileso. Na hora da morte o tubaro ainda volteou o rabo, deixou Guma quase sem sentidos.
Rufino lhe disse:
- Se no fosse voc...
- No tem nada.
Agora, procuravam os cadveres.
Um pedao de brao boiava, era de mulher nova, o resto estava com os tubares. Pedaos de vestidos, corpos. Tinham morrido sete. Quatro meninos, dois homens e uma 
mulher. Os que se tinham salvado vieram com os cadveres. A me que apertava o filho contra o peito via o outro de cabelos anelados deitado no saveiro. Eram cinco, 
eram cinco crianas que o pai esperava no porto. Vinham de um passeio em Cachoeira, o temporal os pegara. Os dois homens que tinham morrido eram mestres de dois 
dos saveiros naufragados. S se salvara Paulo, e assim mesmo para salvar a criana. Seno morreria tambm com seus passageiros, iria para o fundo com seu barco. 
Eram cinco crianas e agora a me aperta a nica viva contra o peito. O cadver de outra vai no saveiro. Os dois outros ficaram com os tubares, nem os cadveres 
a me ver mais. O que vai no Valente  de um menino de cabelos encaracolados? A me no chora, aperta apenas o nico filho que lhe resta. O mar se agita em grandes 
ondas. Os saveiros voltam. Lentamente desaparece o casco de um dos naufragados. Eram cinco crianas.

gua Mansa

Desde a volta e o novo desaparecimento de Lencio, o velho Francisco pouco parava em casa. Vivia no cais conversando, bebendo no "Farol das Estrelas". chegando embriagado 
pela madrugada. No quisera contar a histria de Lencio e pediu a Guma que nunca a recordasse na sua vista. Guma andava preocupado com os pileques do velho Francisco, 
o Dr. Rodrigo j lhe dissera que assim o velho no duraria muito. Pensava em chamar a ateno do tio, mas recebeu uma resposta que o desanimou...
- Se meta na sua vida...
Tambm Rufino andava diferente. A principio Guma pensou que ele houvesse desconfiado da coisa. Porm, at Esmeralda h muito o deixara inteiramente de lado, parecia 
ter arranjado outro. Guma andava mais descansado, mais calmo. S pensava ela morrendo, era mesmo a coisa que ele mais pensava: Esmeralda morta, ele livre de todo 
aquele peso. Tinha a impresso de que se a mulata morresse todos os motivos para tristeza e remorso desapareceriam. Tanto pensou nisso que chegava a ver o corpo 
estendido na mesa da sala, os olhos verdes fechados, a boca sedenta de beijos cerrada na morte. Via Rufino cedo se consolando com outra. Lvia choraria junto ao 
caixo, os homens do cais viriam v-Ia pela ltima vez. Tinha sido uma mulata bonita.
O pior porm  que ela no morria, estava viva e com certeza traa Rufino com outro. Mesmo sem querer. Guma sentia cimes. Falavam no cais que era um marinheiro. 
Um cargueiro parava no porto h bem oito dias em conserto. Um marinheiro olhara as ancas de Esmeralda. provara seus beijos, possura sua carne. Rufino estava desconfiado, 
vigiava a mulata.
Uma tarde, Guma acabara de chegar de uma viagem. Rufino o procurou. Foi logo falando:
- Ela me botou os chifres!
- Que ?
- Corno,  o que sou. - E explicou - Eu j tava com a pulga atrs da orelha. Botei os olhos em cima, acabei descobrindo a safadeza. Hoje, achei uma carta dele.
- Quem era?
- Um marinheiro do "Miranda". O navio saiu hoje, por isso ele no engole um pedao de ferro.
- O que  que tu vai fazer?
- Eu vou ensinar a ela. Brincou com a minha amizade. Eu gostava daquela mulata um pedao, seu mano.
- O que tu vai fazer? Tu no vai te desgraar por causa dela!
- Eu j tava farto de saber que ela no prestava. Mulher traidera tava ali. Quando eu peguei ela, j tinha sido de outros, trazia fama ruim. Mas quando a gente t 
embeiado no v nada.
Olhava para qualquer coisa na linha do horizonte. Sua voz era baixa e montona. Nem parecia o mesmo Rufino, que cantava emboladas.
- Tava pensando que ia ser como as outras. Pegava e largava. Mas ela me enrabichou, foi coisa feita. E todo mundo se ri de mim no cais.
Baixou mais a voz:
- E tu sabia e nunca me disse nada.
- Eu no sabia. Tou sabendo agora da tua boca. O que  que tu vai fazer?
- S tenho vontade de lascar ela e naufragar o camarada.
- Tu no vai te desgraar por causa dela.
- Vou te dizer uma coisa: eu no tou certo do que vou fazer, mas quero que se suceder uma desgraa tu me faa uma coisa.
- Deixe de pensar em fazer besteira. Bota ela pra fora...
- Todo ms eu mandava vinte mil rs pra minha me,  uma velha. Mora nas bandas da Lapa, no agenta mais trabalho. Se eu me desgraar tu vende minha canoa, manda 
o dinheiro pra ela.
Saiu de repente, sem dar tempo a Guma de det-lo. Ia depressa para o cais. Na casa vizinha Esmeralda cantava alto. Guma saiu atrs de Rufino, mas no o alcanou 
mais.
- 

A Lua, lua cheia que alveja no cu, escuta a cano de Rufino. "Eu tenho saudade dela, mulher que foi falsa e enganou meu corao." A cano era popular na beira 
do cais e Esmeralda ia na canoa sem desconfiar de nada. Vestira o vestido verde, que ele dissera que iam para as festas de Santo Amaro. E, como o vestido verde era 
o da predileo dele, ela o pusera para agradar seu homem. No gostava dele,  verdade. Mas quando o negro cantava no havia quem resistisse quela voz quente. Esmeralda 
foi se chegando para junto dele. Os remos cortavam a gua, ajudavam o vento que empurrava a vela. O rio est deserto, aberto numa grande largura e reflete estrelas 
como um espelho. Rufino continua a cantar a sua cano. Mas como a hora chegou ele larga os remos, sua voz se cala. Esmeralda se encosta nele:
- Tava bonito...
- Tu gostou?
Olhou para ela. Olhos verdes que tentavam, boca que se abria para um beijo. Rufino desviou o olhar, talvez no resistisse. Um marinheiro a estas horas se ria dele 
a bordo do "Miranda".
- Voc sabe o que  que eu vou fazer?
- O que ?
- Vou matar voc.
- Deixe de brinquedo...
A canoa ia devagar, a brisa soprava mansamente. Era uma noite para o amor. Rufino falava com tristeza, no havia dio na sua voz:
- Voc me enganou com um marinheiro do "Miranda"
- Quem lhe soprou?
- Todo mundo sabe, todo mundo se riu de mim. Se tu no gostava de mim, porque no foi embora? Mas queria que todo mundo risse de mim. Por isso  que vou matar voc.
- Quem lhe disse foi Guma, no foi?- (Ela sabia que a morte era certa, queria tortur-lo o mais possvel.) -E tu vai me matar? Depois tu vai comer cadeia,  melhor 
tu no me matar. Tu deixa eu ir embora, nunca mais apareo nesse cais.
- Tu vai ver Janana, te prepara.
- Foi Guina que te disse, no foi ? Ele tava com cime, eu j tinha visto. Pensava que eu era s dele? Mas eu s tive com Guma poucas vezes. Gostava era do marinheiro.
- Tu no me intriga com Guma, no. Ele me tirou da boca do tubaro, voc t querendo me intrigar com ele.
- Tou querendo?
Contou tudo com os mnimos detalhes. Contou como Guma a possura na noite da molstia de Lvia. E ria.
- Agora tu me mata. Fica muita gente no cais pra rir quando voc passar, fica o Floriano, fica o Guma.
Rufino sabia que ela tinha contado a verdade. Seu corao estava triste, estava querendo a morte. No se sentia capaz de matar Guma, que o salvara uma vez. E demais 
havia Lvia, que no tinha culpa. Mas seu corao pedia a morte, e, j que no podia ser a de Guma, seria a dele. A grande lua do mar brilhava no cu. Esmeralda 
ainda ria. E foi rindo assim que morreu, o remo abriu sua cabea. Rufino ainda olhou o corpo que afundava. Os tubares atendiam ao chamado do sangue que ficou boiando 
nas guas do rio. Ele olhou, era um corpo muito amado que afundava. Corpo bom, dengoso, de olhos verdes e seios pujantes. Corpo que esquentara o seu nas noites de 
inverno. Carne que fora sua. No pensou em Guma um s momento. Era como se o amigo tivesse, morrido h muito. Passou longamente a mo pelo casco da canoa, olhou 
pela ltima vez as luzes distantes do seu porto, as guas se abriram para seu corpo. E na hora em que subiu pela ltima vez (j no percebia a canoa sem canoeiro 
que ia desgovernada) desfilaram perante seus olhos todos aqueles a quem o negro amara: viu seu pai, um gigante, sorrindo; viu sua me, curvada e trpega; viu Lvia, 
sua afilhada de casamento e Lvia ia no cortejo nupcial; viu D. Dulce; viu o velho Francisco, Dr. Rodrigo, mestre Manuel, saveireiros e canoeiros. E viu tambm Guma, 
mas Guma ria dele, ria nas suas costas. Seus olhos quase sem vida viram Guma rindo dele. Morreu sem alegria.

O "Valente"

Chico Tristeza voltou! Um dia um navio o trouxe de volta, como um navio o havia levado h muitos anos. Voltara um negro hercleo. Passou dois dias no porto, tempo 
que demorou seu navio, que era, um cargueiro escandinavo. Depois entrou de novo pelo oceano. Mas a noite que passou no cais foi de festa. Os que o conheciam vieram 
v-lo, os que no o conheciam vieram conhec-lo. Ele sabia lnguas esquisitas, andara por terras quase to distantes como as de Aioc.
Guma apertou sua mo, o velho Francisco pedia novidade. Chico Tristeza ria, tinha trazido um xale de seda para sua velha me, que vendia cocada. De noite veio para 
a frente do mercado, os homens se reuniram em torno dele, contou histrias daquelas terras. Histrias de cais, de marinheiros, de navios, histrias ora cmicas, 
ora melanclicas. Quase todas tristes, porm. Os homens o ouviam pitando os compridos cachimbos, olhando os saveiros. O vulto do mercado ao fundo se despenhava sobre 
eles. Chico Tristeza contou:
- L pras bandas da frica onde eu tive, meu povo, vida de negro  pior que vida de cachorro. Tive nas terras dos negros que agora so dos Franceses. Ali negro no 
vale nada, negro  s escravo de branco, apanha de chicote. E ali  terra deles...
- Calcule se no fosse...
Chico Tristeza olhou o aparteador:
- Nas terras deles eles no vale nada. S vale branco, branco  tudo, pode tudo. Os negros trabalha no cais, carrega, descarrega navio. Anda tudo depressa que nem 
rato de bordo, com os sacos nas costas. Se um no anda depressa, o branco manda o chicote que  mesmo uma beleza.
Os outros ouviam mudos. Um negro tremia de raiva. Chico Tristeza continuou:
- Foi nessa terra que se passou a histria que eu tou contando, meu povo. Foi quando tive l num navio do LIoyd Brasileiro. Os negros tava carregando o navio, o 
chicote do branco estalava no ar. S queria que um preto no andasse depressa pra estalar nas costas dele. Vai um preto que era foguista do navio -um de nome Bag 
- vinha chegando, tinha ido visitar uma cabrocha. Ia chegando, atrapalhou um negro da terra que tava com um saco nas costas subindo pela tbua,  por uma tbua que 
eles sobe. O negro parou um minuto s, o chicote do branco caiu nas costa dele, ele naufragou no cho. Bag nunca tinha apreciado o chicote do branco trabalhar, 
era a primeira vez que ia naquelas terras. Quando viu o negro se torcendo de dor, Bag arrancou o chicote do francs, deu um direto nele, o francs embicou, com 
a proa no cho. O francs ainda quis se levantar, mas Bag deu outro tranco, ele acabou de rebentar o focinho. Ento os pretos de l subiro do poro e cantaram um 
samba porque nunca tinham visto daquilo.
Os outros ouviam. Um negro no agentou, murmurou:
- Gosto desse Bag...
Mas Chico Tristeza foi embora. Seu navio s demorou dois dias, na segunda tarde levantou ferro, entrou pelo mar oceano, que era o destino de Chico Tristeza.
- 

Guma se despediu dele com saudade. Ficara dentro dele a histria do negro Bag.  assim aos poucos que o milagre de D, Dulce vai se realizando.
Guma pensara em viajar tambm quando era mais moo. Iria para terras distantes, vingaria negros humilhados, aprenderia aquelas coisas que Chico Tristeza sabia. Mas 
ficara no cais por causa de Lvia. Ficara somente por causa dela, no entanto a trara, trara Rufino, trara as leis do cais. Agora nem Rufino nem Esmeralda viviam 
mais, s tinham sido encontrados pedaos de cadveres, os tubares da boca da barra haviam devorado os corpos. Outros vizinhos vieram para a casa ao lado, nunca 
mais ele viu o busto de Esmeralda estendendo os seios para fora da janela numa provocao aos homens que passavam. Nunca mais viu as suas ancas rolias, seu olhar 
dengoso. Dengue que ela tinha, olhos verdes de mar, tudo ficara com os tubares, senhores daquele pedao de gua que vai de onde acaba o mar at onde comea o rio: 
a boca da barra. De quando em vez ainda pensava ouvir a voz de Rufino dizendo: "seu mano, seu mano", ou ento se lastimando: "e eu gostava daquela mulata, tava enrabichado 
por ela." No cais tudo comea e acaba de repente, como a tempestade. Menos o medo de Lvia, que  todo dia, que  um sofrer sem fim.
Lvia teme cada vez mais. No se acostuma com a vida eterna de eterna do cais. Ao contrrio, diariamente seu receio aumenta, cada vez a vida de Guma lhe parece mais 
em perigo. Diariamente o espera, nos dias de tempestade o seu corao bate rpido. J viu muitos, nesses meses, chegarem nos braos dos pescadores. Viu chegar os 
pedaos de Rufino e Esmeralda, mortos ambos, ningum sabe como. A canoa ficara boiando nas guas, ia sem rumo, desgovernada, foi por isso que procuraram os corpos. 
No encontraram seno pedaos de braos e pernas, a cabea de Esmeralda, os olhos verdes abertos num espanto. Lvia vira chegar tambm o corpo de Jacques e Raimundo. 
Eram filho e pai, morreram num temporal. Jacques deixou Judith viva, o filho acabara de nascer, ela vivia uma vida desgraada, vivia quase que de esmolas. Vira 
Risoleta se prostituir, ir com um e outro, ela que s fora de um homem mais de dez anos. Mas seu homem morreu no naufrgio do Flor dos Mares, saveiro que batera 
numa coroa de pedras. Vira muitos outros casos assim. Poucos mestres de saveiro morrem em terra firme, numa casa do cais.  raro um morrer na cama, sem ver na hora 
de se acabar o cu estrelado, o mar azul. Lvia teme. Se ainda pudesse se conformar - como Maria Clara, que  filha do mar - tudo iria bem, Maria Clara no tem angstia 
no corao porque sabe que tem que ser assim, que sempre foi assim. Nasceu no mar, no oceano esto todos os seus. S mestre Manuel ainda cruza as guas, e no entanto 
ele teve famlia grande, pais, irmos, parentes vrios. S o seu homem resiste ainda, mas seu dia hde chegar. Ento Maria Clara procurar uma fbrica que queira 
alugar suas mos, cantar as canes do mar em surdina junto aos teares ou s mquinas de fazer cigarros. Voltar para o mar quando estiver prximo o dia da morte 
porque nasceu ali, ali  seu porto, ali deve morrer. Assim pensa Maria Clara. Porm Lvia veio de terra, no nasceu no mar, ningum da sua famlia ficou nas guas, 
ningum foi com lemanj para as Terras do Sem Fim. Ir Guma. Destino do cais, ele no pode escapar. Maria Clara diz que ela pe agouro nele, que assim, ele morre 
mesmo. Mas  tamanha a certeza que ela tem, que toda a vez que o v voltar  corno se o visse ressuscitar.
So tristes de espera e de temor os dias de Lvia. O cais  belo, o mar vem se bater nas pedras, no h cu mais bonito. H msica, em todos os saveiros nas bocas 
dos homens. Mas para Lvia os dias so tristes e de muito sofrer,
- 

Um dia Rodolfo apareceu. Vinha aflito, indagando por Guma. Lvia no perguntou donde ele vinha. Jantou com ela, esperou que Guma chegasse. O saveiro era esperado 
l para as nove horas. Rodolfo ficou fumando, estava muito impaciente, andava de um lado para outro. Disse para Lvia, que o olhava:
- No dia do casamento eu no vim. No foi por querer, no. Uma atrapalhao que aconteceu. Mas tou vendo que as coisas to indo bem, vou ter um sobrinho...
- At quando tu quer levar essa vida sem jeito, Rodolfo? Tu podia parar, arrranjar qualquer coisa direita pra fazer... Essa vida no serve, voc vai acabar mal, 
os outros vo sentir...
- Ningum sente por mim, Lvia. Sou um traste ruim, ningum gosta de mIm.
Viu que era injusto e que Lvia estava triste:
- Quando falo isso tiro voc do meio. Voc tem pena de mim,  minha irm,  boa de verdade.
Parou no meio da sala:
- J pensei em largar essa vida um bocado de vezes depois que lhe encontrei. Mas no t em mim, arranjo um trabalho, acho um troo muito pau, caio na gandaia de 
novo. Depois de te conhecer j larguei umas trs vezes. Passou dez, quinze dias no emprego, dou o fora. No agento. Ainda no faz trs meses eu tava numa casa de 
jogo. Tava empregado, at deixava dinheiro. Ganhei uns cobres bons.
- O que era que tu fazia l?
- Eu era farol.
Diante da incompreenso dela, explicou:
- Era eu que tapiava os trouxas. Ficava jogando, s fazia ganhar. Os caras vinha, via minha sorte, cala tudo na patota. Em apostar e perder. - riu.
Lvia no disse nada. Ele voltou a caminhar.
- Pois no durei. Achava aquilo pau. Dei o fora. No sei o que , no sei mesmo.  um troo que t dentro de mim. S posso t fazendo negcio complicado, negcio 
arriscado.
- Tu precisa acomodar tua vida. Um dia posso precisar de voc,
- Voc tem um marido bom. Guma  um cabra direito.
- Mas pode morrer. -Bateu a mo na boca, renegando as palavras. - A s fica voc pra me ajudar... - baixou a cabea e murmurou:- e ao filhinho.
Rodolfo se voltou. Estava de costas, s o rosto virado para ela:
- Vou contar a voc. Sabe porque eu no vim ao casamento? Vontade eu tinha... mas queria um dinheiro qualquer. Era para um presente pra tu. Mas tava miqueado. Topo 
com um coronel, cara de sujeito que ainda t dormindo, quis passar o conto nele. - Calou-se um momento. Parecia desculpar-se: -Era pra dar um relgio pra voc. Tinha 
espiado um bonito numa vitrina. Quando dei de mim o homem tinha me deitado a mo, o guarda j tava junto de mim. Gramei uns meses... t a porque foi...
- Eu no queria presente, queria era que tu viesse.
- Mesmo de mo abanando? Tu  direita, tu  mesmo uma santa. Mas d uma coisa em mim, no tem jeito. Mas se tu precisar um dia...
Ela amparou a cabea do irmo. Ele estava cansado e impaciente. Guma no chegava. Ela agora temia pelo irmo e pelo marido. Rodolfo viera por um motivo que ela no 
conhecia e ele no quisera contar. Viera sem dvida pedir dinheiro, havia de estar a nenhum, recm-sado da cadeia. Ele se estendeu na esteira no cho. O cabelo 
bem penteado, alisado a brilhantina barata. Descansou no colo de Lvia. Ela passou a mo na sua cabea, cabea cansada de aventuras, de roubos arriscados, e cantou 
uma cantiga de ninar. Assim como ninaria seu filho, ninava agora seu irmo. Era um ladro. Passava contos do vigrio, vendia terras que no existiam, era scio de 
casas vagabundas de jogo, andava nos piores lugares, encostava mesmo o punhal nos peitos dos homens para tomar as carteiras. Andara pelas prises, tinha um talho 
em baixo do lbio, a mo cortada da navalha. Mas agora dormia como uma criana, era sem culpas como o filho que Lvia trazia no ventre. Era uma criana que ela ninava, 
um recm-nascido que dormia.
Eram mais de onze horas da noite quando Guma chegou. Lvia descansou com cuidado a cabea do irmo na esteira e correu para o marido. Ele explicava o atraso, uma 
demora no carregamento em Mar Grande. Ouvindo, a voz do cunhado, Rodolfo acordou.
Se abraaram, Guma foi buscar a cachaa para beberem um copo. Para comemorar o aparecimento de Rodolfo, explicava, e mesmo porque estava molhado da cabea aos ps:
- Tou molhadinho da silva.
Lvia botou comida para Guma. Rodolfo sentou diante do clice de cachaa. Guma comia o peixe rapidamente. Sorria ora para a mulher, ora para o cunhado, apontando 
com o beio a barriga de Lvia. Rodolfo olhou. Ficou olhando muito tempo. Balanou a cabea, alisou o cabelo, bebeu o resto da aguardente:
- Bem. Vou me botando.
- J vai to cedo?
- S vim ver vocs...
- Mas tu no disse que queria falar com Guma? -fez Livia.
- Queria mas era ver ele, faz tempo que no veio.
- Veja se agora tu aprende o caminho da casa...
Rodolfo riu. Botou o chapu com cuidado para no desmanchar o cabelo, se mirou num espelho que tirou do bolso, deu adeus, saiu assoviando:
Lvia murmurou:
- Bem que ele tinha um negcio pra falar com voc. Parecia que ele tava querendo dinheiro.
Guma largou o prato, chamou da janela:
- Rodolfo! Rodolfo!
O outro ia no fim da rua, voltou. Parou em baixo da janela. Guma perguntou em voz baixa:
- Tu t miqueado? Era isso que queria conversar? Posso cavar uns cinco.
Rodolfo descansou a mo no ombro do cunhado, examinou uma tatuagem que Guma tinha no brao:
- No era nada disso...-tirou dinheiro do bolso, mostrou. -tou cheio.
- Que era ento?
- No era nada, rapaz. Vinha s ver vocs.  srio.
Desceu novamente a rua. Ia assoviando, mas nem pensava na msica. Pensava que viera ali propor a Guma um dos seus negcios. Uma coisa que podia dar dinheiro fcil 
para os dois. Podia dar cadeia tambm. Mordeu o bigode bem aparado, assoviou mais forte. Lvia era igual a uma santa. E ele, Rodolfo, ia ter um sobrinho. Sorriu 
imaginando a cara da criana como seria, chorando na hora de nascer. Chutou uma pedra no caminho, perdera um bom negcio. Mas esqueceu logo aquilo, esqueceu mesmo 
que deixara de fazer um bom negcio s para no meter Guma numa empresa arriscada, por causa de sua irm e de seu sobrinho. Agora seguia as guas de uma cabrocha 
que descia a rua tambm.
- 

Os tios vinham v-Ia, andavam mais prsperos agora. A quitanda crescia, o velho usava colete, a velha trazia verduras para Lvia. Quando eles entravam, o velho Francisco 
saa, no gostava dos olhos com que eles espiavam a pobreza da casa. O tio torcia o nariz, dizia a Lvia que "esse negcio de saveiro no tem futuro". Porque ela 
no conseguia que Guma se mudasse para a cidade, largasse o mar de uma vez? Podia, com o produto da venda do saveiro, entrar para scio da quitanda. Ampliariam aquilo, 
fariam mesmo um armazm e poderiam at enriquecer e garantir o futuro para o menino que ia nascer. Era o melhor que ele tinha a fazer, largar aquela vida arriscada 
de cais, de viagens pelo rio e se mudar para junto deles. A tia acrescentava que outra coisa no se podia esperar de Guma se ele gostava realmente de Lvia como 
dizia. Lvia ouvia calada, no ntimo apoiava, gostaria que aquilo acontecesse.
Ela daria tudo para Guma deixar o cais. Bem sabia que um marinheiro dificilmente abandona seu saveiro, que quase nunca vai para outra vida, abandonando as guas. 
Quem nasce no mar morre no mar. Por isso no falava com ele sobre o assunto. Mas seria uma soluo para a sua vida. Acabaria aquele receio, que no a deixava descansar. 
E ademais seu filho no nasceria no mar, no se sentiria ligado a ele. Guma j fazia projetos de conduzir a criana nas suas viagens, de cedo lhe ensinar a manejar 
um barco. Depois de tanto sofrer por causa do marido, Lvia teria que sofrer outras noites tambm esperando o filho.
E, quando os tios se iam, ela pensava em falar com Guma. Havia de convenc-lo. Ele venderia o Valente (com muita pena, sem dvida. At ela mesma tinha pena), iria 
se estabelecer com os tios. Ela no temeria mais. Fazia propsito de falar com ele, mas quando Guma chegava molhado, do mar, ainda impregnado da viagem, da travessia, 
ela desanimava, sentia que era impossvel tir-lo do cais. Teria o mesmo fim que as outras. Ficaria sem seu homem numa noite de temporal. E seu filho j estaria 
ento acostumado com as velas, com as quilhas de barcos, com as canes do mar e os apitos dos navios. E nada pode mudar o destino de Sindbad, o marinheiro.
- 

No choveu. No se acumularam nuvens no cu naquela noite. Dezembro era ms de festa na cidade e no cais. Mas a lua no apareceu, a cor cinza do cu no ficou azul 
com a chegada da noite. O vento escurecia tud. Valia corno a chuva, os raios, os troves, fazia o papel de todos, aquela noite era ele s. Ningum ouvia a cano 
que Jeremias cantava, o vento a dispersava. Os velhos marinheiros olhavam as velas que entravam. Vinham numa velocidade demasiada, era preciso ser bom mestre de 
saveiro para saber parar um barco no cais numa noite assim. E vrios estavam no mar largo ainda, outros velejavam para a boca da barra, vinham do rio.
O vento  o mais terrvel dos dominadores do cais. Ele encrespa as guas, gosta de brincar com os saveiros. de faz-los voltear no mar, destroncando os pulsos daqueles 
que vo nos lemes. Aquela noite era dele. Comeou apagando as lanternas, deixando o mar sem suas luzes. S o farol piscava ao fundo, indicando o caminho. Mas o vento 
levava para caminhos errados, desviava-os da sua rota, trazia-os para o mar largo, onde as ondas eram fortes de mais para um saveiro. Ningum ouve a cano que o 
velho soldado canta no forte abandonado. Ningum v a luz da lanterna que ele colocou no parapeito da ponte que entra pelo mar. O vento apaga tudo, tudo destri: 
as lanternas, as canes. Os saveiros vm desgovernados, vm ao sabor do vento, vm girando como brinquedos. Os tubares esperam assanhados na boca da barra, Nessas 
noites eles tm presa certa. Os saveiros vm girando.
Lvia se cobriu com um xale (a barriga estava to grande que ela j mandara chamar a tia) e desceu a ladeira. Na porta do "Farol das Estrelas", o velho Francisco 
estudava o vento. Foi com ela. Outros bebiam l dentro, mas com os olhos para fora, para a noite ameaadora.
Grupos no cais conversavam. No cais dos transatlnticos os guindastes se moviam de um lado para outro.
Lvia ficou tambm ao sabor dos ventos. O velho Francisco foi saber as novidades num grupo. Lvia escutava pedaos da conversa:
-  preciso ser macho de verdade... esse ventinho  pior que qualquer temporal...
Esperou muito tempo. Talvez no tivesse sido meia hora sequer. Mas foi muito tempo para ela. A vela do saveiro que aparecia ao longe no era do "Valente". Parecia 
ser do barco de mestre Manuel. Vinha numa disparada louca, o saveireiro dobrado no leme, se aprontando para uma manobra que fizesse o barco parar. Maria Clara vinha 
curvada sobre qualquer coisa estendida na coberta do barco. Os seus cabelos voavam com o vento. Lvia ajeitou o xale que escorregava dos seus ombros, olhou os homens 
que desciam para a lama do cais e se aproximou da amurada. O saveiro atracara, Maria Clara estava curvada sobre um corpo. E mesmo antes de ouvir o que Manuel dizia: 
"O Valente naufragou", ela j sabia que era Guma quem estava ali deitado, no madeirame do Viajante sem Porto. Maria Clara estava curvada sobre ele. Lvia andou como 
uma embriagada, mas logo ficou estendida na lama que a separava do saveiro.

O Filho

Chamaram Dr. Rodrigo. Guma tinha um ferimento na cabea, fora de encontro a uma coroa de pedras. Mas quando o mdico chegou, atendeu primeiro a Lvia, que com o 
susto adiantara o nascimento do filho de alguns dias. E o garoto j chorava quando Guma pde se levantar com a cabea enfaixada, e o brao preso ao pescoo com tiras 
de gaze. Ficou olhando o filho. Maria Clara achava igualzinho  cara do pai.
- No tem que tirar nem pr.  Guma todinho.
Lvia sorria com cansao, Dr. Rodrigo mandou que sassem para ela descansar. Mestre Manuel foi para casa, mas Maria Clara ficou com Lvia at a tia dela chegar. 
O velho Francisco tinha ido busc-la e avisar os conhecidos. Quando ficou s com Lvia, Maria Clara disse:
- Voc hoje ganhou um filho e um marido.
- Me, conte.
- Agora no, tu precisa de descanso. Depois tu sabe como foi. Tambm o vento tava impossvel...
Guma andava na sala. Agora seu filho nascera e ele no tinha mais saveiro. Para ganhar a vida teria que se alugar corno canoeiro de um batelo. No teria um saveiro 
para deixar para seu filho quando se fosse para as terras de Aioc. Agora iria alugar seu brao, no teria mais um saveiro que fosse seu, um barco para dirigir. 
Aquilo fora castigo, pensava. Castigo porque havia trado Rufino, havia trado Lvia. Aquilo fora castigo. O vento descera sobre ele, o atirara sobre a coroa. Se 
Manuel no o visse nas guas, Guma nem teria visto seu filho.
Os tios de Lvia entraram. Abraaram Guma, o velho Francisco no caminho contara tudo, foram ver Lvia. Maria Clara se despediu, voltaria mais tarde. Avisou que Lvia 
estava dormindo, que no a acordassem. A tia ficou no quarto, mas o quitandeiro saiu logo e veio conversar com Guma:
- O saveiro t mesmo perdido?
- Afundou. Era um barco bom...
- O que  que voc vai fazer agora?
- Sei l... Arranjar trabalho numa canoa ou nas docas.
Estava triste, no tinha mais barco, seu filho no possuiria um saveiro. O tio de Lvia ofereceu a quitanda. Guma iria para l, ficaria tomando conta do negcio, 
ajudando. Ele pretendia aumentar o negcio:
- Tinha at falado com Lvia. Voc arranjava comprador pro saveiro, entrava de scio. Agora no precisa voc entrar com nada.
Guma no respondeu. Doa-lhe se afastar do cais, se dar por vencido. E no queria aceitar favores do tio de Lvia. O velho esperava que ela fizesse um bom casamento 
para ampliar a negcio, fundar o armazm. Fora contra o casamento com Guma. Depois fizera as pazes e pensara nele para seu scio. Agora todos os seus sonhos iam 
por gua abaixo, tinha que ficar era mesmo com a quitanda e Guma tirando dela o que comer. O velho esperava a resposta.
Francisco entrou. A tinta nova brilhava no brao. Mandara escrever o nome do "Valente" junto aos dos seus outros quatro saveiros, e eram "Trovo", "Estrela da Manh", 
"Laguna", "Ventania" e o "Valente" agora se juntava a eles. Mostrou a tatuagem nova com orgulho. Pousou o cachimbo, perguntou a Guma:
- O que  que tu vai fazer agora?
- Vou ser quitandeiro.
- Quitandeiro?
- Vai ser meu scio -fez com fora o tio de Lvia.
- Vai largar isso.
O velho Francisco apanhou novamente o cachimbo, botou fumo e acendeu. O tio de Lvia continuava:
- Vai viver l em cima. Vosmic pode vir com a gente tambm...
- Ainda sou muito homem pra ganhar minha vida sem precisar de esmola.
A tia apareceu na porta do quarto, botou o dedo nos lbios:
- Conversem baixo, para ela dormir -apontava para dentro do quarto.
- No queria ofender- explicou o tio de Lvia.
Guma pensava no tio. Que seria dele sozinho no cais? Em breve no poderia mais remendar velas, no teria como ganhar a vida, O velho Francisco pitou o cachimbo, 
tossiu:
- Vou dizer ao Dr. Rodrigo que no precisa mais...
- O qu?
- Joo Caula t vendendo o "Roncador". Comprou trs batelo, no quer mais o saveiro. T vendendo barato, basta dar a metade, o Dr. Rodrigo tinha dito que ajudava... 
Mas tu vai ser quintandeiro...
- Dr. Rodrigo d a metade?
- D emprestado. Tu vai pagando quando puder. A outra metade  fiado, paga todo ms.  um barco bonito.
- No tem outro to bom nesse porto -o velho Francisco se entusiasma.- S enxergo mesmo o "Viajante sem Porto". Tudo mais perde para ele. E ele t vendendo baratinho.
Disse quanto era, Guma concordou que no estava caro. Pensava no filho. Assim ele poderia ter um saveiro.
- Joo Caula t aqui?
- T viajando. Mas quando ele voltar ns fala.
- Ningum quer o barco?
- Quem  que no quer? Tem gente na frente, mas eu arranjo com ele. Conheci Joo Caula menino, comendo barro.
O tio de Lvia entrava no quarto. Guma olhava Francisco como a um salvador. O velho pitava o cachimbo, o brao em cima da mesa para a tatuagem secar. Comentou:
- Foi o meu barco que durou mais...
- O "Valente"?
- Tu te lembra quando eu ia jogando ele nas pedras ? Riu; Guma riu tambm. Foi buscar a garrafa de cachaa:
- A gente muda o nome do "Roncador".
- E que nome bota?
- Tenho um batuta: "Paquete Voador"
Entravam conhecidos. A garrafa de cachaa no demorou a se esvaziar. Um cheiro de alfazema dominava a casa.
- 

Quando pde conversar com ela a ss, lhe contou como fora o desastre. Lvia ouviu de olhos semicerrados. Ao lado o filho dormia. Quando ele terminou, ela disse:
- Agora que a gente no tem mais saveiro, vamos procurar outra vida.

- Mas j tou negociando com outro saveiro...
Contou do negcio que tinha em vista. Com um saveiro como o Roncador faria dinheiro na certa. Um barco grande e ligeiro:
- Tu sabe que eu no podia ir para casa de seu tio assim sem entrar com nada. Mas quando a gente tiver ganho dinheiro com o saveiro a gente pode vender e se juntar 
com eles. A sim...
- De verdade?
- Juro.
- Quanto demora isso?
- Seis meses levo pagando... Com mais um ano a gente j juntou um dinheirinho, pode vender o barco. Junta tudo com o do velho, funda um armazm...
- Tu jura?
- Juro.
Ela ento lhe mostrou o filhinho. E dizia com os olhos que era por causa dele. Somente por causa dele.

Toufick, o rabe

Chegara na 3. classe de um lugre que tocara em vinte portos. Chegara das terras do outro lado do mundo, quase nada trazia na carteira de couro que apertara contra 
o peito ao comear a vencer a ladeira da Montanha. Chegara numa noite de tempestade, na noite em que o saveiro de Jacques virara na boca da barra. Naquela noite, 
a bordo da 3. classe, olhando a cidade estranha na sua frente, chorava. Viera da Arbia, de uma aldeia entre os desertos, vencera mares de areia, para vir ganhar 
a vida no outro lado da Terra. Outros tinham vindo antes dele, alguns haviam voltado e tinham bosques de oliveiras, casas lindas, eram ricos. Ele viera para isso 
tambm. Sara de entre as montanhas, atravessara extenses de areia no dorso dos camelos, se metera na 3. classe de um navio, morou no mar muitos dias.
Nem sabia a lngua ainda e j vendia sombrinhas, seda barata, bolsas, s empregadas e criadas da Bahia. Aos poucos se familiarizou com a cidade, com a lngua, com 
os costumes. Morava no bairro rabe da Ladeira do Pelourinho, donde saa todas as manhs com sua mala de mascate. Depois foi melhorando a vida. Foi quando conheceu 
F. Murad, o rabe mais rico da cidade. A grande casa de sedas de F. Murad tomava quase um quarteiro da Rua Chile. Falava-se que ele enriquecera no contrabando de 
sedas. Muitos dos outros rabes o odiavam, diziam que ele no ajudava os patrcios. Em verdade F. Murad tinha uma verdadeira estatstica dos seus patrcios que viviam 
na Bahia. E quando um deles se revelava um sujeito que lhe podia ser til, ele o chamava, tinha sempre trabalho nos seus diversos negcios. H muito que se interessava 
por Totifick. Recebera uma carta dizendo que ele vinha e dizendo o verdadeiro motivo da sua vinda. No era s em busca de riqueza que Toufick vinha. Abandonara a 
sua terra porque queria ser esquecido l, deixara um rastro de sangue atrs de si. F. Murad o deixou em observao vrios meses. Viu corno ele prosperava rapidamente. 
Era alm de tudo um homem de coragem, capaz de qualquer negcio que lhe trouxesse dinheiro. F. Murad o chamou e o empregou no mais rendoso dos seus vrios negcios. 
Agora era Toufick quem tratava com os despenseiros de bordo, com os comandantes de navio, com os pilotos, com todos aqueles que se relacionavam com os carregamentos; 
de seda que no deviam pagar impostos. Se revelara habilssimo, nunca haviam corrido to bem os negcios.
Dentro de alguns anos Toufick tambm poder voltar, apagaria ento na sua terra de montanhas entre areias o rastro de sangue que deixara, plantando sobre ele um 
bosque de oliveiras.
Conhecia o cais como pouca gente. Os mestres de saveiro lhe eram familiares, o nome dos barcos ele os sabia todos, se bem os pronunciasse de um modo pitoresco. Xavier, 
o mestre do Cabar, trabalhava para ele. E se no havia juntado dinheiro era que Xavier tinha um desgosto na vida e o seu dinheiro mal chegava para beber no "Farol 
das Estrelas" e para jogar nas roletas viciadas de certas ruas da cidade alta. Era Cabar que ia receber as peas de seda na calada da noite de bordo dos navios 
e que as conduzia para lugares de poucos conhecidos. E de tanto fazer aqueles roteiros desconhecidos e perigosos, Toufick, o rabe, j era quase um verdadeiro mestre 
de saveiro. Pelo menos j ouvia embevecido as canes que pela noite adentro o soldado Jeremias cantava no forte velho. E numa noite de cerrao cantou na sua lngua 
uma cano do mar que ouvira de patrcios seus, marinheiros, no porto em que embarcara. Em uma melodia estranha na cerrao da noite. Mas as canes de martimos, 
por mais diversas que sejam a sua lngua e a sua msica, falam sempre em amor e em morte no mar. Por isso todos os martimos as compreendem, mesmo quando so cantadas 
por um rabe das montanhas que as ouviu num porto sujo da sia.

Contrabandista

Agora o filho comeava a andar, brincava com barcos que o velho Francisco fazia. Abandonados num canto, sem um olhar do garoto sequer, um trem de ferro que Rodolfo 
trouxera, o ursinho barato que Lvia comprara, o palhao que era presente dos tios de Lva. O barco feito de um pedao de mastro que o velho dera valia por tudo. 
Na bacia onde Lva lavava roupa ele navegava sob os olhares encantados do garoto e do ancio. Ia sem leme, ia sem guia, por isso nunca a alcanava um porto, ou 
ficava parado no meio da gua, ou andava sem destino. O menino falava na sua lngua que lembrava a de Toufick, o rabe:
- Vov, f pet.
O velho Francisco sabia que ele queria que a tempestade desencadeasse sobre a bacia. Como Iemanj, que fazia o vento cair sobre o mar, o velho Francisco inchava 
as bochechas e desencadeava o nordeste sobre a bacia. O pobre barco rodava sobre si mesmo, andava ao lu do vento rapidamente, o garoto batia palmas com as mozinhas 
sujas. O velho Francisco inchava mais as bochechas, fazia o vento mais forte. Assoviava imitando aquela cano de morte do nordeste. As guas da bacia, calmas como 
as de um lago, se agitavam, ondas varriam a barca, que terminava por se encher de gua e afundar lentamente, o garoto batia palmas, o velho Francisco via sempre 
com tristeza o barco ir ao fundo. Apesar de ser uma miniatura, feita pelas suas prprias mos, era de qualquer maneira um saveiro que afundava. As ondas da bacia 
serenavam. Ficava tudo como se fosse um lago. O saveiro no fundo virado de um lado. O garoto metia a mo na bacia e trazia o barco. O brinquedo recomeava e assim 
criana e velho passavam a tarde, debruados sobre uma miniatura do mar, sobre um saveiro em miniatura, sobre o verdadeiro destino dos homens do mar e dos barcos.
Lvia olhava com medo o urso, o palhao, o trem abandonados. Nunca o garoto fizera o trem descarrilar no passeio da casa. Nunca fizera o urso matar o palhao. Os 
destinos da terra no lhe interessavam. Seus olhos vivos seguiam o pequeno saveiro, na sua luta contra a tempestade que saa das bochechas do velho Francisco. O 
urso, o palhao, o trem abandonados. Uma vez uma esperana encheu o corao de Lvia. Foi no dia em que Frederico, (se chamava Frederico) largou a bacia em meio 
a mais furiosa tempestade e foi procurar o palhao. Quando o encontrou, pegou nele com cuidado. Lvia seguia atenta. Teria ele se cansado das tempestades e naufrgios? 
Teria somente se interessado pela sorte do bote enquanto aquilo era uma novidade? Voltava agora, cansado, para os outros brinquedos esquecidos? Mas no. Ele levou 
o palhao para o barco. Queria era transform-lo em mestre de saveiro, um mestre de saveiro, bem esquisito, na verdade, com aquelas bombachas amarelas e azuis. Mas 
aparece tanto marinheiro de estranhas vestimentas que ningum se admiraria de um vestido de bombachas. E daquele dia em diante todas as vezes que o saveiro naufragava, 
o palhao (lutara contra a tempestade at o ltimo momento) se afogava, morria como um mestre de saveiro. No fundo da bacia seu corpo de pano inchava como se estivesse 
cheio de siris. O garoto batia palmas, ria para o av. Francisco ria tambm o brinquedo recomeava.
Naufragou tanto o barco, tantas vezes se afogou o seu mestre, que o pano foi apodrecendo e um dia ele ficou aleijado de uma perna. Mas um homem do mar no pede esmola. 
E o estranho marinheiro de bombachas continuou a lutar contra as tempestades com uma perna s, encostado no mastro do seu barco. O garoto dizia para o velho Francisco:
- Bab meu ele.
O tubaro tinha comido a perna dele, o velho Francisco entendia. Depois comeu a cabea, que se desprendeu do corpo no meio de uma tempestade braba. E mesmo sem cabea 
(era o marinheiro mais estranho de todos os mares) continuou no leme do seu saveiro, atravessando com ele as tempestades. O garoto ria, o velho ria. Para eles o 
mar  amigo,  doce amigo.
S Lvia no ria. Olhava o urso, o trem abandonados. Para ela o mar  inimigo, o mais terrvel dos inimigos. E os homens que vivem no mar so como aquele palhao 
de bombachas amarelas e azuis, que a sorte fez marinheiro: mesmo sem perna, mesmo aleijado, lutava contra a fria do mar, sem um gesto de dio.
O garoto e o velho riam. A tempestade soprava furiosa sobre a bacia, o barco corria ao sabor do vento, o marinheiro sem cabea e sem, perna procurava governar seu 
saveiro.
O Roncador tinha se transformado no "Paquete Voador" fora pintado de novo. Tambm se fizeram necessrias novas velas e o barco ficou um dos mais velozes do cais 
da Bahia. Dr. Rodrigo entrara com a metade para Guma pagar quando terminasse a pagamento da outra parte a Joo Caula. Foi dividida essa parte em dez prestaes 
mensais. O dinheiro que tinha em casa ele empregou no conserto do barco. E se atirou ao mar, com firmeza. O ano de prazo que pedira a Lvia, para conseguir algum 
dinheiro com que entrar como scio do tio dela, ele o estendeu a dois anos. Porm no fim do primeiro ano ainda devia quase tudo a Joo Caula e no comeara sequer 
a pagar a parte do Dr. Rodrigo. A vida para os canoeiros e mestres de saveiro tinha piorado muito. Alm de haver pouca carga, era poca de paradeiro, as tabelas 
estavam muito por baixo, devido s lanchas de gasolina que faziam o transporte mais rpido e mais barato. Pouco dinheiro se ganhava e o cais nunca ouvira tanta maldio.
Lvia j desanimara de conseguir que Guma abandonasse a vida do mar nesse ano. Trabalhava agora para que ele pudesse pagar o que devia, pudesse ficar com o saveiro 
livre. Joo Caula andava em cima, as prestaes estavam atrasadas, Joo Caula tambm no ia bem com os bateles que comprara. Dr. Rodrigo, no reclamava, mas Joo 
Caula vivia em cima deles, quase no saa da porta de Guma, ia esper-lo de volta das viagens. Porm no eram muitas as viagens agora. Os mestres de saveiro e os 
canoeiros passavam grande parte do tempo na frente do cais do mercado comentando a vida difcil, o paradeiro do fim do ano. Quando no, iam matar as mgoas no "Farol 
das Estrelas", onde seu Babau ainda fiava cachaa, anotando os dbitos num caderno velho de capa esverdeada. Guma estava aceitando todas as viagens, mesmo quando 
s havia carga para levar, aceitava mesmo viagens pequenas para Itaparica, mas nem assim sobrava dinheiro no fim do ms pra dar a Joo Caula. Lvia ajudava o velho 
Francisco no conserto das velas. Passava grande parte do dia curvada sobre o pano grosso da vela rebentada pela tempestade, a agulha na mo. Mas quase todo esse 
trabalho era fiado, que as coisas estavam ruins para todos os da beira do cais. Estavam to ruins que os estivadores falavam mesmo em entrar em greve. Guma vivia 
procurando servio, fazia as viagens o mais rpido que podia, para ficar com o fregus. Vrios mestres de saveiro venderam seus barcos e pegaram outros trabalhos 
no porto: docas, navios de longo roteiro, transporte de malas e objetos de viajantes. E, como pouco tinham que fazer, cantavam e bebiam.
- Seu Joo Caula teve aqui...
Guma sacudia o saco de viagem na cama. Olhou o filho, que brincava com Francisco. Era fim de ms e ele prometera pagar alguma coisa a Joo Caula. Mas no tinha 
sobrado nada, essa ltima viagem rendera uma ninharia, era uma viagem a Itaparica. O menino brincava junto  bacia de gua. Guma no quis jantar, saiu logo. No 
tinha passado ainda cinco minutos quando Joo Caula bateu na porta:
- Guma chegou, sinh Lvia?
- Chegou mas j saiu, seu Joo.
Joo Caula ainda olhou desconfiado para dentro:
- No sabe pra que lados se botou ?
- No sei, seu Joo. Tava l dentro.
- Ento boa noite.
- Boa noite, seu Joo.
Joo Caula desceu a rua puxando o bigode. Candeeiros nas casas iluminavam salas pobres. Um homem ia entrando embriagado numa delas e Joo Caula ouviu uma mulher 
que dizia:
-  assim que tu chega, no ... Como se no bastasse...
No cais grupos conversavam. Joo Caula perguntava por Guma. No o haviam visto. Na frente do mercado, porm, algum informou que Guma estava no Farol das Estrelas.
- T esquecendo as mgoas...
Outro perguntou:
- Como t indo com teus batelo, Joozinho?
- Como podia t indo? Quem  que t indo bem? Aquilo s d despesa...
Continuou sua caminhada. Encontrou Dr. Rodrigo, que descia fumando.
- Boa noite.
- Boa noite, doutor. Eu at queria dar duas palavras a vosmic...
- Que , Joo?
-  a respeito daquela doena da patroa. Vosmic foi l uma poro de vez, botou ela em p. Abaixo de Deus foi vosmic que salvou ela. E eu no lhe paguei ainda.
- No tem nada, Joo. Eu sei que as coisas no vo bem...
- to ruim mesmo, doutor. Mas o senhor precisa de receber. O senhor no vive de brisa. Logo que melhore...
- No se preocupe com isso. Eu me arranjo.
- Obrigado doutor.
Rodrigo se foi com o seu cigarro. Joo Caula pensou em Guma. Quis voltar (os tempos estavam ruins), chegou mesmo a virar o corpo, mas tomou uma resoluo e embicou 
para o "Farol das Estrelas".
Viu logo Guma num mesa diante de um copo de cachaa. Mestre Manuel estava com ele. Do alto do seu balco seu Babau olhava com tristeza os fregueses, estava com uma 
cara de sono. Joo Caula viu mestre Manuel suspender a mo num gesto de desnimo. Ficou quase sem coragem de entrar. Olhou Guma com pena. Os longos cabelos morenos 
do mestre de saveiro caam-lhe na frente da cara e os olhos pareciam amedrontados. Ele est com medo, pensou Joo Caula e tentou recuar novamente. Mas tinha que 
pagar aos canoeiros dos bateles e se adiantou. Alguns fregueses do "Farol das Estrelas" o cumprimentaram. Ele respondia com gestos, se deixou cair numa cadeira 
junto a Manuel, este disse:
- Como vai? - Parecia ter arrancado o cumprimento com dificuldade.
- Seu Joo... - disse Guma.
Joo Caula puxou o bigode, pediu uma cachaa. Mestre Manuel parecia multo desanimado, estava mudo, olhando o interior do copo vazio. E ficaram os trs em silncio 
algum tempo. Ouviram um fregus gritar num canto:
- Olhe se essa pinga sai ou no...
E seu Babau anotando nomes no caderno. De repente Guma levantou o corpo, passou a mo na cabea botando o cabelo para trs e falou:
- Ainda nada, seu Joo. As coisas to ruins.
Mestre Manuel repetiu como um eco:
- To ruins...
E perguntou em voz mais alta:
- Quanto tempo isso vai demorar? Seu Babau olhou, suspendeu a mo do caderno, ficou com o lpis parado no ar. Joo Caula comeou a ouvir a modinha que o cego cantava 
na porta. Era triste, sem dvida. A modinha vinha devagarinho e ia se apossando de Joo Caula. Mestre Manuel respondeu  prpria pergunta:
- Eu acho que isso nunca mais acaba. E a gente morre de fome...
Seu Babau baixou o lpis. Coou a cabea e sorriu sem saber de qu. Dobrou o caderno e deixou de tornar nota das despesas. Agora encostara a cabea no brao e parecia 
dormir.
- Arriou as velhas - comentou algum.
- To ruins... -disse Joo Caula se referindo aos meses que passavam.
A modinha do cego se arrastava l fora. No se ouvia o rudo de nenhuma moeda pingando na sua lata. Mas ele cantava. E Joo Caula tinha que ouvir aquela modinha 
mesmo que no quisesse. Guma tornou a falar...
- Tava pra dar a vosmic dinheiro esse ms, mas tou limpo. No fiz nada, no fiz mesmo nada, seu Joo.
Uma mulher entrava, era Madalena. Olhou para as mesas. Ningum a convidou. Ela riu, gritou com sua voz cheia:
- Tem enterro aqui?
Quase todos olharam para ela. Mestre Manuel estendeu a mo, j tinham sido amantes. Mas foi por causa de Joo Caula que ela veio para a mesa.

- Me paga uma cachaa, Joo.
O menino trouxe a cachaa. A modinha do cego falava na pobreza dele, pedia uma caridade se eternizava l fora. Guma continuou:
- Seu Joo, o senhor vai ter pacincia. Deixar essa coisa melhor...
Mestre Manuel duvidou:
- E isso melhora algum dia?
Madalena espiou para eles. Depois gritou para seu Babau:
- No bota a vitrola hoje, Babau?
Babau levantou a cabea do brao, olhou em torno, foi dar corda na antiquada vitrola. Um samba comeou a encher a sala. Ainda assim era a modinha do cego que Joo 
Caula ouvia.
- S que tem, Guma, que eu tambm tou atrapalhado. Atrapalhado como o diabo. Tenho trs canoeiros para pagar. O batelo no tem dado nada, s despesa.
Fitou mestre Manuel, depois Madalena, abanou as mos:
- S despesa...
- Eu sei, seu Joo. Eu tou querendo pagar, mas cad?
- tou sem jeito, Guma. Ou arranjo dinheiro ou tenho que torrar um batelo nos cobres pra pagar as dvidas...
A modinha do cego penetrava apesar do samba. Guma baixou a cabea. Seu Babau voltara a dormir em cima do caderno. Madalena acompanhava a conversa com interesse.
- tava pensando...
Seu Joo Caula no continuou.
- O qu?
- A gente vendia o barco, tu recebia tua parte, eu me arranjava com o resto. Se tu quisesse, a gente podia fazer uma combinao, voc vinha trabalhar nos batelo.
- Vender o Paquete?
A modinha do cego dominava inteiramente o samba. Esse era mais alto, mais forte, porm eles s ouviam o que o cego cantava:
"Tenha d de quem perdeu a luz dos olhos."
Mestre Manuel tambm no compreendia:
- Vender o Paquete Voador?
Madalena botou a mo na mesa:
-  um barco to bonito...
- Sino, como  que a gente vai se arranjar? -Joo Caula perguntava.
Repetiu:
- Como ?
- Seu Joo, espere mais um ms, eu arranjo dinheiro. Nem que tenha que passar fome este ms...
- No  por mim, Guma. Eu tambm tenho que pagar. -Estava com medo que pensassem que era usura dele. A msica do cego o torturava. - Tu bem sabe que eu no sou capaz 
de me aproveitar de uma m ocasio pra esfolar um companheiro. Mas a coisa t preta, eu no vejo outro jeito...
- Para o ms...
- Se eu no pagar os homens amanh, eles larga as canoas.
Mestre Manuel perguntou:
- No se pode dar um jeito?
- Como?
- Arranjar um dinheiro emprestado?
Ficaram pensando em quem poderia emprestar. Manuel lembrou mesmo Dr. Rodrigo. Mas tanto Guma como Joo Caula deviam a ele. Foi posto de lado. Joo Caula continuava 
a se desculpar:
- Pergunte pro velho Francisco se sou homem pra essas coisas. Ele me conhece faz muito tempo... (Tinha vontade de pedir ao cego que se calasse.)
Madalena lembrou seu Babau:
- Quem sabe se ele pode emprestar?
-  mesmo... - disse Manuel.
Guma os olhava tmido, como que suplicando que eles o salvassem. E Joo Caula continuava a se desculpar, tinha vontade de dar o saveiro de presente a Guma e depois 
se jogar na gua porque no tinha coragem de olhar os canoeiros atrasados no salrio. Mestre Manuel levantou-se, foi at o balco, subiu, pegou devagarinho no brao 
de seu Babau. E o trouxe para a mesa. Seu Babau sentou-se: -O que ?
Guma coou a cabea. Joo Caula estava inteiramente voltado para a modinha do cego. Foi mesmo mestre Manuel quem falou:
- Tu como vai de dinheiro?
- Quando receber tudo que me devem de cachaa tou rico -riu seu Babau.
- Mas tu tem algum que possa emprestar?
- Quanto tu quer?
- No sou eu.  aqui seu Joo e Guma.- Virou-se para Joo Caula.- Quanto voc precisa com mais pressa?
Joo Caula continuava a ouvir o gemer do cego. Explicou:
-  para pagar meus canoeiros. Tou com um dinheiro com Guma, tu sabe como as coisas to ruim...
Guma atalhou:
- Eu fico devendo, pago assim que arranje um dinheirinho. T tudo difcil.
Seu Babau perguntou:
- Mas quanto ?
Joo Caula fez clculos:
- Com cento e cinqenta eu me arranjava...
- No tenho nem a metade a. Posso abrir o cofre pra voc ver...
Refletiu:
- Se ainda fosse negcio de cinqenta mil ris...
- Tu no te arranja com cinqenta?
- Manuel olhou para Joo Caula.
- Cinqenta mal vai dar para um. Os cento e cinqenta mil ris assim mesmo s paga parte.
- Quanto tu tinha que dar, Guma?
- Cem por ms... Mas tou atrasado no pagamento.
Seu Babau levantou-se, desapareceu no fundo no botequim. Madalena declarou:
- Se eu tivesse...
A vitrola parara. Ficaram em silncio ouvindo o cego. Seu Babau voltou com cinqenta mil ris em notas de dez e cinco. Deu a Guma:
- Tu me paga na primeira viagem, t certo? Guma entregou o dinheiro a Joo Caula. Mestre Manuel pousou a mo no ombro de Madalena:
- Arranje um coronel que empreste cem mil  gente. Ela sorriu:
- Se arranjar cinco hoje, tou feliz...
Guma disse a Joo Caula:
- Espere mais uns dias. Vou ver se arranjo pra completar.
Joo Caula fez um gesto concordando. Madalena suspirou descansada e comeou a falar muito:
- Vocs conhece a Joana Doca? Tu conhece, no , Manuel? Pois ela hoje tava na janela quando viu um cara espiando muito. Foi e...
Mas Guma interrompeu:
- Vocs sabe que eu no tenho nada tirando aquele barco, que nem  meu direito, devo ele quase inteirinho. Devo a voc e ao Dr. Rodrigo. Se eu ficar sem o barco, 
o que  que deixo pra meu filho? A gente no vive muito, um dia cai um temporal, a gente vai embora. Ainda quem no tem filho nem mulher...
- Vida desgraada - fez Manuel. -Por isso no quero filho. A patroa bem que quer...
-  uma mulher bonita a tua - disse Madalena a Guma.
- Tu conhece ela?
- J vi andando com voc.
A msica do cego continuava na porta. Veio mais cachaa. Joo Caula falou:
- Se eu arranjasse mais dez, dava vinte a cada homem... Talvez a gente pudesse ficar mais descansado.
- Dez eu arranjo amanh de manh - respondeu Manuel. - A patroa deve ter.
- Ela se parece com a mulher que t morando l em casa agora -fez Madalena.
- Tem gado novo em tua casa?
- Se aquilo  novo... Deus te livre.
- Quem ?
- Uma velhusca. Diz que foi mulher do Xavier.
- Do Xavier? O mestre do Cabor?
- Desse mesmo.
- Uma vez ele contou umas coisas dela -disse Guma.
- Eu tava - concordou mestre Manuel.
- Ele gostava um bocado dela. Ela deu o fora dele, ele botou ainda o nome no barco... Ela chamava ele de Cabor.
- ta sujeito esquisito. - Madalena fez um muxoxo com a boca. -Nunca vi outro. Todo no sei como...
- Tu era muito amigo de Rufino, no era? - Joo Caula virou-se para Guma.
- Porque pergunta? -ouvia agora distintamente a cano do cego.
- Diz que a que ele matou a mulher, ela tava botando os chifres nele com um marinheiro de um navio.
- J ouvi falar - apoiou Madalena. - tou sabendo disso agora. E se fez foi bem feito. Era um negro direito.
- No tinha dois canoeiros igual a ele nesse cais - fez Manuel.
Guma ouvia Rufino dizendo: "seu mano, seu mano." Mas se consolava porque pensava que Rufino morrera sem saber que ele tambm o trara. Joo Caula encerrava a conversa:
- Se fosse eu matava o cabra tambm...
Maneca Mozinha ia entrando. Juntou-se ao grupo, mas falou pra sala toda:
- Vocs sabe o que se deu?
Ficaram esperando. Maneca Mozinha contou:
- Xavier vendeu o barco a Pedroca por uma porcaria, engajou naquele grego que tava com falta de um marinheiro.
- Que 't dizendo?
-  como digo. No falou com ningum. Saiu h coisa de meia hora...
- Foi a mulher -murmurou Madalena.
- Diz que a bia dos barco grego  uma misera - comentou um negro.
Saram. Na porta o cego cantava. Estendeu a meia cuia de queijo e Joo Caula deixou cair uma moeda de dois tostes. No compraria fumo para seu cachimbo naquela 
noite.
- 

Toufick, o rabe, sofreu um grande abalo com a fuga de Xavier. Um navio entraria dentro de cinco dias com um carregamento grande de sedas de contrabando. Como tir-lo 
do barco sem um saveiro, sem um mestre em quem confiasse? Explicou para F. Murad:
- Era um cachaceiro, foi por isso. Sujeito que bebe no serve. Agora vou arranjar um homem srio.
- Trate de arranjar logo, preciso desembarcar o carregamento.
Toufick veio para o cais. Tratou de indagar com seu Babau das finanas dos diversos mestres de saveiro. Soube do caso da vspera, do emprstimo feito a Guma, da 
quase venda do Paquete Voador. Perguntou:
-  um sujeito srio? -Guma?
- Sim.
- No h homem mais direito no cais.
Foi certo para a casa de Guma. Foi Lvia quem atendeu:
- Guma saiu mas no demora, seu Toufick. Quer esperar?
Ele disse que sim. Ficou sentado na sala, rolando o chapu na mo, olhando a criana que nos fundos da casa se sujava numa poa de gua. E Toufick ficou se lembrando 
do que o Rodolfo lhe dissera certa vez (Toufick o procurara, era credor de uma roupa de Rodolfo, para saber se Guma queria se meter no negcio de contrabandos): 
"O meu cunhado no  o homem que voc precisa, turco." Dissera que Guma no era homem para se meter em negcios assim. E Toufick pensava se valia a pena estar ali 
esperando. Tinham que substituir Xavier com urgncia. Guma era o homem indicado: estava endividado, era um dos melhores mestres de saveiro do cais, tinha um barco 
bom e veloz. Mas teria coragem de se meter naquele negcio? Em escrpulos Totifick no pensou. Levantou-se, espiou na janela. Guma apontava na rua. Quando o viu 
apressou o passo:
- Que h de bom, seu Toufick?
- Queria conversar com o senhor.
- Tou s ordens...
Lvia veio espiar l de dentro, Guina perguntou:
- Torna uma cachacinha, seu Toufick?
- Um pouco, quase nada.
- Uma cachaa, Lvia, pra seu Totifick.
Totifick apontou a criana no quintal:
- Seu filho?
-  sim.
Lvia veio com a cachaa. Totifick bebeu. Quando Lvia desapareceu no interior da casa, ele chegou a cadeira furada para junto do caixo de Guma:
- Desculpe, seu Guma, mas como vai o senhor de dinheiro ?
- No tou indo bem no, seu Toufick. O paradeiro t danado, porqu?
- Eu sabia. Os tempos esto maus, muito maus. Mas assim mesmo um homem decidido ainda pode ganhar muito dinheiro.
- T a uma coisa difcil...
- O senhor no acabou de pagar seu saveiro novo.
- Tou atrasado. Como  que se pode ganhar dinheiro?
- O senhor j soube que Xavier foi embora?
- Soube. Foi a mulher dele que apareceu.
- Que mulher?
- A dele. Era casado.
- Ento foi por isso. Pois ele trabalhava pra mim, o senhor sabia?
- Tinha ouvido dizer.
- Pois ele deixou Totifick na mo, como vocs dizem. E o trabalho dele era de deixar muito dinheiro.
- Recebia os contrabandos.
- Umas encomendas que vinham a bordo e...
- No gaste sua finura comigo, seu Toufick. Todo mundo no cais t farto de saber. E agora o senhor quer fazer negcio comigo ?
- O senhor pode pagar seu saveiro em dois ou trs meses.  negcio que d. Pode ganhar de uma vez s at quinhentos mil ris.
- Mas se a polcia mete o olho o camarada t naufragado.
- Como a gente faz nunca se descobre. J se descobriu?
Olhou Guma indeciso:
- Quarta-feira entra um barco alemo. Traz um carregamento grande.  negcio para dar... - suspendeu a frase. - Quanto ainda est devendo do seu saveiro? Muito dinheiro?
- Uns oitocentos mil ris, mais ou menos.
- Pois  negcio para dai, de uma bolada uns quinhentos mil ris. Negcio grande, para umas trs viagens do saveiro. Em menos de uma noite voc pode botar mo nesse 
dinheiro.
Agora falava com a cabea, bem encostada na de Guma, falava em segredo, como um conspirador para outro, Guma pensava que podia fazer aquele servio uma ou duas vezes, 
o necessrio para pagar o barco, depois dava o fora em Toufick. Mas o rabe parecia adivinhar:
- Com dois ou trs negcios voc pode pagar o barco e at dar o fora se quiser. Eu me desaperto, pois estou sem ningum. Voc se livra das dvidas. E demais  um 
ou dois carregamentos por ms. O resto do ms voc viaja, nem d na vista.
Toufick ficou esperando a resposta. Guma pensava. Faria aquilo uma ou duas vezes. Pagaria o barco, daria o fora. O prprio Toufick o dissera. No tinha medo. At 
gostava das empresas arriscadas. Mas temia o desgosto de Lvia se ele fosse preso. Ela j sofria tanto pelo irmo... Ouviu a voz de Toufick:
- Est precisando de dinheiro?
Viu Joo Caula sem poder pagar aos canoeiros, querendo vender o saveiro:
- Senhor me adianta cem mil ris? Topo o negcio.
O rabe meteu a mo no bolso da cala, tirou um embrulho de papis. Eram cartas, recibos, vales. E dinheiro misturado com aquela papelada suja:
- Voc sabe onde Xavier desembarcava as sedas?
- Onde era?
- No porto de Santo Antnio.
- Perto do farol da Barra?
- Era.
- T bem.
Recebeu os cem mil ris. O velho Francisco entrava. Toufick se despediu, disse em voz baixa a Guma:
- Quarta-feira, As dez horas, esteja com o saveiro preparado.
O velho Francisco cumprimentou quando ele passou:
- Bom dia, seu Toufick.
Lvia velo saber:
- O que  que ele queria?
- Saber umas coisas do Xavier, que foi embora. Parece que Xavier ficou devendo a ele.
O velho Francisco olhou sem acreditar. Lvia ainda comentou:
- Pensei que ele no sasse mais.
O filho no quintal chorou. Guma foi busc-lo.
A noite estava quente sobre a terra. Mas no mar corria uma brisa fresca que dava um dengue aos corpos. No cu de estrelas havia uma lua enorme e amarela. O mar estava 
calmo e s as canes que vinham de toda parte cortavam o silncio. Pouco distante do Paquete Voador estava o Viajante sem Porto e Guma ouvia os gemidos de amor 
de Maria Clara. Mestre Manuel amava no seu saveiro mesmo, atracado ao cais nas noites de lua. O mar prateado se estendia por baixo deles. Guma pensou em Lvia, que 
a estas horas estaria em casa angustiada. Ela nunca pudera se conformar com a vida, dele. Principalmente depois do desastre do "Valente", vivia numa eterna agonia, 
esperando ver Guma chegar morto no fim de cada viagem. Se ento ela soubesse que ele estava de agora em diante metido no contrabando de sedas, nunca mais teria um 
momento de sossego, porque ao receio da morte no mar se juntaria o medo de uma priso. Guma jura que abandonar o negcio logo que pague o saveiro, Hoje ser a primeira 
noite e mais tarde ele receber quinhentos mil ris. Ir pagar tudo que deve a Joo Caula, dir que arranjou emprestado. Depois s restar o Dr. Rodrigo e esse 
no o importunava. Com duas viagens mais ter pago o barco. Ento ganhar algum dinheiro, vender o Paquete Voador, entrar como scio num armazm com o tio de Lvia. 
Vender mesmo o Paquete Voador? Depois de tantos sacrifcios para adquiri-lo  uma pena vend-lo para ser scio de um pequeno armazm. Deixar o mar, os saveiros, 
o seu porto. Isso  coisa que di a um marinheiro principalmente quando a noite est assim bonita, cheia de estrelas e com uma lua to bela. J passa das dez horas 
e Toufick ainda no chegou.
Guma viu quando o cargueiro alemo entrou. Era horas da tarde, ele estava no saveiro. O cargueiro no atracou, era enorme para o cais, ficou l fora, soltando rolos 
de fumaa. De cima do Paquete Voador Guma enxergava as luzes do navio. Lvia pensa que Guma j viajou, est cortando agora as guas do rio, levando um carregamento 
para Mar Grande. Ela o espera ao romper da madrugada. Estar ansiosa, cheia de medo, e quando ele chegar perguntar. quando se mudaro do mar. Um armazm... Vender 
seu barco, deixar seu porto. Pensara nisso quando trara Rufino, quando perdera o "Valente". Mas agora no quer. Tanto se morre no mar como em terra,  besteira 
de Lvia. Mas esto cantando agora mesmo aquela velha moda que diz que "desgraado  o destino das mulheres dos martimos". Guma alisa o casco do Paquete Voador. 
Veloz como nenhum. Para pegar com ele nesse cais s o Viajante sem Porto. Assim mesmo porque tem um mestre como Manuel. Tambm o "Valente" era um saveiro bom. No 
to bom, no entanto, como o Paquete Voador. O prprio velho Francisco, com sua longa experincia de saveiros e embarcaes, dizia que no vira ainda nenhum como 
este. E agora iria vend-lo...
Ouve o salto de Toufick. Vem outro rabe com ele. Este traz um cachecol enrolado ao pescoo, apesar do calor. Toufick apresenta.
- Sr. Haddad.
- Mestre Guma.
O rabe bate a mo na cabea numa espcie de continncia. Guma diz:
- Boa noite.
Toufick examina o saveiro.
-  bem grande, heim?
- Maior nesse porto no tem.
- Acho que duas viagens voc leva tudo.
Haddad assentiu com a cabea. Guma perguntou:
- Vamos largar agora?
- Vamos esperar. Ainda  cedo.
Os dois rabes sentaram no madeirame do saveiro e comearam a trocar lngua. Guma fumava silenciosamente ouvindo a cano que vinha do forte velho:
"Ele ficou nas ondas, ele se foi a afogar."
Os rabes continuavam a conversar. Guma se lembrava de Lvia. Ela o pensava em viagens, atravessando a boca da barra, a estas horas. De repente Toufick virou-se 
e disse:
- Bonita msica, no ?
- .
- Muito linda.
O outro rabe ficou calado. Fechou o palet, disse qualquer coisa em rabe, Toufick riu. Guma olhava para eles. A voz se extinguiu no forte velho e puderam ouvir 
perfeitamente o embolar dos corpos no saveiro de mestre Manuel.
Meia-noite mais ou menos Toufick disse:
- Podemos Ir.
Suspendeu a ncora do saveiro (Haddad ficou olhando as suas tatuagens), levantou as velas. O barco, depois da manobra, ganhou velocidade. As luzes do navio apareciam. 
Recomeou, a toada no forte velho. Naturalmente Jeremias cantava para a Lua nessa noite de tantas estrelas. Iam silenciosos no saveiro. J estavam bem perto do navio 
quando Toufick disse:
- Pare.
O Paquete Voador parou. A uma ordem de Toufick, Guma arriou as velas. O casco do saveiro jogava lentamente. Haddad assoviou de um modo especial. No obteve resposta. 
Tentou novamente. Da terceira vez ouviram um assovio que respondia.
- Podemos ir - disse Haddad.
Guma tomou os remos e no levantou as velas. O saveiro contornou o navio, foi atracar no seu casco, do lado que dava para Itapagipe. Uma cabea apareceu. Conversou 
comi Haddad numa lngua tambm estranha para Guma. Logo desapareceu. Depois veio outro. Nova conversa. Haddad mandou que o saveiro se adiantasse um pouco mais. Foram 
encostar junto a uma larga abertura. E dois homens comearam a descer peas de seda, que Guma e Toufick iam arrumando no poro do saveiro. No foram perturbados.
Se afastou lentamente do navio. J longe, depois de ter atravessado o quebra-mar, abriu as velas e correu de lanterna apagada. O vento o ajudava, chegou rapidamente 
ao porto de Santo Antnio. Apenas as ondas eram bem mais altas, o mar menos calmo. Mas o Paquete Voador era um saveiro grande e resistia bem. Toufick comentou:
- Chegamos depressa.
Homens j esperavam o saveiro. Um deles bem vestido se adiantou:
- Tudo bem?
- Quantas viagens mais?
- Com este saveiro somente mais uma. O homem bem vestido atentou em Guma, que ajudava a descarga. As sedas iam para uma casa cujos fundos davam para o porto.
- Era esse o rapaz ?
- , Sr. Murad.
Guma olhou para o ricao. Era um sujeito gordo, bem barbeado, vestido de preto. Ele botou a mo no ombro de Guma:
- Rapaz, voc pode ganhar muito dinheiro comigo.  andar direito.
Deu mais uma olhadela para o servio, disse a Toufick:
- Veja que tudo ande direito. Agora vou embora, que Antnio est doente.
Antnio era o seu filho, estudante de Direito. Tinha paixo por aquele filho literato e farrista. Desculpava tudo nele. Gostava de ver o nome do filho nos jornais 
assinando coisas. Foi por isso que Raddad perguntou:
- Antnio est doente?
- Faa uma visita para ele
F. Murad, antes de sair, ainda tocou no ombro de Guma:
- Ande direito comigo, que no se arrepende.
- Deixe estar.
O automvel o esperava duas esquinas depois. Acabada a descarga, o saveiro voltou. Novamente o poro se encheu de fardos de seda. Guma j tinha perdido a conta de 
quantos fardos tinham sido desembarcados. Toufick entregou um mao de dinheiro a um dos homens, que o contou  luz de uma lanterna de bolso:
- Est certo -disse o que estava por detrs, com uma pronncia horrvel...
O saveiro saiu, novamente pegaram o vento, abriram as velas e chegaram sem incidentes ao porto de Santo Antnio. Desta vez Toufick lhe ofereceu um gole de cachaa. 
O saveiro foi descarregado. Haddad tinha desaparecido dentro da casa. Guma acendeu o cachimbo. Toufick veio para ele:
- Depois lhe aviso quando vou precisar de novo de voc.
Tirou duas notas de duzentos, lhe deu.
- Voc nunca viu esta casa, est ouvindo?
- T falando com um martimo.
Toufick sorriu:
- Bonita cano aquela, no era?
Abotoou o casaco, se meteu pela casa dentro. Guma apertou as duas cdulas na mo. Manobrou o saveiro, partiu na madrugada que rompia. E s no meio da gua sentiu 
as pernas e os braos cansados. Se estendeu no saveiro, murmurou:
- T parecendo que tive medo o tempo todo.
O farol da Barra piscava na madrugada.
- 

Joo Caula lhe disse:
- Tu  um homem direito.
- Arranjei de emprstimo com o tio de minha mulher. Agora vou pagando a ele. A quitanda tem dado, parece que ele vai botar um armazm. At me chamou para scio.
- J vi ele uma vez em tua casa.
- Um homem bom.
- T se vendo.
- 

Rodolfo apareceu uns dez dias depois. Guma tinha chegado na vspera de uma viagem a Cachoeira, ainda dormia.
O velho Francisco sara para fazer umas compras. Rodolfo ficou brincando com o sobrinho, conversando com Lvia:
- Tu ainda t muito medrosa?
- Um dia me acostumo...
- T demorando chegar esse dia.
Olhou para o sobrinho, que o puxava para ver o saveiro de brinquedo na bacia de gua. Falou para a irm:
- Tu no queria que ele fosse pra quitanda dos velhos?
- Gostava, sim
- Pois t em tempo...
- O que  que tu t querendo dizer? -perguntou ansiosa.
Ele a espiou por debaixo dos olhos. Se ela soubesse, ainda sofreria mais:
- No  por nada. Pelo menino. T crescendo, acaba gostando daqui.
Ela ainda estava desconfiada, mas serenou um pouco:
- Pensei que tinha alguma coisa.
De repente perguntou:
- Onde foi que tu arranjou o dinheiro que emprestou a Guma?
- Eu?
- Mas compreendeu logo.
- Eu tinha cavado um troo bom. Ia gastar mesmo aquele dinheiro...
Ela veio alisar a sua cabea:
- Voc  to bom.
Guma levantava. Enquanto Lvia botava o caf, Rodolfo falou:
- Tu t metido no negcio de contrabando, no t ?
- Como voc veio a saber?
- Eu sei disso tudo. Uma vez at j vim aqui a mando de Toufick, mas no falei nada de pena de Lvia.
- Daquela vez?
- Sim.
- Mas no vou demorar.  tempo de pagar o saveiro. E falta pouco.
- Toma cuidado. Se esse negcio rebentar,  um escndalo danado. Com Murad no acontece nada, ele tem mais de dez mil contos, se arranja. Mas o pau vai rolar nas 
costas dos pobres como tu. Toma cuidado.
- No demoro nesse negcio. No quero que Lvia...
- Mais dia menos dia h de saber. Que dinheiro tu me tomou?
Guma riu:
- Voc guentou a mo?
- Mas quase me atrapalho. Toma cuidado. Isso  um troo perigoso.
Lvia entrava com o caf e uma talhada de cuscuz. Desconfiou daquela conversa em voz baixa:
- Que segredo  esse?
- No tem segredo. A gente tava falando do garoto.
- Rodolfo tambm  de parecer que voc deve se mudar pra junto de titio.
- Por causa do menino -fez Rodolfo.
- Deixa eu acabar de pagar o Paquete, negra. Ganho uns cobres, a gente faz o negcio. E agora j t to perto.
Pegou a mulher pela cintura. Ela se sentou no seu colo:
- Tenho tanto medo...
Rodolfo baixou a cabea.
- 

A segunda vez foi um carregamento pequeno de meias francesas para senhoras e perfumes. Guma recebeu cem mil ris. Tudo correra bem. Desta vez F. Murad fora no saveiro 
( tivera uma longa palestra com um cavalheiro do navio). Depois pagou uma grande quantia em dinheiro. Quando voltaram, F. Murad lhe disse, fazendo uma cara sria:
- Voc nunca me viu a bordo de navio nenhum, rapaz.
- No precisa avisar.
- Tive sabendo umas coisas de voc. Dizem que  um rapaz de coragem. Quanto ainda deve do seu saveiro?
- Pagando esses cem, fico devendo s trezentos e cinqenta.
- Com mais umas poucas viagens voc est com o saveiro livre. Depois vai nos deixar?
- Deixar de trabalhar para o senhor? Acho que vou, sim.
- Vai?
- Foi o que disse a seu Toufick. Entrava nisso mas podia sair na hora que quisesse. Entrei s pra pagar meu barco.
- Ningum lhe impede de sair.
- No tenha medo que minha boca no se abre pra contar nada.
- No tenho medo disso. Sei que voc  um rapaz direito. Mas acho que se voc ficasse com a gente podia ganhar muito dinheiro.
Botou a mo no ombro de Guma:
- Acha o servio muito perigoso?
- Tenho mulher e filho. Amanh a polcia d em cima... (se lembrava das palavras de Rodolfo) ... ao senhor no vai acontecer nada. O senhor  podre de rico. A coisa 
cai  em cima de mim.
F. Murad baixou mais a voz:
- Voc pensa que ningum sabe que eu contrabandeio? Na polcia tem gente comprada. Vai ser difcil arranjar um rapaz como voc.
Continuaram a viagem em silncio. Quando estavam chegando, F. Murad ainda o aconselhou:
- Se voc quiser continuar, vai ganhar muito dinheiro.
- Vou matutar. Se decidir...
Totifick lhe avisou que da a um ms chegava um carregamento grande. Talvez ele ganhasse uns duzentos mil ris ou mais.
No outro dia foi levar os cem mil ris ao Dr. Rodrigo. Ganhara naquela viagem, dissera. Cara no jogo em Cachoeira. Uma roletazinha, fora apostar uns cinco mil ris, 
acabara ganhando cento e vinte. E como j acabara de pagar parte de Joo Caula, vinha pagar a do doutor, Rodrigo, a princpio, no'quis receber. Disse que Guma 
podia estar precisando. Mas Guma insistiu. Quanto antes pagasse o saveiro, melhor.
Saiu dali para acertar uma viagem para Santo Amaro. Ia buscar um carregamento de cachaa. Vivia das viagens, o dinheiro do contrabando era para pagar o saveiro. 
Depois de tudo pago podia demorar mais um pouco no negcio at ganhar uns quinhentos mil ris. Ento poderia satisfazer o desejo de Lvia. Iria para a cidade, abriria 
o armazm com os tios dela. At talvez nem precisasse vender o Paquete Voador. Podia entreg-lo de sociedade a mestre Manuel ou a Maneca Mozinha. Qualquer um deles 
gostaria de ficar com dois saveiros. Maneca Mozinha, alis, possua era uma canoa. Ficaria bem contente se pudesse tomar conta do Paquete Voador, ganharia muito 
mais dinheiro. E Guma no precisava se afastar completamente do cais. Poderia vir de vez em quando, dar suas viagens tambm. Continuaria a ser um martimo, a ter 
interesse no mar, a navegar. Satisfaria Lvia e ficaria satisfeito tambm, no se mudaria por completo. Aquilo  que era um bom plano. Mas para realiz-lo tinha 
que demorar mais tempo no negcio de contrabando para fazer o dinheiro necessrio para entrar como scio do tio de Lvia. Mais uns meses, umas tantas viagens, teria 
juntado o suficiente. Era um negcio rendoso aquele. Pena que tivesse o perigo de acabar de repente e eles todos baterem com os costados na cadeia. Se tudo fosse 
descoberto, iria ser um escndalo horrvel. F. Murad tinha dez mil contos, as suas costas eram largas, nada lhe aconteceria. Mas a Guma, que mal tinha um saveiro...
Ele no tinha medo. Se pensava nos perigos do contrabando, era por Lvia e pelo filho. Via o filho brincando junto  bacia de gua. Brincava de saveiro. Gostava 
das coisas do mar, era bem um filho do cais. Quando ele crescer, guiar tambm o Paquete Voador, andar nessas guas. Dir que seu pai foi um dos melhores mestres 
de saveiro que at hoje apareceram nesse cais, e mesmo quando se mudou para a cidade no vendeu seu saveiro, de quando em vez vinha viajar tambm. Guma passa a mo 
com carinho no casco do Paquete Voador.
Foi olhar o poro. Viu o corte de seda. Tinha se esquecido completamente daquilo. Na vspera F. Murad dera aquele corte de seda:
- Para voc dar  sua esposa.
Com a pressa de ir para casa ele se esquecera da seda. Lvia havia de ficar contente. Ela tinha raros vestidos e vestidos pobres. Agora ficaria com um vestido bom, 
vestido de senhora chique.
Aprontou o saveiro e se dirigiu para casa. Sairia depois do almoo. Lvia o esperava na janela com o filho ao lado. Ele foi logo mostrando a seda:
- Tinha me esquecido no saveiro.
- Que  isso?
- Veja...
Entrou. Ela saiu da janela, botou o filho no cho. Examinou a seda:
- Mas isso  seda cara -e tinha uma interrogao nos olhos.
- Ganhei numa quermesse em Cachoeira.
- Tu t mentindo. Porque tu no me diz?
- Dizer o qu? Ganhei na quermesse, sim.
Ela dobrou a seda. Ficou em silncio um minuto, de repente falou:
- Pra que tu deixa que eu v saber pela boca dos outros?
- Mas o qu?
-  pior.
- Tu t  gira...
- Tu pensa que eu no j soube? Coisa ruim a gente sabe logo. Tu t metido em contrabando, no ?
- Foi Rodolfo que contou a voc?
- Faz tempo que, no ponho os olhos nele. Mas todo mundo no cais sabe que voc est no lugar de Xavier...
-  mentira.
Mas era impossvel negar. Era melhor contar tudo:
- Tu no v que a gente no tinha outro jeito de se desenterrar? Joo Caula j tava querendo vender o Paquete Voador, a gente ficava na mo. Eu tinha que me alugar 
como canoeiro, nunca que saa do cais como tu quer...
Lvia ouvia em silncio. O garoto veio correndo l de dentro, se agarrou nas saias dela. Guma continuou:
- Tu v... S fiz trs viagens pra eles, j paguei quase todo o saveiro. Com mais uns ms tenho o dinheiro para a gente se estabelecer com seu tio.
Arrancou com esforo.
- Se tou metido nisso,  por causa de voc e do menino.
- Eu tenho  medo, Guma. No  um dinheiro bem ganho. Um dia isso vira, a gente fica na casa do sem jeito. Eu j tinha tanto medo, quanto mais agora...
- Mas dura pouco. Ningum. descobre, quem vai descobrir? Mesmo voc pensa que a polcia no sabe? Pois ta farta de saber e de comer dinheiro de seu Murad.
-  capaz de s ser uns dois que sabe, um dia muda, vem um srio de verdade, acaba tudo.
- Nesse tempo no tou mais. No duro mais que uns trs ou quatro meses. Se chegar a isso.  o tempo de fazer um dinheirinho...
- Mesmo agora no tem mais remdio - fez ela com desalento. -Mas tu promete que larga logo que possa? Que vai comigo pra cidade alta?
- Te garanto.
Ento ela desdobrou o embrulho da seda. Era uma fazenda bonita. Experimentou em cima do corpo, sorriu:
- S fao quando voc largar esse scio.
- No demora.
E Guma comeou a contar as peripcias da passagem de contrabando.
O novo trabalho no deu a Guma o que Toufick prometera. No viera a quantidade que eles estavam esperando. O sujeito do navio explicava naquela lngua desconhecida 
para Guma, numa conversa interminvel. Guma s recebeu cento e cinqenta mil ris. Toufick noticiou que esperava outra carga ainda essa semana. Mas foi quando rebentou 
a greve dos estivadores. Os mestres de saveiro e grande parte dos canoeiros fizeram causa comum com os homens da estiva. Os estivadores venceram, as tabelas para 
transporte em saveiro e canoa tambm aumentaram. Mas houve perseguies e um estivador de nome Armando teve de fugir e foi no saveiro de Guma, que sala naquela noite 
j levando carga pela nova tabela. E na noite estrelada o estivador lhe contou muita coisa. Para Guma no era de noite, era a madrugada que surgia.
Dr. Rodrigo prestou grande assistncia aos estivadores. Depois de tudo acabado fez um poema, em que terminava dizendo que o milagre que D. Dulce tanto esperava tinha 
comeado a se realizar. Ela concordou, sorrindo. Estava cada vez mais curva, mas alteou o peito ao ouvir o poema. E sorria feliz. Aprendera uma nova palavra para 
dizer nas casas pobres do cais. Agora podiam-na chamar de boa e de amiga. Ela sabia como lhes agradecer. Tinha novamente f. Apenas agora era diferente.
No cu de Santo Amaro a estrela de Besouro tinha desaparecido. Estava com os estivadores.
- 

Guma fez vrias outras viagens para Toufick. Pagou o saveiro. E tomou amizade ao rabe, muito gentil sempre. Haddad era que continuava calado, o cachecol desfiado 
em volta do pescoo. Murad aparecia raras vezes, s quando tinha algo de mais importante a tratar com homens de bordo. Agora Guma tinha duzentos e cinqenta mil 
ris em casa e estava livre de dvidas. Lvia j falava do dia em que se mudariam para a cidade alta, corno de coisa muito prxima. Quando ele tivesse ganho um conto 
de ris podia entrar para a quitanda do tio dela. E descansaria o velho, que j no dava para o trabalho. O saveiro ficaria com Maneca Mozinha, que pagaria todo 
o ms uma certa quantia ao velho Francisco. Lvia quase no tinha mais medo, esperava mais serena, sua agonia diminura de muito. Tudo estava correndo bem nos ltimos 
tempos. At as tabelas tinham subido, a vida do cais voltara ao normal, tinham conseguido atravessar a crise.
E gostava de ir ao saveiro nas noites em que o filho ia passear na casa dos tios dela. Ficava estirada ao lado de Guma, ouvindo as canes do cais, vendo a lua amarela, 
as estrelas inmeras, sentindo a presena de Iemanj, que estirava os cabelos na gua. Pensava que o mar  amigo,  doce amigo. E sentia pena de Guma, que ia deixar 
o cais, ia largar seu destino. Mas no venderia o saveiro, uma vez por outra, quando o mar estivesse assim calmo, haveriam de vir passear sobre as guas, olhar as 
estrelas e a lua do mar, ouvir essas canes tristes do cais. Amariam ento mais uma vez a bordo do saveiro. As ondas banhariam os corpos, o amor seria ainda melhor. 
As carnes teriam gosto de gua salgada, os ouvidos ouviriam o murmurar do vento, o gemer dos negros nas violas e harmnicas, a voz de Jeremias cantando no forte 
velho. S no ouviriam a voz de Rufino porque ele se matara por uma mulata traidora. Olhariam os tubares atravessando a gua, achariam belos os cabelos de Iemanj, 
a dona dos mares e dos saveiros. Teriam saudades, teriam saudades de tudo. Guma passaria a mo no casco fiel do Paquete Voador. Se recordariam do "Valente". Mas 
a lembrana do filho crescendo nas ruas da cidade, crescendo para um destino melhor, consolaria os coraes do sacrifcio feito. Mas assim mesmo teriam saudades, 
teriam Imensas saudades, como se tm saudades de um ente amado. Porque ningum pode nascer ou morar no mas, sem o amar como amante ou amigo. Pode-se amar o oceano 
com amargura. Pode esse amor ser medo ou dio. Mas  um amor que no se pode trair, que nunca -se abandona. Porque o mar  amigo,  doce amigo. E talvez seja o prprio 
mar a terra de Aioc, que  a ptria dos martimos.

Terras de Aioc

Rosa Palmeiro no traz mais navalha na saia, nem punhal no peito. O recado de Guina a alcanou em terras do Norte, numa penso de ltima ordem onde no pagava porque 
o proprietrio a temia. Quando o marujo a encontrou e lhe disse: "Guma mandou dizer que teu neto j nasceu", ela atirou fora a navalha da saia, o punhal do peito. 
Antes porm, se utilizou deles mais uma vez, para arranjar a passagem de volta.
Lvia a recebeu como a uma amiga que no via h muito:
- Essa casa  sua.
Rosa baixou a cabea, se apertou muito contra a criana, que a princpio fugira dela, depois tentou sorrir:
- Guma foi um bicho de sorte.
O garoto perguntou se ela era mulher de Francisco, j que era sua av. Ela pde ento chorar, j no tinha a navalha na saia, o punhal no peito. Vestiu roupas sem 
espalhafato, sentava na porta da casa com o menino no colo. Havia noites em que ouvia cantarem no cais o seu ABC e o escutava enleada como se fosse o ABC de outra 
pessoa. S o mar d desses presentes a seus filhos.
Pela primeira vez Guma ia pegar um temporal na passagem de contrabando. Mas viu que Lvia no estava preocupada (ela andava calma, tudo estava to prximo de acabar) 
e saiu satisfeito. Toufick esperava no saveiro e desta vez, alm de Haddad, havia um outro rabe jovem. Era Antnio, o filho de F. Murad, estudante e literato, que 
tivera curiosidade de ver como se passava um contrabando.
As nuvens se acumulavam no cu, o vento soprava furioso. O navio ao largo era vagamente enxergado de bordo do, saveiro. Toufick disse:
- Acha que vai haver temporal?
- Dos brabos...
O rabe virou-se para o filho de F. Murad:
-  melhor o senhor ir para. casa, seu Antnio.
- Deixe disso. Assim  at mais gostoso. Fica completo. -Voltou-se para Guma:
- Acha que vai haver perigo, mestre?
- H sempre perigo.
- Ento melhor.
O saveiro saiu, porm ainda no haviam chegado ao quebra-mar quando a chuva caiu. Assim mesmo Guma conseguiu arriar as velas e esperar que do navio desse sinal. 
Se aproximaram com dificuldade,  fora do remo. Totifick estava nervoso, Haddad apertava o cachecol contra o pescoo. Antnio assoviava bancando uma despreocupao 
que na verdade no sentia. O saveiro encostou no navio, os fardos de seda comearam a aparecer. Mas o trabalho se fazia difcil porque as ondas eram muitas, a chuva 
caa com violncia e o saveiro subia e descia, se afastava de junto do navio. Afinal concluram o servio, Guma manobrou, atravessaram o quebra-mar, rumaram para 
o porto de Santo Antnio.
Mas o vento furioso os puxava. No havia uma embarcao no mar, apenas uma canoa que atracara mesmo no forte velho, sem coragem de continuar a viagem. O vento desviava 
o Paquete Voador da sua rota. O saveiro ia muito carregado, as manobras se faziam difceis. Guma ia agarrado ao leme, as ondas varriam o barco. Addad murmurou:
- As sedas vo chegar inutilizadas.
Procurou umas tbuas com que cobrir o poro. No Via a tempestade, no via a morte, s enxergava as sedas se molhando. Guma o olhou com admirao. Toufick ia nervoso, 
temia pelo filho do patro. Este estava plido e se chegara para o mastro. Certa hora perguntou a Guma:
- Acha que a gente morre?
- s vezes a gente escapa. Tudo  sorte.
Continuaram em silncio. Iam na rota certa, mas muito para o largo, muito para um mar que no era o dos saveiros. Guma viajava para o mar dos grandes navios, era 
como se realizasse o seu sonho de viajar para terras distantes, como Chico Tristeza. Viram o farol da Barra iluminando como uma salvao. Mas estavam indo muito 
para o largo, para um mar desconhecido, aquele mar oceano das histrias das grandes aventuras que contam no cais.
Bem defronte  o porto de Santo Antnio. Mas esto muito ao largo, Guma manobra para embicar para o porto. Pouco adiante os arrecifes cobertos de gua. Manobra com 
felicidade, mas as guas se levantam em ondas colossais, atiram o saveiro para os arrecifes. Estava carregado de mais. Virou como se fosse um brinquedo na mo do 
mar. Os tubares vieram de alguma parte, eles esto sempre prximos dos naufrgios.
Guma viu Toufick se debatendo. Pegou o rabe pelo brao, e jogou nas suas costas. E nadou para o cais. Uma luz fraca brilhava no porto de Santo Antnio. Mas veio 
uma rstia de luz do farol da Barra e iluminou o caminho para Guma. Olhando para trs, ele viu os tubares em torno do saveiro. E uns braos se agitando.
Deps Toufick na praia e mal se levantava ouviu a voz de F. Murad:
- E meu filho? Meu Antnio? Ele foi com vocs, no foi? V salvar ele. V. Lhe dou tudo que quiser.
Guma mal se agentava em p. Murad suplicava de mos postas:
- Voc tambm tem um filho. V, pelo amor de seu filho.
Guma se recordou de Godofredo no dia do "Canavieiras". Todos que tm um filho suplicam assim. Ele tambm tem um filho. E se atira novamente na gua.  com dificuldade 
que nada. J vinha cansado da travessia difcil, sob o temporal. Depois nadara com Toufick sobre as costas, nadara contra as guas e contra o vento. Agora as foras 
lhe faltam a cada momento. Mas continua. E chega a tempo de ver Antnio ainda seguro no casco do saveiro, que est virado, parecendo o corpo de uma baleia. Pega 
o rapaz pelos cabelos e recomea a travessia. O mar o impede. Os tubares, que j devoraram Haddad, vm no seu rastro. Guma traz a faca na boca, Antnio seguro pelos 
cabelos. Na sua frente ele v Lvia, Lvia quase tranqila, Lvia esperando que tudo mude para melhor. Lvia, que tem um filho dele, Lvia, a mulher mais bonita 
do cais. E os tubares vm atrs, se aproximam, ele esgota as foras. Mesmo Lvia ele no v mais. Sabe apenas que tem que nadar porque leva um filho pelos cabelos, 
filho de F. Murad ou seu filho, ele no distingue mais. Lvia, Lvia vai na sua frente. As guas do mar so fortes, o vento assovia. Mas ele nada, ele corta as ondas. 
Leva um filho, ser seu filho?
Perto da areia suja do porto de Santo Antnio ele no agenta mais. Solta o rapaz. Porm j esto de tal maneira prximos que a gua leva Antnio para os braos 
de F. Murad, que exclama: "meu filho!" E diz:
- Um mdico depressa...
Guma quer ir tambm. Mas a rabanada do tubaro o obriga a voltar-se a faca na mo. E luta ainda, inda fere um, o sangue se espalha na gua revolta. Os tubares o 
levam para junto do casco emborcado do Paquete Voador.
- 

Algum tempo depois a tempestade serenou. A Lua apareceu e Iemanj estendeu seus cabelos sobre o lugar onde Guma desaparecera. E o levou para as viagens misteriosas 
das terras misteriosas de Aioc, para onde vo os valentes, os mais valentes do cais.
O vento havia jogado o Paquete Voador na areia do porto.

MAR MORTO

O mar  doce amigo

Foi aqui que o corpo de Guma desapareceu. Mestre Manuel pra o saveiro, baixa as velas. No Viajante sem Porto esto Dr. Rodrigo, Manuel, o velho Francisco, Maneca 
Mozinha, Maria Clara e Lvia sem lgrimas.
Pela manh eles vieram, viraram o Paquete Voador. Havia um rombo no casco, mas era pequeno, um carpina consertou em poucas horas. Mestre Manuel levou o saveiro at 
ao cais. Foi buscar Lvia em casa aps o almoo. Rosa Palmeiro e a tia de Lvia ficaram com o menino. Maneca Mozinha veio com eles.
Foi bem ali que o corpo de Guma desapareceu. Agora as guas so calmas e azuis. Ontem eram tempestuosas e verdes. Mas para os olhos de Lvia as guas esto paradas 
e so cor de chumbo.  como se o mar tivesse morrido junto com Guma.
Esto silenciosos. O velho Francisco acende a vela. Deixa cair uns pingos de cera em cima do pires, prende a ele a vela. E a coloca com cuidado no mar. Todos os 
olhos esto fitos nela. Dr. Rodrigo no cr que uma vela possa localizar um corpo de afogado. Mas no diz nada.
Lentamente a vela se afasta. Vai devagar nas ondas. Sobe e desce, parece uma minscula embarcao mal-assombrada. Os olhos esto fitos nela, as bocas no falam. 
Dr. Rodrigo rev Guma trazendo Trara ferido, salvando o "Canavieiras" salvando gente nos temporais, passando contrabando para pagar as dvidas. J o velho Francisco 
v o sobrinho em cima do seu barco cortando as guas. Manuel enxerga a figura de Guma no "Farol das Estrelas", conversando com sua voz descansada, botando para trs 
a cabeleira morena e comprida. Maria Clara pensa nele, correndo aposta ao som da sua voz. Maneca Mozinha se recorda das brigas que tiveram, foram bons amigos apesar 
disso. S Lvia no v Guma, s ela no o enxerga nem o recorda. S ela espera encontr-lo ainda.
A vela anda ao redor das guas. guas plmbeas para Lvia, guas de um mar morto. guas sem ondas, guas sem vida. A vela pra. O velho Francisco diz baixo:
- Est ali.
Todos olham. Mestre Manuel tira a camisa, se joga na gua. Maneca Mozinha tambm. Mergulham ambos, voltam  tona, tornam a mergulhar. Mas a vela se afasta, continua 
a buscar. Os nadadores voltam ao saveiro.
Amanh o velho Francisco mandar tatuar no seu brao o nome de Guma. Os nomes de cinco saveiros j esto no seu brao. E tambm o de um irmo, o pai de Guma. Agora 
vir o do sobrinho. O nico nome que nunca tatuar no seu brao ser o do seu irmo Lencio, homem que no tem um porto na terra. Talvez ainda mande escrever nesse 
seu brao esquerdo o nome do filho de Guma, do novo Frederico. Sero ento dois com esse nome: av e neto. Mas Lvia, com certeza, ir lev-lo do cais, ir para 
a cidade alta morar com os tios. Assim o nome do filho de Guma no figurar no brao esquerdo de Francisco ao lado de tantos outros. A vela se adianta lentamente.
"Essa ainda no ficou mal de todo", pensa Dr. Rodrigo. Essa ainda tem tios. Viver com eles, os ajudar na quitanda. Outras so mais infelizes, s tm a prostituio. 
Lvia merecia outro destino. Muito amava ao marido, fugira de um casamento melhor por amor dele. Agora tinha um filho, um saveiro intil, procurava o corpo do marido 
com uma vela. A luz do Sol alveja o mar.
A vela parece no querer parar jamais. Mestre Manuel olha, Guma era um bom mestre de saveiro, o nico no cais capaz de vencer Manuel numa corrida. Murmura entre 
dentes para Maria Clara:
- Era um menino bom. Decidido de verdade...
Todos ouvem. Era um menino bom, morreu muito moo. O nico capaz de vencer mestre Manuel numa corrida. Maria Clara lembra:
- Uma vez ele venceu voc...
- Mas na primeira vez apanhou. A gente tava empatado.
Lvia olha as guas. Tem os olhos secos de lgrimas. Chorou muito na primeira hora, logo que soube. Mas as suas lgrimas secaram, ela no pensa em nada, no v nada, 
nada ouve.  como se estivessem falando muito longe dela, num assunto de muito pouco interesse. Olha a vela que passeia entre as ondas. Est como tonta, mal recorda 
o que aconteceu. Quer  ver Guma pela ltima vez, ver o seu corpo, olhar para os seus olhos, beijar os seus lbios. No importa que a estas horas ele j esteja inchado, 
j esteja desconforme, os siris dentro do corpo comendo a sua carne. No importa:  seu marido,  seu homem. E, de sbito, lhe volta a conscincia de tudo o que 
aconteceu. Nunca mais amaro no madeirame do Paquete Voador. No o ver mais pitando o cachimbo, conversando com sua voz pausada. Apenas ficar a sua histria entre 
as muitas que o velho Francisco sabe. Nada restar dele. Nem seu filho, porque este ir para outro destino, subir para a cidade alta, esquecer o cais, os saveiros, 
o mar oceano que o pai tanto amou. Nada restar de Guma. Somente uma histria que o velho Francisco legar aos homens do cais quando for com Janana.
A vela para. Maneca Mozinha se atirou na gua. Nadou, mergulhou, nada encontrou. No entanto a vela continuava parada. A cabea de Maneca apareceu  flor da gua:
- No encontro nada.
Mestre Manuel mergulhou tambm. Novamente nada encontrou. Maneca Mozinha subiu para o saveiro. A vela estava parada, no saa do lugar. Manuel nadava, mergulhava, 
procurava no fundo das guas. No encontrava o corpo de Guma, desparecera por completo. O velho Francisco disse com convico:
- Est a com certeza.
Agora mergulhavam Maneca e Manuel. E, como nada achassem, nadaram em torno. O velho Francisco despiu a camisa e se jogou na gua. Ele tinha certeza.
Mas tambm ele nada encontrou. Com as ondas que faziam na gua a vela voltou a andar. Os nadadores subiram. O velho Francisco no desanimava:
- Ele teve aqui, mas saiu.
Lvia baixou os braos. Sabia que tinha que encontrar o corpo de Guma. Era tudo que sabia. Tinha que v-lo pela ltima vez, que se despedir dele. Depois ento ir 
embora, voltar as costas ao cais e ao mar para sempre.
A vela se afasta para longe o saveiro a acompanha. Dr. Rodrigo, est ficando impaciente com a corrida da vela. Ele no acredita, ele ri daquilo, mas a confiana 
dos homens  tamanha que ele termina por seguir com ateno a vela. E  ele quem quase grita:
- Parou.
- L est - aponta Francisco.
Novos mergulhos inteis, tambm a vela no demora, continua a sua caminhada. E eles seguem, o saveiro vai muito lentamente.

Nunca mais amaro estendidos no madeirame do Paquete Voador. Nunca mais ouviro juntos essas canes do mar.  preciso encontrar o corpo de Guma para que, pela ltima 
vez, viagem juntos num saveiro. Ele morreu salvando dois, teve a morte mais herica do cais, a morte dos filhos prediletos de lemanj. Deixou fama bonita, foi um 
mestre de saveiro como poucos. Mas Lvia no quer se recordar. Seus olhos fitam a vela que anda, que busca inutilmente. O filho em casa chamar por ela e pelo pai. 
Rosa Palmeiro ter os olhos midos de lgrimas, ela amava Guma como a um filho. Lvia deixa cair a cabea sobre o brao. Dr. Rodrigo estende a mo sobre ela e o 
silncio reina de novo.
Mestre Manuel acende o cachimbo. Maria Clara abraa Lvia, procura consolar: " o destino da gente."
Mas Maria Clara nasceu no mar, viveu sempre ali. Para ela aquilo  uma lei fatal: um dia o homem fica no mar, morre com o saveiro que vira. E a mulher procura seu 
corpo e espera que o filho cresa para v-lo morrer tambm. Lvia, porm, no nasceu no cais. Ela veio da cidade, veio de outro destino. A estrada larga do mar no 
era a sua estrada. Ela a tomou por amor. Por isso no se conforma. Ela no aceita essa lei como uma fatalidade, come a aceita Maria Clara. Ela lutou, ela ia vencer. 
Ia vencer... Tudo estava to prximo. Os soluos rompem do peito de Lvia.
O velho Francisco baixa a cabea. Maria Clara estende uma mo para Manuel e parece querer proteg-lo como se a morte o rondasse. As guas do mar so calmas, para 
Lvia elas so guas mortas.
Mais uma vez a vela pra. A tarde descambou, o Sol desaparece. Manuel mergulha, mergulham Maneca Mozinha e o velho Francisco. Saem com a roupa colada ao corpo. 
A tarde cai. Maneca Mozinha diz:
- Talvez ele volte  noite. Eles sempre voltam  noite.
- Volta com certeza- confirmou o velho Francisco.
Dr, Rodrigo, aplica uma injeo em Lvia. Ela volta como morta tambm. No cais cantam aquela velha moda:
"ele se foi a afogar"
Lvia abre os olhos. Vem do mistrio da noite recm-chegada a voz triste da msica:
"... meu senhor j se foi nas ondas verdes do mar."
Lvia escuta. Ele j se foi nas ondas verdes do mar. Maria Clara a ampara. O Paquete Voador, ancorado no cais, baloua mansamente. Mas o seu guia, aquele que o dirigia. 
J se foi nas ondas verdes do mar. A msica cobre o cais. dobra os homens que saltam do saveiro. A noite chegou.

A noite  para o amor

A me de Guma a espera. Chegou sem se anunciar. Conta a Lvia que s viu o filho h muitos anos. Ela est velha e trpega, meio cega.
- Vivo a, quase de esmola. Uns conhecidos me ajuda.
No confessa que  arrumadeira numa casa de mulheres. O velho Francisco nota o quanto ela envelheceu. Fazia quase vinte anos que ela estivera no porto uma vez, em 
busca do filho. Quisera levar Guma, ele no deixara. Se ela o tivesse levado, talvez fosse melhor. Com certeza Lvia no choraria agora, uma criana no estaria 
to, cedo sem pai. Mas destino  coisa que no se muda.
Rosa Palmeiro vem do quarto e diz que Lvia deve comer alguma coisa. A me de Guma pergunta:
- No acharam ele, no ?
- No.
- Ento eu volto amanh de manh. No posso chegar tarde.
E se vai. Quase cega, tateia na escurido. A Lua ilumina seu caminho. Lvia aperta o filho de encontro ao peito e fica assim muito tempo. Os tios a olham, a tia 
chora baixinho. Rosa Palmeiro bota um jantar intil.
Pela quarta vez Totifick, o rabe, passa pela casa de Lvia. Rosa Palmeiro atende:
- Ela j chegou, seu Totifick.
O rabe entra para a sala. Ali convidara Guma para o negcio de contrabando. Ali o convidara para a morte. Lvia aparece. Totifick se levanta, no sabe o que diz. 
Ela fica esperando.
- Era um homem direito.
Fica calado. Ela tem os olhos perdidos, parece no ver nada, no ouvir nada. Ele continua:
- Me salvou a vida, salvou a de Antnio tambm. Nem sei...
Sente que ainda  mais difcil porque aquela no  a sua lngua.
- A senhora precisa de alguma coisa?
- De nada.
- Est aqui que seu Murad mandou. Diz que em qualquer tempo que a senhora precise dele tem um amigo s ordens.
Bota o dinheiro em cima da mesa. Segura o chapu com as mos, no tem coragem de recomendar que ela no conte nada a ningum sobre o negcio de contrabando. Vai 
recuando aos poucos para a porta.
- Boa noite.
Sai correndo para a rua, tropea num homem que vem, tem um n na garganta, uma vontade doida de chorar.
Nas casas que ligaram os rdios, para certa estao da Bahia, naquela hora do jantar, as pessoas ouviram o speaker dizer:
"Do cais pedem s senhoras que rezem um padre-nosso para que seja encontrado o corpo de um martimo que morreu afogado na noite passada."
Uma jovem em certa mesa (era noiva de um piloto) sentiu um arrepio, levantou-se, foi para o seu quarto, rezou.
Rodolfo chegou na hora em que iam sair. Soubera fazia poucos minutos, dormira o dia todo. Se juntou ao grupo que ia para o saveiro. Desta vez saram dois saveiros, 
Maneca Mozinha foi levando o Paquete Voador. Com ele foram Rodolfo e o velho Francisco. Os outros embarcaram no Viajante sem Porto. Rumaram para o porto de Santo 
Antnio.
A vela est no mesmo lugar. Os saveiros ficam lado a lado. Na noite de mil estrelas uma vela percorrera o mar procurando um corpo. E os olhos de todas a seguem ansiosamente. 
Ela anda devagar, vai de um lugar para outro, no pra. Arriaram as velas dos saveiros. A Lua bate sobre eles, derrama a sua luz suave. As noites no cais, quando 
so belas assim, so destinadas ao amor. Nessas noites, as mulheres que muito temeram pelos maridos muito amor recebem. Quantas noites iguais a estas ela Lvia tem 
a cabea baixa e se recorda - no passou ao lado de Guma, a cabea dele descansando no seu colo, a luz do cachimbo que ele pitava se confundindo com as luzes das 
mil estrelas? Quando ele chegava numa noite de temporal, numa noite de muita angstia para ela, iam os dois para o saveiro e se amavam sob a chuva, ao claro dos 
raios. Era um desejo misturado com medo, com uma angstia inexprimvel. E era aquela certeza que ela tinha de um dia o perder num temporal. Era aquela certeza que 
fazia arrebatado o seu amor. Ele se iria afogar, ela tinha certeza. Por isso o amava todas as vezes como se fosse a ltima. Noites de tempestade, noites feitas para 
a morte, para eles eram noites de amor. Noites em que os gemidos atravessavam o mar oceano, eram gritos de desafio. Se amavam na tempestade. Nas noites negras de 
nuvens, noites despidas de estrelas, rfs de Lua, eles se encontravam e o amor tinha um gosto de separao, de fim. Nessas noites em que o vento domina, o nordeste 
ou o vento sul sopram com violncia abalando o corao das mulheres do cais, nessas noites eles se despediam como se nunca mais fossem se rever. Foi assim a primeira 
vez. No eram casados ainda e, no entanto, se amaram como se ela fosse ficar viva logo depois. Foi no rio Paraguau, junto ao lugar onde aparecia o cavalo encantado.
Manuel mergulha, Maneca Mozinha se joga do Paquete Voador. A vela est parada. Rodolfo est tirando o palet, ele vai se jogar tambm. E os trs corpos cortam a 
gua que  esverdeada a estas horas da noite. Manuel  o primeiro a subir.
- Ele no voltou ainda.
- Se ele voltasse nessa noite -pensa Lvia - se amariam suavemente, que a noite est bela, crivada de estrelas, a Lua derramando sua luz amarela. Nas noites assim 
ele ficava em cima do barco pitando o cachimbo. Ela se estendia no madeirame, ficavam ouvindo uma toada que vinha ningum sabe donde. De outro saveiro, talvez, do 
forte velho, de uma canoa. Depois ela se encostava nele, repousava a cabea no largo peito. Ouvia a histria das ltimas viagens, ouvia os seus projetos, um desejo 
tmido os ia envolvendo. Ficavam olhando o mar, achando que ele era um doce amigo e a noite feita para o amor. Os corpos se uniam sem violncia, no havia gritos, 
eram espaados soluos. A msica de um negro, triste e saudosa, uma cano do mar, se espalhava sobre eles. Era assim. nas noites como essa. Mas ele no volta, ele 
anda pela ltima viagem que fazem os marinheiros hericos em busca das terras de Aioc. "Ele se foi afogar", corno diz a cano. O destino do povo do mar est todo 
escrito nas canes.
Dr. Rodrigo fuma cigarro sobre cigarro. O cachimbo do velho Francisco est apagado. Ele pede fogo:
- Me empresta o fogo, doutor?
No fundo do Paquete Voador, mestre Manuel e Maneca Mozinha, molhados, conversam com Rodolfo. Esse deixa o grupo, pula para o Viajante sem Porto. Vem ficar junto 
de Liva, passa a mo no seu rosto. Sua mo est molhada do mar.
- Como vai ser agora, Lvia?
Ela o fita sem entender. Ela no se convenceu totalmente de que tudo mudou.
- Voc vai ficar com seus tios, no ? Olhe aqui, mestre Manuel e Maneca to dispostos a arrendar seu saveiro, a, comprar mesmo, se voc vender a prazo.  o melhor 
que voc faz.
Ela vira a cabea, olha o Paquete Voador. Um dos melhores e mais velozes saveiros do cais. Poucos como ele. Com que orgulho Guma dizia isso! Ele amava seu saveiro, 
ele o comprara para o filho, morrera para poder conserv-lo. Agora ela ia vend-lo, ia dar a outro homem tudo que restava de Guma no mar. Era como se entregasse 
seu corpo, como se se deixasse possuir por outro.
- Deixe eu pensar primeiro.
Mas se lembra do que Rosa Palmeiro lhe disse essa tarde. No se muda o destino de ningum. Pergunta ao irmo:
- Manuel tem muita carga?
- No ta dando vazante...
- Mais pergunte a ele se pode me arranjar alguma.
- Quern vai levar o saveiro?
- Eu.
- Voc?
Rodolfo no compreende. Quem a compreender mesmo?
O velho Francisco compreende. E tem raiva de estar to velho, de no poder ir mais no leme de um barco. Lvia olha o Paquete Voador e sente um grande amor por ele. 
Vend-lo era como vender seu corpo. E eles eram coisas de Guma, ela no podia vend-los.
A vela parou adiante. Rodolfo mergulha, o velho Francisco vai atrs dele, quer fazer alguma coisa tambm. Dr. Rodrigo olha Lvia, que no desfita os que nadam. Ainda 
h muita coisa que Dr. Rodrigo no compreende. Mas v que aquela deciso de Lvia de no se prostituir, de se entregar ao trabalho no mar, faz parte tambm do milagre 
que D. Dulce espera. Ele est se realizando.
Foi nessa hora que ouviram o apito distante do navio. Manuel falou:
- T pedindo socorro.
A noite era bela e calma, no entanto. Ouviam os apitos, gritos de S. O. S. de um navio perdido. Perdido como o corpo de Guma, que os homens procuram no mar com a 
luz de uma vela. Um navio que no acerta com seu porto, que se desviou do seu roteiro. Os olhos se voltam para o lugar donde parece vir o apito.  um apito aflito, 
um lamento triste, na noite de lua.
Os que procuram o corpo sobem. A vela est andando de novo. Dr. Rodrigo morde o cigarro. Um rebocador passa ao longe, vai em socorro do navio. Rodolfo conversa com 
mestre Manuel, que vai de espanto em espanto.
Maria Clara est estirada num canto. Tambm para ela tudo  doloroso. Ela se recorda da noite em que Jacques morreu. Ento chorara abraada com Lvia, era como se 
fossem duas irms. Quando chegaria o dia do seu homem? Quando procurariam o seu corpo nas guas de um mar morto? A luz do rebocador desaparece.
Rodolfo volta para Lvia.
- Ele t perguntando se tu topa uma viagem para Itaparica amanh. Ele tem muita carga pra l...
- t certo. Os saveiros balouam sobre a gua quase sem ondas.
No meio da noite a vela andou para longe. Os saveiros acompanharam. Se jogaram na gua novamente mestre Manuel, o velho Francisco e Rodolfo. Maneca Mozinha ficou 
pronto para saltar se achassem o corpo. E ficou pensando que Guma devia estar cheio de siris, devia estar enorme, desfigurado. Passou a mo no rosto afastando a 
viso. Aqui as ondas so mais altas. Ouvem pela ltima vez o apito do navio. Mas agora ele apita de um modo diverso, j notou o rebocador com certeza. Os homens 
sobem sem nada encontrar. A vela anda, gira em torno do barco. Lvia descansa a cabea nas mos. Um desejo de Guma, um desejo de sua carne, de sua voz, do seu gosto 
de mar, a domina. Mas inteiramente possuda desse desejo e ento, s ento, sente que nunca mais o ter, nunca mala as noites sero para o amor. O pranto corre intenso. 
 Maria Clara, que se encaminha para a consolar, chora tambm pela certeza de que um dia sofrer assim.
A vela rodopia, uma onda mais rpida a derruba, o pires vira, afunda. O velho Francisco comenta:
- No adianta mais. Me no aparece mais. Quando a vela emborca...
Suspendem as velas dos saveiros. Lvia inclina o rosto. O vento que passa levanta seus cabelos, Misturou suas lgrimas com o mar,  irremediavelmente dele, porque 
nele est Guma. Para se sentir novamente com Guma ter que vir ao mar. Ali o encontrar sempre para as noites de amor. Atravs das lgrimas ela v a gua oleosa 
do mar. Rodolfo  todo ele um gesto de consolo. Dr. Rodrigo esfrega as mos, tem vontade de que tudo aquilo acabe para que todos deixem de sofrer. Mas pensa que 
Lvia sofrer sempre. Mastiga o cigarro.
No mar encontrar Guma para as noites de amor. Em cima do saveiro recordar outras noites, suas lgrimas sero sem desespero.

Hora da noite

Lvia de braos fechados no peito. Lvia silenciosa. O frio entrava pelo seu corpo. Mas a msica vinha como um calor, um calor e uma alegria. O seu homem estava 
longe, morto no mar. Lvia de gelo, Lvia perfeita, de cabelos molhados escorrendo no pescoo. No veria o cadver de Guma, que os homens se cansaram de procurar 
com uma vela no mar de leo, parado, fechado como o corpo de Lvia. Os outros rondavam na sua porta. Rondavam seu corpo sem dono, seu corpo perfeito. Lvia desejada 
por todos fechou os braos sobre o peito. Nenhum soluo balanou seu colo moreno. Vinha a msica quente do negro:
 doce morrer no mar...
Nenhum soluo. S o frio que a invade e a viso do mar morto de leo. Debaixo dele correria o corpo de Guma como um navio sem leme. Os peixes rodariam em torno. 
Iemanj iria com ele e o cobriria com seus cabelos. Guma iria para outras terras como um marinheiro de um grande navio. Iria passear pelos recantos mais misteriosos 
do mar, acompanhado de Iemanj. Seguiria sua rota, marinheiro no mar procurando seu porto.
Lvia olha o mar morto de guas de chumbo. Mar sem ondas, pesado, mar de leo. Onde esto os navios, os marinheiros e os nufragos? Mar morto dos soluos, qued 
as mulheres que no vm chorar os maridos perdidos? Onde esto as crianas que morreram na noite do temporal? Onde est a vela do saveiro que o mar engoliu? E o 
corpo de Guma, que bolava com longos cabelos morenos na gua que era azul? Na gua plmbea e pesada do mar morto de leo corre como uma assombrao a luz de uma 
vela  procura de um afogado.  o mar que morreu,  o mar que est morto, que virou. O leo, ficou parado, sem uma onda. Mar morto que no reflete as estrelas nas 
suas guas pesadas.
Se a Lua vier, se a Lua vier com a sua luz amarelo, correr por cima do mar morto e procurar como aquela vela o corpo de Guma, o de longos cabelos morenos, o que 
marchou pela estrada do mar para o caminho das Terras do Sem Fim, das costas de Aioc.
Lvia olha da sua janela o mar morto sem lua. Aponta a madrugada. Os homens que rondavam a sua porta, o seu corpo sem dono, voltaram para as suas casas. Agora tudo 
 mistrio. A msica acabou. Aos poucos as coisas se animam, os cenrios se movem, os homens se alegram. A madrugada rompe sobre o mar morto.
S Lvia tem o corpo frio e frio o corao. Para Lvia a noite continua, a noite sem estrelas do mar morto.

Estrela

D. Dulce olha da escola. A noite ainda luta com a madrugada. Os saveiros saem. O filho de Lvia est em casa com os tios. Rosa Palmeiro botou a navalha na saia, 
o punhal no peito novamente. Parece um homem em cima do Paquete Voador. Mas Lvia  bem mulher, frgil mulher.
O Viajante sem Porto rompe as guas primeiro, Maria Clara canta uma cano do cais. Fala em amor e saudade. Mestre Manuel vai abrindo a caminho, olha para trs para 
ver como Lvia se arranja. Rosa Palmeiro vai no leme. Lvia suspendeu as velas com as suas mos de mulher. Seus cabelos voam, ela vai de p. Alcana o Viajante 
sem Porto, mestre Manuel deixa que ela passe na frente, ele ir comboiando o Paquete Voador.
Aves marinhas volteiam em torno ao saveiro, passam perto da cabea de Lvia. Ela vai ereta e pensa que na outra viagem trar seu filho, o destino dele  o mar. A 
voz de Maria Clara fica suspensa de sbito. Porque, na madrugada que rompe, um preto canta dominando o mar misterioso:
"Salve, estrela matutina."
Estrela matutina. No cais o velho Francisco balana a cabea. Uma vez, quando fez o que nenhum mestre de saveiro faria, ele viu lemanj, a dona do mar. E no  ela 
quem vai agora de p no Paquete Voador? No  ela? Ela , sim. , Iemanj quem vai ali. E o velho Francisco grita para os outros no cais:
- Vejam! Vejam!  Janana.
Olharam e viram. D. Dulce olhou tambm da janela da escola. Viu uma mulher forte que lutava. A luta era seu milagre. Comeava a se realizar. No cais os martimos 
viam Iemanj, a dos cinco nomes. O velho Francisco gritava, era a segunda vez que ele a via.
Assim contam na beira do cais.

Rio de Janeiro, Junho de 1936.


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